Fevereiro 29, 2008

Me peguei – decubitado no sofá, a cara enfiada contra a almofada – tentando dissociar os pensamentos da condução imanente do apresentador de jornal. A mesma posição de ontem e de antes de antes de ontem, à mesma hora, em volta das mesmas pessoas, que, ao meu contrário, fizeram algo diverso nas primeiras e médias horas do dia.

Me peguei à procura da lembrança do momento em que assimilei esse destino como meu mesmo. Consigo discernir, de maneira suficientemente clara, uma série de episódios protagonizados por um eu altivo, amistoso, loquaz – falastrão até. Guardo diversas boas lembranças da universidade: conversas em roda no recreio, piadas em sala de aula, cigarros solitários – solitários por opção – vagando pelo campus matutinamente deserto. Apresentando músicas de minha dileção na rádio, pontuados – pelo menos, na minha lembrança – por comentários bem-humorados. O começo do presente namoro, pleno de boas incertezas e de brilhos que, diziam, desenhavam meus olhos.

Não sei dizer o que passava pela minha cabeça então – sei, contudo, que nada disto habitava meus prognósticos.

Passadas essas cenas, a clareza se enuvia, e já não consigo situar meu desprendimento. Não que me envolva em amnésia – as ocasiões, as lembro. A sombra se põe à hora aquela em que deixei de acreditar. Lembro pormenorizadamente da seqüência de eventos de um dia em que não atentei ao ocaso.

Ontem, no bar, meu pé inclinou-se sensivelmente à direita, e a tira do chinelo rebentou. Tive vontade de chorar. Não sucumbi aos prantos pela imbecilidade que envolveria a situação. Mas aquele chinelo… aquele chinelo era tudo que me restava. Hoje eu vou encontrar minha namorada de tênis, e ela vai encontrar um cara que, de tênis, só tem o passado. Ela fingirá que não viu, e eu me recolherei ao silêncio.

Minha namorada e alguns amigos insistem pra que eu volte a escrever. Dizem gostar; por certo, só querem proteger minha sanidade. De uma maneira ou outra, é digno. Não digo que não penso nisso constantemente. E não havia tentado, até agora.

Entretanto, esforços assim, esparsos e queixosos, não surtirão fruição aos amigos, tampouco descanso à minha mente. O que preciso é de algo que justifique e, sobretudo, dignifique uma vida de descaminhos. Algo grande.

Já tenho um arcabouço. Para além dos chinelos, eu tinha uma última coisa. Uma grande frase. Roubada, confesso. Mas guardo a ela uma serventia única. No entanto, não posso simplesmente desperdiçá-la aqui. Ressoa há épocas em minha cabeça, mas a ela resguardarei o devido momento. Tempo próximo do fim – porque, daí para frente, não me restará mais nada.


Agosto 28, 2006

Pra mim, qualquer coisa menos do que eu vivo é o mesmo que nada. Vê-la a cada dois, três dias, ter a necessidade de fazer coisa qualquer, sair prum bar ou comer um lanche – pra iludir-se de convivência -. pra mim isso vale merda. Qualquer coisa menos que passar junto o dia inteiro, e o não passar ser apenas um percalço. Ver-se todos os dias há oito dos onze meses de namoro, e não fazer disso só mais um recorde – como fiz com tudo na vida. Passei dias sem pôr álcool pra dentro, até algum dia doente devo ter deixado de fumar – mas a vi todos os dias, e foi natural como poucas coisas são naturais.

Ultimamente, não vejo mais necessidade alguma de escrever por aqui, de escrever at all. Há tempos que não me forço mais a falar bonito, a abrir sorriso na rua. Não tenho mais porque desfiar conhecimento, arregimentar conhecimento, falar de música, ouvir música. Não ouço mais música – afora este SMiLE, que tem algo de Deus, assim como ela o tem.

Não tenho mais tido tesão em sair com outros, em conversar com outros. Saímos, e, qualquer um que esteja ao lado, tão-somente estará. Ela me basta. Isso deve impor algum respeito nos outros, porque eu não preciso dos outros.

