Setembro 22, 2006

Eu não estou disposto a pagar o preço. E, quando ele me disse que iria até o fim, eu entendi que nunca estive disposto a pagar o preço. Os preços, do que bem queira, estão em todo lugar – as etiquetas no supermercado, os natimortos num pote de conserva no verso do cigarro.

Mas nunca fizera o orçamento da minha vida. E foi isso que me salvou; em cima da hora, ali – assinando a primeira prestação dum destino aberto à facão por todos que o trilharam antes de mim, e que agora me puxavam absortos à mesma merda.

Minha descida é com corda, com a segurança de me puxarem de volta quando o fundo não for chão. Guardo minha admiração em quem erra por terreno movediço, mas mantenho seguro meu porto.

É bom que meu texto não agrade; sei que nunca vou poder lhe confiar a saideira. E me levo sozinho. Assim não herdo nada. Principalmente, não lego nada. Nunca beberam comigo quando eu bebi sozinho.


Setembro 13, 2006

Não vou perder tempo falando mal de cinema, literatura e correlatos. Tenho pra mim que são coisas verdadeiramente repugnantes, e azar de quem diz que gosta.

Mas é engraçado o gosto que eu gradualmente perdi pela música. Assim como todos os afiliados ao orkut, eu já tive meus tempos de amo música, não vivo sem ela. Mas hoje em dia só ouço o que toca na rua e no carro, sendo que neste caso só serve à função de exponenciar seu volume ao me aproximar da Casa da Cachaça, tão-somente pra irritar seus freqüentadores.

E o foda é que eu sei que eu deixei de ouvir música porque os outros também ouvem. É patético mesmo, eu admito. Hoje me peguei – e só me atinei disso agora – respondendo a um cara que me perguntara se me afeiçoava a determinada banda: não – por quê? – porque fulano gosta.

A única coisa que ainda me pega pelos culhões são essas malditas pérolas pop. Desde pequeno, sempre tive uma afetada e brega predileção por coisas coloridas – arco-íris e caixas de lápis de cor cromaticamente ordenadas.

E toda pérola pop é colorida. Nunca gostei de blues por ser preto, jazz azul-marinho, música erudita branca. E nem vou tanger a questão do cromatismo aplicado à teoria musical, que eu ainda estou no primeiro semestre de violão e não sei o que é isso. Mas uma coisa é certa: Good Vibrations tem todas as cores da cartela, assim como Uncle John’s Band ou Penny Lane.

Neste momento em particular, é Care of Cell 44, do Zombies, que habita o repeat do Winamp. Nada que já não tenha sido descoberto por todos os afiliados ao orkut, mas não nego que fiquei feliz da vida de conhecê-la ontem.

É muito bom esse negócio de catarse em três minutos e meio; mais ou menos o mesmo efeito que a benzina nos dava adolescentes – também deixava tudo colorido e durava três minutos e meio.

Eu quero um dia compor uma pérola pop; aí eu descanso, e meu filho vai se defender no colégio: a gente pode ser pobre, mas meu pai compôs aquela música. E, no obituário do JL, vai sair: morreu desempregado o autor daquela música, aquela pérola pop.

Não existem obras geniais. Existem pessoas geniais, que, em decorrência da sua genialidade, lançam obras geniais.

Obras são indissociáveis de seus autores. Eu não consigo rir de pessoas das quais eu não gosto. E acredito que qualquer pessoa com um mínimo de dignidade faria o mesmo. A melhor piada possível não tem graça alguma num idiota. Então por que uma obra plena de méritos musicais seria genial na mão de um cretino? Seria apenas uma obra plena de méritos musicais – nada além.

Ou você adota uma postura coerente com a genialidade – insuportabilidade, reclusão, extravagância –, ou será apenas mais um.

Por isso que Brian Wilson é o cara. Não fosse seu histórico de esquizofrenia patológica que não convém detalhar aqui, seu cancioneiro seria só um cancioneiro fudido, assim como o do Paul McCartney, que não é gênio porque é, em última instância, um borsa.

Mas, como sempre, isso é só uma opinião errada. Não precisa dar de dedo na minha cara.


Setembro 11, 2006

O segredo da vida é o timing. É saber não o que fazer, mas quando fazer, quando começar, e, acima de tudo, quando parar.

Por maior o instinto de esgotamento das alternativas, há de se ter aquele impulso de largar tudo enquanto ainda está por cima; sob pena, não o fazendo à hora, da graça perdida, da decepção, eventualmente da degradação ou da morte.

