Me peguei – decubitado no sofá, a cara enfiada contra a almofada – tentando dissociar os pensamentos da condução imanente do apresentador de jornal. A mesma posição de ontem e de antes de antes de ontem, à mesma hora, em volta das mesmas pessoas, que, ao meu contrário, fizeram algo diverso nas primeiras e médias horas do dia.
Me peguei à procura da lembrança do momento em que assimilei esse destino como meu mesmo. Consigo discernir, de maneira suficientemente clara, uma série de episódios protagonizados por um eu altivo, amistoso, loquaz – falastrão até. Guardo diversas boas lembranças da universidade: conversas em roda no recreio, piadas em sala de aula, cigarros solitários – solitários por opção – vagando pelo campus matutinamente deserto. Apresentando músicas de minha dileção na rádio, pontuados – pelo menos, na minha lembrança – por comentários bem-humorados. O começo do presente namoro, pleno de boas incertezas e de brilhos que, diziam, desenhavam meus olhos.
Não sei dizer o que passava pela minha cabeça então – sei, contudo, que nada disto habitava meus prognósticos.
Passadas essas cenas, a clareza se enuvia, e já não consigo situar meu desprendimento. Não que me envolva em amnésia – as ocasiões, as lembro. A sombra se põe à hora aquela em que deixei de acreditar. Lembro pormenorizadamente da seqüência de eventos de um dia em que não atentei ao ocaso.
Ontem, no bar, meu pé inclinou-se sensivelmente à direita, e a tira do chinelo rebentou. Tive vontade de chorar. Não sucumbi aos prantos pela imbecilidade que envolveria a situação. Mas aquele chinelo… aquele chinelo era tudo que me restava. Hoje eu vou encontrar minha namorada de tênis, e ela vai encontrar um cara que, de tênis, só tem o passado. Ela fingirá que não viu, e eu me recolherei ao silêncio.
Minha namorada e alguns amigos insistem pra que eu volte a escrever. Dizem gostar; por certo, só querem proteger minha sanidade. De uma maneira ou outra, é digno. Não digo que não penso nisso constantemente. E não havia tentado, até agora.
Entretanto, esforços assim, esparsos e queixosos, não surtirão fruição aos amigos, tampouco descanso à minha mente. O que preciso é de algo que justifique e, sobretudo, dignifique uma vida de descaminhos. Algo grande.
Já tenho um arcabouço. Para além dos chinelos, eu tinha uma última coisa. Uma grande frase. Roubada, confesso. Mas guardo a ela uma serventia única. No entanto, não posso simplesmente desperdiçá-la aqui. Ressoa há épocas em minha cabeça, mas a ela resguardarei o devido momento. Tempo próximo do fim – porque, daí para frente, não me restará mais nada.
Escrito por cenarock
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