Não preciso mais de papel timbrado, de mãos dadas, nem a preciso ao lado a todo o momento. Me basta a certeza. Certeza de que, ao meu oposto, não enchendo a cara, não fumando à morte, não atravessando a rua com o sinal aberto, vou-me antes. Certeza de que não tenho de ter certeza de nada, afora a dela.

O resto? O resto passa ao largo – e, pra mim, tanto faz.


Agosto 19, 2006

Às vezes, uma minoria de vezes, a cerveja desanda – e aquele otimismo ao qual me referira dá lugar a um ímpeto incontrolável de cair fora. De passar uma rasteira nas próprias pernas, levantar e virar a esquina pra sair daquela rua que, agora faz sentido, parece ser sem saída.

Tudo aquilo que o otimismo levemente embriagado arquiteta se implode ao primeiro sinal de ressaca antecipada. E, se um, todo-consciente, sabe por experiência própria que a sobriedade do dia seguinte não vai dar guarida às absurdezas, o segundo teima em fazer de seu niilismo certeza irrefutável. É sustentar nos ombros um anjinho e um capetinha, e, um gole a mais – o fatal – transfere o poder de mãos.

Entrou no quarto, o sono já pesava, e enfiou a cara no travesseiro. Quase indiscernível à cerveja e aos vários maços, subiu-lhe ao crânio o cheiro de amaciante. Cheiro de bebê, de gente de vida reta. De quem, antes e acima de tudo, dorme a cabeça num travesseiro.

E lembrou-se dos caras que abandonara minutos antes. Caras que provavelmente não conheceriam um travesseiro aquela noite. Que repousariam a cabeça na pedra. E o corpo, e o pé na pedra. E aquilo não seria nada demais. Amanhã acordariam na mesma pedra, com carros outros em volta. E cagariam no mesmo, ou em outro banheiro público, e negariam à velha da porta os trinta centavos. Passariam o dia filando cerveja de um, esmolando cigarro do outro. E não é nem questão de dignidade ou da falta dela – quando não se tem outra opção.

Em algum momento do dia, sentarão no balcão, ou na calçada em frente, pedirão uma caneta e escreverão sobre cu, porra, merda, pau, buceta. Mas não porque isso choca, ou porque algum grã-fino o adjetivará visceral, ou genuíno, ou socará uma escondido da patroa. É porque, mesmo que eles quisessem, é só isso que eles vivem. Só isso que eles sabem escrever.

Dormiu tragando amaciante, e sonhou, em meio a tantos sonhos aristocráticos, com aquele bêbado da noite passada aconselhando se quiser ir, vá, mas vá até o fim. Vai pisar em muita merda no chão; não vai passar um dia sem o que ficou pra trás atrair-te de volta. Mas se for, vá até o fim. Porque a recompensa é a única, a maior de todas.

Acordou com a cara no amaciante. Encontrou o quarto do jeito que o pusera pra dormir. A ressaca martelando, mas sóbrio, e, pela primeira vez, sóbrio não mudara de idéia. Sabia a iminência da decisão. Agora por si só, anjos e capetas expelidos junto com a embriaguez.

Arranjou tempo pra rememorar tudo em meio a sessões de autógrafos, fotos e entrevistas pro jornal, festas badaladas com gente badalada o badalando.

Nem precisava mais escrever – os outros pagariam seu brandy até o fim da vida, só para ouvir mais uma vez suas histórias de amor platônico, críticas sarcásticas ao governo que financiava sua publicação, e seu refinado, beletrista, saudosismo dum tempo bonito que só ele sabia que não vivera. Nem de um lado nem de outro. Mas que, no fundo, ele sabia que ninguém vivera. Porque, isso ele sabia, só existe um mundo a ser vivido: e esse ele abandonara com seus camaradas do bar. O dos que vão até o fim. Ele, ele não teve coragem de esquecer o cheiro do amaciante.

Nunca mais voltou ao bar. Tinha vergonha. Como ia se explicar ter voltado no meio do caminho? Algum filósofo disse que, uma vez entregue ao mar a jangada, pode-se aportar ou não no destino. Mas, do momento que se perde a vista da origem, a jangada está no mar a Deus querer.