Saber é uma coisa. Saber, eu sei – o que nunca me abonou de incorrer na cagada. Minha vida foi uma história cíclica de auges e decadências. Sistemático que sempre fui, não passou um casal de anos escolares sem que a série de engraçadão da sala antecipasse a de vexatório ostracismo.

E era chegar todo fim de ano pra me distanciar brigado dos camaradas dos quais já havia enchido a paciência nos meses pregressos.

Comprava discos até me endividar, pra daí adimplir as dívidas vendendo os mesmos discos por um quarto do preço. Fui sumariamente expulso da Morada do Sol por desviar-me dos olhares das mães já cansadas da minha convivência diuturna com seu filhos de metade da minha idade.

Bebia até contemplar tudo que bebera, acrescido do almoço do dia, à frente das pernas abertas. Passei todos os minutos em que estive acordado ao lado da mulher que me aturou até o momento que não me aturou mais ao lado. E nisso me virei pra ver as horas, e passou um gordinho com o uniforme do Newton Guimarães.

Não que eu tenha atingindo a maturidade, longe disso, mas tenho me esforçado a respeitar o timing das coisas. Dia desses, abandonei o bar enquanto ainda tinha gente lá. Abandonei antes de ser eu o abandonado.

E não mais nutro remorso algum em largar amizades pelo simples fato que já deu.

Com o tempo, os rostos simpáticos começam a se contorcer intolerantes – e, tivesse me despedido de Borá meses antes, não morreria por lá.

Afastei-me prematuro dum lugar que pare cem poetas por dia – todos ruins. Não abandonei Bukowski porque nunca o quis conhecer, e não posso abandonar um lugar que nunca me acolheu. E foi só confirmar as horas que passou o gordinho com o uniforme do Newton Guimarães.

Não nego: tentei-me a olhar as horas de novo só pra ver se o gordinho passava. Mas me guardei à cerveja e ao cigarro, porque às vezes é melhor deixar quieto.


Agosto 31, 2006

Passou a vida inteira comprando pão na mesma padaria. Não que o pão fosse grande coisa – em verdade, era cinco centavos mais caro que na concorrência e vinha com a bundinha casqueada, o que o obrigava a serrar aquele último pedaço e jogar no lixo; mesmo assim, não era a mesma coisa – qual bateria eletrônica.

Passou a vida inteira comprando pão na mesma padaria pela mulher que lhe servia os pães. Não que fosse bonita, ou tivesse charme qualquer. Nunca tivera tesão recalcado nenhum nela; era casado, e amava o suficiente. Era mais pela simpatia, pelo bom trato que lhe dispensava. Sabia seu nome, quando poucos sabiam. Tentava acertar o pedido antes de ele pedir – geralmente errava, mas valia o esforço. Quando a clientela minguava, puxava papo sobre futebol, visivelmente desgostosa do esporte que era.

Certa feita, até coincidiu de descobrir-se que apareceriam no mesmo bar naquela noite. Um despretensioso te trombo lá então, e ela não apareceu, mas ele sabia que não era demérito. Fora da padaria, não teriam nada pra conversar.

Até que um dia se atrasou no trabalho e foi comprar pão mais tarde que o usual. E pegou fila, coisa estranha até então. Enquanto esperava, escrutinou os preços de picolés vizinhos, ainda que não os fosse degustar. Desviou-se inevitável. Ela se distraía com um cliente, um qualquer, chamando-o pelo nome e perguntando do Corinthians.

Saiu parcimonioso da padaria, e disse pra mulher que comeriam fora aquele dia.


Claustrágoro II – Cotidiano

Agosto 23, 2006

Os olhos cerrados, tentava dormir – ou sonhava – quando a voz desafinada começou a martelar sua cabeça. Todo dia ela acorda… Maldito. Tanto o maldissera acordado, agora vinha importunar seu sono. Deslizou a freqüência mental prum Beach Boys, a fim de descansar. Que já passava da hora.

Não deu dois compassos praquela desgraça revolver à mente. Apelou pra Barbie Girl, que podia ser uma merda, mas grudava que nem porra molhada. E era melhor que aquilo.

E nada. Mentalizou o repertório do Top Surprise 2 inteiro, e nada. Devaneou, pensou em comida, fez planos pro dia seguinte; e o som lá, de trilha.

O sono, esperto, dera o fora dali. Foi-se angustiando, enauseou-se; no escuro, coisas surgiam girando ao seu redor. Levantou, e caiu. Não acendeu a luz – o irmão dormia na cama ao lado.

Esforçou-se ao banheiro, e meteu a cara direto na patente. Vomitou até o último grão de arroz.

