Até que não é de todo mal fazer esse meu trabalhinho jornalístico bobo. Esvazia a mente e enche o bolso.
Mas me privando de encher a cara e dar vazão à parcela útil da minha sabedoria, ou mesmo deixando de escrever presse blog inócuo pra redigir releases sobre biodiesel, me sinto vendido – e já havia explorado isso com bem mais fluência em outros momentos, inclusive quando inaugurei o blog; inaugurei-o por esse motivo.
Não gosto de me comparar a gênios (afora Brian Wilson, que não é gênio, é deus; e com Deus a gente não analogiza – comunga), mas esse entreguismo me tem feito sentir como Andy Kaufman vendendo a alma em Taxi.
Na verdade, isso é tudo uma grande premissa boba pra falar do cara. Tenho me doído pra falar dele desde que revi Man on the Moon, ontem à tarde. Aos familiarizados, meu asco pelo cinema é histórico e emblemático, mas esse filme – assim como Cidadão Kane, Patricinhas de Beverly Hills e Curso de Verão – merece uma apreciação extra-Valentino.
Não que sustente grandes méritos cinematográficos. Ou que sustente, quem sou eu pra decidir isso. Mas vale como única forma de se tomar idéia do que foi o maior gênio da comédia, junto com o Seinfeld (e incociliavelmente oposto a este), pra quem nasceu, assim como eu, um ano depois de sua morte e mora no Brasil.
Discutindo com minha mina hoje – que, à sua maneira, não foi com a cara do Andy porque ele é mau -, veio-me o paralelo perfeito: Danilo. Pra quem teve o infortúnio de não conhecer, é o cara que não perdia a piada, mas muito menos a entregava de graça. Cansávamos e desistíamos de implorar aquela situação ou imitação particular, porque isso só aproximava do zero as chances de ele fazê-lo. Nos surpreenderia num canto da esquina, surgindo às costas a imitaçào, quando ninguém mais estava interessado.
Fazia o Teixeira chorar de rir, a outra que me falha o nome chorar de ódio. O Chafic, logo ele, ser expulso de sala. Me fez devolver Pepsi Twist pelo nariz na frente da namorada, porque decidiu que essa era a hora de imitar o Faustão. De repetir a mesma frase pro Falleiros durante uma hora até fazê-lo humilhado. E deixar-se humilhar, porque não quer ninguém mal-humorado.
As piadas eram primitivas (já vendi muitas pra ele), mas o timing impecável. Natural de quem, muito além de fazer humor, vivia isso.
E eu suspeitei que nunca emagreceu porque era mais engraçado gordo assim.
Finalmente, Danilo, foste desmascardo. Fim da piada pra você.
…
A única merda é que, assistindo o filme, os punchlines são previsíveis, quando não entregues de antemão. Já dá pra saber que era tudo brincadeira.
…
Eu queria ser o trouxa que comprava as mentiras de Andy. Queria ser eu na época a rir de sua cara, quando era ele que ria da nossa. Queria ser eu a me apiedar do comediante incompetente, quando ele tinha pena de mim. Queria ser eu a acreditar que o cadáver no caixão era só mais uma armadilha, quando muitos ainda acreditam. Eu queria ter participado da piada.