Viveu a vida à deriva. Um pouco menor do que os que foram até o fim, mas um pouco maior do que os que não se aventuraram. E foi o mais marginal dentre os escritores de coisas bonitas.


Agosto 14, 2006

O grande barato da cerveja, inatingível com outras bebidas e substâncias, é o otimismo. Bêbado, todo mundo parece gente fina, toda cerveja é boa, e todo plano é executável. Foi bebendo que elaborei a viagem pra Borá, as 24 horas seguidas no Águas, a ida repentina pra São Paulo.

À medida que fui arregimentando garrafas vazias ao lado do computador, deixei o Danilo me convencer a cair pros lados da Europa. Quer dizer, se de fato se confirmarem as pechinchas que ele encontrou. Até lá, estarei com uma grana boa dum trampo fajuto que eu arrumei.

Mesmo que não dê em nada, serve de atestado empírico da grandeza da embriaguez. Dia após dia, chega essa hora em que eu já matei minha cota alcoólica, e os planos, das mais diversas naturezas, surgem. Não nego que uns oitenta por cento caem por terra com a ressaca. Mas o que sobra figura dentre os grandes feitos da humanidade.

Viagens, já as planejei pra basicamente todos os cantos que me vêm à cabeça. Vazar de casa, da cidade. Publicar livro, abrir boteco. Este blog rebentou duma madrugada de pródigas garrafas. O texto inaugural, uma garrafa depois. Devo dizer que nunca me arrependi de quaisquer incursões embriagadas.

E tenho pena de quem não bebe. Admito, boa parte da minha vida eu não bebi. Mas não lembro nem quero lembrar como vivi sem essas doses tão bem-vindas de otimismo noturno. Gente que não bebe ou bebe pouco fica sempre na iminência de sair fora, e se diverte rechaçando os bons planos de quem bebe. Evidentemente, nunca se divertem. E nunca fazem nada.

Do que só posso inferir que a cerveja é o meio e fim último do homem.

Desafortunados os que só dispõe da cabeça sóbria pra pensar, e só aparecem com idéias tolas, factíveis a qualquer outro. Nunca escrevi aqui sem um mínimo de álcool no sangue; quando o fiz, esbarrei em idéias chão.

Pouco antes de dar o primeiro gole, estava com um plano fixo: voltar a ser um cara inteligente. Ler uns livros, ouvir umas músicas, arranjar rumo pra vida. Pô, eu me lembro em épocas de vestibular – todo cheio de mim. Não errava uma sequer no Show do Milhão. Bons tempos em que tinha a tabela periódica na ponta da língua, e sabia ao menos cinco representantes de cada movimento literário, ainda que nunca tivesse lido algum deles. Jogava o #gamagame no mIRC, sabia todas as capitais e as propriedades da multiplicação. Agora tomo um pau dessa molecadinha – não lembro as variedades de leucócitos, e só consegui me atinar dois poetas brasileiros.

Mas aí eu vejo meus rivais de gamagame prestidigitando Drummond com um m só, e enfiando a Turquia na África. Então eu recordo o sujeitinho nojento que eu era, sabendo, de tudo, tudo. E nada também.

Minha mais respeitosa reverência pra quem trilhou o caminho todo, e ouviu os discos que cita, e cita os países que visitou. Mas aí já fica muito difícil. Esbravejar o que não leu, cantarolar o que não ouviu, descrever o que não conheceu, isso daí é pousar no meio do mar. Eu me contento em sair pra Europa, que isso dinheiro paga.


Agosto 9, 2006

Engraçado. Por mais que eu me queira inconstante, minha vida sempre foi duma sistematização angustiante. Acordo, pretendo alguma coisa interessante pro dia, a barriga almoçada posterga os planos; a primeira cerveja do dia me assegura que não farei nada hoje. A segunda me excita o lado aventureiro – forjo idéias, crio, escrevo. A terceira concretiza os planos da segunda. A quarta fita a obra da segunda e da terceira – porra, tá uma merda. A quinta, quando existe, me baqueia e me põe a dormir acreditando: amanhã há de ser um novo dia.