Voltou à cama, e tergipensou. A música insistia, e as mãos suavam, e a cabeça latejava. Lembrou-se de Schumann, ou Schoenberg, ou Chenson – algum desses morrera ouvindo um sustentado irrevogável. E dum cara que entrou pro Guinness – bateu as botas depois de sessenta e poucos anos soluçando.

Era destino trágico demais – antes uma nota ou um soluço, que ainda guardam algum valor musical.

Seis da manhã, o dia clareando – e como não fazia todo dia a essa hora, enrolou a fita isolante na cara e deixou faltar a respiração.

Seis da manhã, e como fazia todo dia a essa hora, seu irmão o sacudiu. Desta, não pra acordá-lo. Arrancou a fita, pra devolver o que ainda lhe cabia de ar.

O suficiente pra acordar na cama. Outra cama. Do hospital onde passaria ainda alguns bons anos vegetando. E todo dia lhe acordariam com banho de esponja, e todo dia lhe tirariam a merda pelo tubo, e todo dia lhe alimentariam papinha à veia. E todo dia lhe chegariam perto e sentariam à beira contando histórias da infância, e cantando músicas, e lhe consolando; e pensariam pelo menos ele nos ouve. Mas, dia após dia, era só uma melodia que se ouviria.


Claustrágoro

Agosto 3, 2006

Conforme eu previra, foi o último dedo se desprender do parapeito e veio o arrependimento. O orgulho único da vida que não tinha mais nada pra deixar pra trás era o de ter nunca melindrado. Meu pai sempre me alertara – no caso, em relação aos malacos -: quem não tem nada a perder, não tem medo. Ele não sabia, mas eu também não tinha nada a perder. E não tinha medo.

Mas essa imagem sempre permeara sonhos, devaneios. O minúsculo quase invisível instante em que se perde o controle da situação. Sensato, recluso, introspecto que sempre fui, nunca me fugira o domínio do momento como me fugia agora.

Essa autocracia de dar-se um fim, muito além do caráter criminoso, subversivo, me consumia admirado pela retidão dos que estavam dispostos muito menos em terminar-se irrevogáveis do que pela segurança com que relevavam o prognóstico imediatamente seguinte, de se entregar convictos à impossibilidade de regressar enquanto podem, e já não podem mais.

Em verdade, foi isso, e só isso, que protelou o que há muito já tinha por certo. E foi isso, só isso, que, em verdade, me levou ao que só tinha por certo pelo tesão que supunha a esse instante.

Nem de pequeno quis ir pra Lua, tampouco agnóstico clamei vez sequer algum sinal dos trabalhos divinos. Não me proponho ao intangível, e, oposto ao meu rival de dinâmica de grupo, não gosto de desafios, muito menos tenho por qualidade a perspicácia.

Mas, arrodando minha envergadura, não me vem à mente substância passada ao largo, palavra não escrita, distância inóspita. Não amargo despromessas.

É arrependimento, mas é arrependimento honroso. De não capitular à mais temerosa, derradeira – única até – experiência.

Não me apatizo: compadeço dos que chorarão por mim. Dos que talvez se levem ao mesmo parapeito por mim. Mas, às vezes, um homem tem que tomar decisões. Não sei se conseguiria me encarar, tivesse abichalado à janela.

Desculpe me desviar, mas dá pra ver pela fresta o boy do quinto andar de quatro. Sabia que ele era viado.


Julho 26, 2006

O Simão que me perdoe, mas eu não confio em pessoas afinadas. Pode ser mais uma das minhas tolas impressões, mas parecem nunca estar se divertindo. A voz afinada é sempre um estado tênue, efêmero, sacrificial. E eu não consigo enxergar diversão nenhuma nisso.

Ontem, depois de toda aquela estranheza episódica com o Calsa, eu, o Teixeira e o Gonzo, a despeito das recomendações de minha mãe, seguimos pra minha casa abandonada. Munidos de cerveja, violão e microfone, gravamos o potencial clássico underground Drunken Sessions. É meia hora de súplicio musical, já devidamente arquivado em mp3, de cançôes entremeadas de conversas mais afinadas que a música em si. Até o Teixeira, sempre correto, você via que dava suas desafinadas pra se divertir junto.

Acho até que minha teoria não é muito original – seis da manhã e nenhuma reclamação. Ou o interfone estragou, ou os vizinhos perdoaram, porque viram que a gente tava só se divertindo. Tivesse tudo no tom, a história era outra.

E é nisso que reside a beleza das coisas. É sabido meu desapreço pela poesia; quem tá na fossa não fica horas de caneta na mão, muito menos rima e escande. Nunca vi beleza alguma na tristeza – acho podre, só isso. As coisas da vida tem que ser ditas como são; na porrada, soco na cara. A graça vai embora junto com o esforço. Não é à toa que ninguém se diverte em concerto – ou vai porque é de graça, ou pra fazer moral.