E o ciclo se repete inexorável e irrevogavelmente. Acho que é só a cerveja que ainda me põe de pé. Sei que ela vai me levantar e me deitar. E acho que é só ela que ainda me segura nessas bandas. Ainda que seja talvez a única característica universal do país, é ela que me dorme com a promessa de ainda ter alguma chance por aqui.

Toda despedida nessa cidade culmina nas projeções dos que insistem. Quem vai ficar por aqui?, e sempre sou citado. Pô, toda sorte pra quem vai, mas eu não saio nem a pau. Não é questão de coragem ou desprendimento – mais do que qualquer um que eu conheça, eu já fui pra todos os cantos. E sempre retorno. Sempre saudoso. Não que Londrina carregue muitos méritos em particular. Não posso mais nem dizer que moro aqui, se, na mais absoluta desértia de bares próximos, só tenho bebido em casa. Tomo banho dia sim dia não, na falta de quem me cheire na rua.

Vinte e um anos cruzando as mesmas esquinas, freqüentando a mesma padaria, bebendo nos mesmos botecos. Não é possível que o cara que me atravessa na calçada já não tenha me visto, e que um monte deles não reconheçam o cabeludo de pernas tortas – assim como tantas caras eu já assimilei sem nunca me interessar a quem adornam.

Muito mais notariam minha presença lá fora que minha ausência aqui. Mas é que eu acho que, pruma vida que já levantou boa parte de suas bandeiras brancas, as que restam tão fincadas na terra onde eu vivi. Caindo fora, que obrigação tenho eu com pessoas, trabalhos, amigos?

Se algum dia fosse eu a desertar, eu sairia sem avisar. Porque eu não acho justo convidar dez ou quinze pessoas, os mais afins, e deixar de fora a Célia da padaria, que eu nem preciso mais pedir dois ten vermelhos que já ta na mão; o Paulão Paulada, sempre escoltando a esquina de casa; o cobrador do 305, sósia do Magno Malta, que já sabia a treta que era pra passar meu cartão quebrado. Aquele mendigo com vitiligo do Calçadão, a quem já neguei um sem-número de esmolas. A velha gorda do bar do lado do Fakir, que deve achar que eu prefiro conhaque a cerveja. O porteiro, a zeladora do prédio, o guardinha da UEL, o tiozão do xérox, a garçonete do Pátio.

Duvido que algum deles saiba meu nome. Que eu tenho blog. Que, pela primeira vez, eles são assunto de blog. Eu não saberia se eles morressem, e eles não notariam que eu fui embora. Amigos, mantém-se contato, arranja-se outros. O que me dói é abandonar esse contigente filho da puta de paralelepípedos já gastos da minha sola e de gente que eu convivi a vida toda sem nunca endereçar um sorriso que fosse.

Se a vida me for de todo negada pelas oportunidades que passaram do outro lado da rua, eu farei como faz todo mundo que não precisa de blog pra se tocar disso: eu me abandono. Mas não arredo pé. Posso perder namorada, família, amigos, pode trancar a rua, tombar o prédio, fechar o bar e aumentar a cerveja. A pinga pode ser fiada, e a sarjeta longe de casa. Posso esquecer a Célia, e nem lembrar onde moro: eu sempre terei Londrina.


Agosto 7, 2006

Deselegantemente oposto a um amigo meu, eu não sinto a menor saudade do segundo colegial. Claro, tenho grandes histórias da época, mas que só me tem uso pra mostrar pra minha mina como um dia eu já fui legal.

No entanto, não sei, talvez seja a sétima de um dia de boas cervejas, mas me deu aquele ímpeto e eu reinstalei o mIRC.

Porra, nem lembro há quantos anos eu acessei a última vez o #londrina. A internet tem dessas coisas: é só começar a pegar o jeito da coisa, e alguém já inventa um substituto.

Bons tempos em que status se determinava pela arroba antes do nome da pessoa, que o canal da cidade tinha eternas duzentas pessoas conectadas, e você conhecia metade dos que estavam lá – ainda que fisicamente só uns cinco.

Elegantemente oposto ao meu irmão, nunca fui rato de computador. Mas o mIRC marcou minha vida como poucas coisas e pessoas marcaram. Eu lembro: foi no #gamagame em que ampliei minha casta de conhecimento inútil, no #gamo finalmente obtive o devido reconhecimento por tão extensa miríade cognoscitiva, um imponente + antes do meu nick, que nem lembro mais qual era. No #jesus eu aprendi a contestar as falácias religiosas. Foi no pvt que eu passei a primeira cantada numa mina – e levei um toco. Foi naquela poluição de cores, underlines, arrobas, que eu… bem, juro que fui até abrir outra cerveja, mas não sei dizer o que mIRC fez por mim. Sei que eu me diverti pra caralho.

Com o tempo, tomei a cara de chegar nas minas, de blasfemar minha vó crente. Quanto ao #gamagame, confesso minha mais absoluta involução em não mais lembrar o nome de cinco empresas de telecomunicação ou quem gravou a música “Mesa de bar”, junto com Alcione no cd “Celebração”.

Bom tempo em que cada roda de amigos tinha seu próprio canal, tempo em que abri dissensão na luta pelo comando da sala. E saí vencido. Humildemente outorgaram-me o comando do canal dissidente, e aprendi da maneira mais humilhante a não me embriagar com o poder. Tempo sem MSN, celulares; em que você podia chamar o cara sem se preocupar em arruinar a trepada dele.

Tempo em que o nosso canal tinha nome de maconha, mas todo mundo se cagava por dentro quando a primeira puta tirava pra fora a buceta mal lavada.

Parece despropositado esse saudosismo das coisas modernas, mas em algum momento isso fez sentido pra mim. Não sei se pelo mIRC em si ou pela vida que eu vivia no tempo do mIRC, e nem a quero de volta – deselegante oposto a um amigo meu. Mas eu encho o copo e dou um trago fundo só de lembrar.

O mIRC anda deserto, e ninguém se propôs a conversar comigo até agora. E nem devem. Eles, à procura de mp3 ou uma metida virtual, não entraram lá pra ouvir saudosismo barato. Minto: um cara me abordou com uma concisa propaganda do canal de jogos concorrente. Tentei puxar conversa, mas insistiu na propaganda. Não estava lá pelo saudosismo.


Agosto 2, 2006

Sempre fui muito lerdo, seja pra entender piadas, indiretas, e, principalmente, pra valorizar um bom dia. Não sei se é esse Uncle John’s Band no fundo, mas hoje, pela primeira vez, eu entendi que tinha vivido um bom dia – sem precisar a ressaca me alertar a tanto. Já joguei a cabeça contra a parede por só descobrir minas interessadas quando já não mais estavam na minha vida, por valorizar amizades quando o avião já aterrisava em terras distantes, por demorar um ano pra perceber que vivera o melhor dos anos.

O dia só acaba quando a cerveja me induz à sonolência, e como isso ainda não aconteceu, vou considerar que foi ainda hoje que descobri que minha mulher lia todo dia o que escrevi pra ela. Sempre me lastimei à minha garota, insensivelmente, de não ter aproveitado à exaustão o momento em que tinha à mão a mulher que quisesse; que me comprometera cedo demais. Mas buceta nenhuma vale a certeza de acordar amanhã e saber que ela vai ter lido novamente o que escrevi pra ela, e saber que ela, mais ainda, vai me querer ao lado o resto da vida. Beg to differ, diria o Danilo, mas eu ponho minha mão n’água morna se alguém aqui tem tanta certeza do que está fazendo quanto eu. E pensar que só a tenho porque comentei descompromissadamente seu porte privilegiado com uma amiga em comum. Não tivesse ido na aula, ou simplesmente não tivesse comentado, estaria com uma putinha qualquer agora. A vida tem dessas coisas. Minha maré de sorte no bingo e no amor tá aí pra renegar o ditado.

Muito além daquela paixão cega que me custou chifres e declarações hoje rídiculas, é amor incondicional. A diferença é tênue, quase imperceptível: é o momento divino em que se pára de pensar em si mesmo e abnega-se devoto ao outro. À minha natureza, saturadamente egoísta e indiferente ao resto, a fronteira é ainda mais violenta. Querer bem ao custo que for, e sem o elogio do reconhecimento, isso nunca fez parte da minha cartilha – nem com a minha mãe. Me é tudo estranhamente novo. Mas bom. Acima de tudo, bom.

E como o dia ainda não acabou, também me é excitante a experiência de vender o primeiro livro. Sem ter que pedir, anarco-hippies malditos, pra comprar minha arte preu tomar uma nervosa, e repassar brinco do camelô por cincão. De vender o primeiro livro e, metros dali, ouvi-las, ainda mais extasiadas que eu, folheando em plena rua o que devem ter tomado por um bom negócio. De me fazerem acreditar que não pagaram só pela minha carinha bonita – ainda que isso deva ter inflacionado um pouco a barganha. É bom ter alguém esperando e pagando por algo que é, antes de tudo, meu, só meu.

Antes que o dia termine, é muito bom ter alguém conversando contigo, alguém que teria a obrigação moral de não falar mais contigo. E, muito além disso, apreciar a companhia, e até se desculpar. Implícita, mas uma desculpa. É legal saber que, apesar das cagadas, tem (muita) gente se importando. Já fodi muito nêgo; se todo mundo que, uma vez que fosse, eu quisera morto, sobrava dois gatos pingados. Já passa da hora de reparar tanta merda.

Quisera eu acreditar, ingênuo, que depois do álcool e do Grateful Dead, a sensatez permaneça. Minha história é cíclica, e amanhã vou estar redigindo mentalmente o obituário de todos que quis bem hoje. Mas o que tá escrito, tá escrito, e por mais que amanhã eu foda com a sua vida de novo, neste momento eu te quis bem. E, por mais que o dia de amanhã seja uma merda, hoje eu tive um bom dia.


Julho 23, 2006

Minha mina acha deprimente, mas eu acho é muito bonito ver um cara como o Tácito, do alto seus quase quarenta, mendigando, noite após noite, cigarro, cerveja e lugar pra dormir. Dum lado pra outro, com a indefectível pastinha de aquarelas à procura de comprador, que eu confesso nunca ter conhecido. Se dez por cento das histórias do cara forem verdade – e devem ser -, ele já viveu bem mais do que eu conseguirei viver. Já bateu, apanhou (tem que ter inimigo, né, senão a vida perde a graça), passou tempos em cana, foi procurado, fugiu pro Matogrosso, já pôs pra dentro basicamente tudo que pode ser posto pra dentro, já conheceu e se amigou de todo mundo que precisava ter conhecido e se amigado. Dormir na rua não é problema quando se deita na própria história.

A treta vai ser, depois de um período de férias altamente epifânico, voltar pro meio de 160 pretensos jornalistas querendo mudar o mundo entrevistando puta e fazenda matéria sobre trigo. De dia, claro. De noite, maconha pra uns e Acústico pra outros. Velho, sai pra rua antes, quebra a cara um pouco, vai conhecer quem quebrou a cara. É muito cômodo pegar o carro do pai, seguir pra Penitenciária e voltar com matéria de denúncia do sistema prisional – ou da merda que for.

Essa minha recente incursão pelos meandros da parte suja da cidade tem sido muito mais interessante do que qualquer protesto por equipamentos pro curso, que, sejamos sinceros, toda a burguesada lá tem dinheiro pra arranjar. E, à diferença do jornalismo tradicional, eu não vou divulgar o resultado pra ninguém. Caiam na rua e façam o mesmo, ou continuem se maquiando pruma câmera a que ninguém assiste.

Elogio desgraçado esse da praxe condenável de se humilhar as pessoas a fim de fazê-las aprender algo. Virou moda agora, provavelmente herança desses livros de auto-ajuda pra alunos de Administração. Tem que pisar no idiota, porque só assim pra dizerem que você é bom professor. E até vira patrono de turma. Ainda me intriga o que eu deveria depreender da implicância desmesurada com o comprimento do meu cabelo – além da frustração evidente de quem tem de cobrir seu ralo capacete grisalho com uma tintura de péssimo gosto.

Parece que o pessoal esquece que o telejornalismo seguramente figura como a forma mais reles de expressão humana; que a senhora em questão doutorou-se com uma tese grandiloqüentemente infantil, inepta e mal-escrita, e com a única intenção de avolumar seu contra-cheque; que recebeu por um tempo razoável gratificações que não lhe cabiam; que seu histórico despeito com textos rebuscados só se deve a sua inabilidade semi-analfabeta de reproduzi-los. Que só trabalha nos bastidores porque nunca teve altura, beleza, carisma e uma voz feminina o suficiente pra promover-se frente às câmeras. Que seu desamor incontido não passa de reflexo do lesbianismo malogrado (lésbica não, porque, como já dizia o sábio Jess, lésbica é bonita; feia é sapata). Que não passa de uma profissional meia-boca lembrada, bem, por ninguém. Até agora – suponho inédita qualquer homenagem discente a ela.

Mas finalmente caíram no conto – décadas depois de ódio sistemático, institucionalizado e, acima de tudo, sensato, alguém finalmente caiu no conto. Uma conjuntura matematicamente improvável, contra-prova da seleção natural, conseguiu juntar um quórum que, desavivenciado, achou bonito esse negócio de apanhar. Pena que apanharam da pessoa errada. Podiam ter apanhado da polícia, e pego nojo dos porcos; podiam ter apanhado do pai, e aí não precisariam ir pra colégio construtivista; podiam ter apanhado da cerveja e da vida, e dormido na rua. Podiam ter aprendido alguma coisa de verdade.

Eu, o Teixeira, o Tácito e o Cibié távamos discutindo assuntos correlatos quando o moleque começou a apanhar. Devia ter uns dez, onze anos, e juntaram uns dez pra espancar a criança. Sei lá se pegou pra si a grana da pinga, se fumou a nóia sozinho, ou se deu azar mesmo, mas acabou virando o espetáculo pra platéia impassível dos três botecos da redondeza. A gente, que tava descendo o pau nessas injustiças do mundo, não tinha muito o que fazer. Despedimo-nos e seguimos, cuidando pra pisar só nas pedras brancas do Calçadão.


No fundo, era só de ontem de que eu precisava

Julho 9, 2006

Aos dez anos, se não me falha a memória, vivenciei um episódio seminal na minha vida, fundador de uma persona incontidamente raivosa: um dente-de-leite recalcitrava aos rituais anciãos de auto-extração dentária, e outorguei a tarefa pela primeira vez a um profissional; o desgraçado puxou papo o suficiente pra me distrair e, súbito, arrancar meu molar desacautelado, às risadas do meu pai, cúmplice do ardil. Não achei graça nenhuma; em verdade, esqueci do dente e concentrei-me ao nojo. Com o tempo, a raiva passou, mas a descrença perdura e revolve a cada semestre que torno ao consultório. Aquele molar decadente levou junto boa parte da inocência que eu criança deveria ter resguardado pelo menos até o primeiro assalto, um mero ano depois.

Assalto que provavelmente levaria o boné e deixaria a inocência. O meu problema não são as atitudes. Ainda que eu tenha experienciado muito pouco nessa minha vida pequeno-burguesa (FLÁVIA, Camarada. Conversas de Bar, 2006), e meu imaginário de estupros, tiros e corpos dilacerados advenha de Carlos Camargo e Faces da Morte, não me enxergo chocado mui facilmente. O que me aflige são as posturas.

Horas de conversa as mais tranqüilas possíveis, ele levanta, despede-se calmamente e, à porta, esmurra a mulher e a arrasta às bicudas pra fora do lugar, regendo as ameaças dos mendigos presentes – estes sim preocupados com as atitudes. Fosse um desses mendigos protagonista de cena semelhante, me valeria da indiferença adeguiana de sempre. O problema, pelo menos pra mim, não é bater em mulher. Quer dizer, nada a favor também – o trauma reside na violência, independente do gênero. O que me deixou atônito o resto da madrugada foi a abrupção, de devaneios inocentes sobre o caráter pueril das composições de Brian Wilson, pra socos e chutes, segundos após. Nesse caso em particular, o qüiproquó marital me deixou ainda mais fascinado com aquela figura sempre tão coerentemente pacífica.

Mas, afora essa exceção plenamente justificável, me aflora o asco não a incoerência, mas a indefinição, o livre-trânsito. Não me deixo impressionar por citações de Kant, consciência ambientalista ou peitos volumosos. Prezo unicamente numa pessoa não a postura coerente, mas a coerência de postura. Tenho grande simpatia por loucos, os patológicos, por serem estes sempre coerentes – em sua incoerência peculiar, mas o são. Deles espera-se o inesperado, inclusive uma postura coerente.

Cultivo ódio irrefreável por pessoas que se orgulham, junto comigo, de levar a faculdade na mais voluptuosa coxa, e, à primeira suspeita de potencial reprovação, reprovam-me por não adimplir com a parte que me cabe no trabalho. Gente que, alvo de ódios pregressos, largou ao chão uma vida de sujeira e agora, admitida ao trabalho gratuito de ONGs ambientalistas, arrastam pra baixo do tapete a sujeira da vida. Que, ao primeiro trabalho na TV, desviam o foco pra longe da possibilidade de quem não trabalha na TV.

Não são meus olhos verdes ou a propriedade de um White Album com dois discos 1 que me encaixam numa parcela minoritária da população. Prefiro acreditar que isso esteja ligado ao fato de que sempre soube lidar com relativa destreza poética o ódio, e, no entanto, padecer de desajeito diametral no trato com o amor. Assim como um expressava seus sentimentos no fêmur da esposa, outro vomitava no chão do bar seus ressentimentos conjugais, inadvertidamente recobrados por mim.

Nunca ascendi a lágrimas, sonetos ou parapeitos de prédio por mulher alguma.


I was havin’ a high time / livin’ the good life

Julho 6, 2006

Ontem ouvi Elton John en passant e me deu uma baita saudade. Saudade dum tempo que de Elton John não tinha nada, mais uma das incongruências daquele tempo, tempo nem tão distante assim. Tempo em que eu corria desesperadamente atrás dum casamento, mesmo sem conseguir manter fidelidade sequer a um bar, quanto mais aos à minha volta. Amigos dos quais me isolei, uns com razão; de outros talvez não devesse ter ido tão longe.

Dum tempo que vivi cercado de gente, mas que carreguei sozinho às costas. Tempo que me rende só boas lembranças, mesmo – e principalmente – dos fracassos.

Nunca pensei que fosse sentir saudade das ressacas, da sarjeta, do trajeto de volta cambaleado e sozinho.

Era estranhamente reconfortante saber que, ainda que àquela hora da madrugada eu estivesse bêbado, desacompanhado e sem um puto, no dia seguinte, àquela mesma hora, eu estaria bêbado, desacompanhado e sem um puto.

Fodido por fodido, quer mais é se foder. Ninguém paga suas contas, se nem você mesmo as paga. E aí cruza a cidade a pé, come resto dos outros, do lixo, esmola cerveja, dorme na rua, essas pequenas coisas que embelezam uma vida. Aí chega uma hora, e é traiçoeira essa hora – chega aos poucos, parece que veio pro bem -, em que aparece primeiro um saldo na conta, um trabalhinho aqui, outro lá, uma mulher que sua consciência, até então recôndita, não deixa trair. E vão-se somando responsabilidades e patrimônios. Coisas que a vida administra passam a administrar a vida.

Durou infinito até o dia em que me encontrei. E não gostei nem um pouco do que encontrei. Tentei reiteradamente me desencontrar, mas o álcool sai, a manhã volta, e volta com ela o eu indesejado.

E acho que sempre voltará. Acho que as coisas só correm bem até a hora que você toma consciência. Um dia me avisaram que a moral que eu acreditava universal, na verdade era só minha. Aquilo desabou sobre mim, e eu comecei a perceber os outros ao meu redor – e nesse momento pararam de me perceber. Pessoas só se importam com quem não se importa com elas. E tudo dera certo pra mim quando eu fiz dos outros meu espelho.

Há pessoas que simplesmente não tiveram história pra contar, e desses eu me compadeço; há os que contaram a sua história, porque tiveram o infortúnio de acordar a tempo de fazê-lo, e a esses eu me recolho; e há ainda os que não puderam contar sua história, porque nunca se distanciaram dela. Esses eu invejo: são os que mereceram ter sua história contada pelos outros.