Nunca dêem muito crédito a gente muito poética, muito bem-vestida, muito afinada, muito de caso pensado, e, principalmente, a quem coloca sou espontânea no orkut. Tudo isso é pra esconder o desafino da verdade.


Julho 21, 2006

Não é segredo pra ninguém que eu gosto das coisas no papel. Hoje mesmo o Simão reclamava da exposição pública de sua dívida comigo no quadro afixado no meu quarto, aos olhos do pessoal que gravava o 107 Blues em casa.

Poucas vezes me lembro na vida de ter infringido a lei; só o fiz quando estritamente necessário – coisas pequenas, como piratear um CD. Sou temente de carteririnha à lei, não por bom-mocismo nem nada, é medo da prisão mesmo. Então, a fim de disciplinar minha volubilidade quase criminosa, reconheço firma de tudo que prometo, de bolão da Copa ao almoço de sábado.

Antes que venham me importunar, sim, de fato eu casei aos meus parcos 19 anos. Um mês e alguns chifres depois, fui acordado da catalepsia. Hoje, quisesse ficar rico, acho que levava em primeira instância. Ela provavelmente infringiu todas as cláusulas, cláusulas escritas de tão puro coração numa noite no Pátio. E sim, estava sóbrio o tempo inteiro.

Também é verdade que referendei hoje à tarde meu testamento. Nenhuma perspectiva tétrica porvir; é só que gosto de ter a certeza de que uma hipotética falência prematura de pulmôes ou fígado me deixarão legalmente coberto no caso de aparecer novamente o Jesus do Marista entoando Glória Glória Aleluia em meu honroso funeral.


Postando mais por exercício de assiduidade

Julho 20, 2006

Antes de tudo, hoje é World Jump Day. Daqui sete horas, às 8:39:13 AM em Brasília, 600 milhôes de ocidentais estúpidos vão procurar uma superfície dura e pular. Pularão porque isso (sic) vai mudar a órbita do planeta, causando o fim do aquecimento global e da pobreza na África, o nascimento de Ursos Panda rosas ainda mais fofinhos e o lançamento de um filme do Grota. Eu, apesar de contente com a situação e com o calor crescente, já pus o despertador pra 8:30, a fim de adimplir com meu direito democrático inalienável de participar de manobras de massa.

Deve-se ter notado a presença inaudita de links à direita da página. Decidi pô-los não por admiração aos colegas, e sim pra arregimentar mais publicidade pro meu.
Em verdade, os critérios de aceitação são extraordinariamente rígidos e pouco inclusivos. Logo, só figurarão pessoas ainda menos visitadas do que eu. Tenho batido ponto diuturno no dashboard do blog, e não precisa de metodologia de amostragem científica pra sacar que nos top 10 só entra post de sexo anal e link pro Vanucci bêbado. Doravante, conformar-me-ei (uau) à incompreensão da minha suposta genialidade. Recomendo particularmente o blog do meu amigo Simão – pros não familiarizados, o oráculo S. das cenarocks infrapostadas. O Simão, colega de jornalismo parcial, criou o dele como peça ilustrativa do TCC. Então ele precisa de visitantes, senão fica mal na fita. Além do mais, Simão é cliente da casa, e escreve as mesmas coisas que eu, só que mais triste.

E correndo o risco de ficar cansativo, e confessando a inabilidade de comentá-los à altura do Calsa, segue aí alguns dos termos pelos quais o Google me achou – só clássicos:

quem sou eu melhores textos de assassino
musicas de onibus nas excursões
Prefiro acordar arrependido do que ir do (sic)
ouvir musicas de maconheiro
todas as putas de plantao
putas do orkut gostosas
simpatia para ele cair aos seus pés
Não só… mas também: polifonia e arg (sic)
POEMAS PARA FORMANDOS
seus paus
importancia dos beatles para o mundo
me sinto um nada


Julho 14, 2006

Até que não é de todo mal fazer esse meu trabalhinho jornalístico bobo. Esvazia a mente e enche o bolso.

Mas me privando de encher a cara e dar vazão à parcela útil da minha sabedoria, ou mesmo deixando de escrever presse blog inócuo pra redigir releases sobre biodiesel, me sinto vendido – e já havia explorado isso com bem mais fluência em outros momentos, inclusive quando inaugurei o blog; inaugurei-o por esse motivo.

Não gosto de me comparar a gênios (afora Brian Wilson, que não é gênio, é deus; e com Deus a gente não analogiza – comunga), mas esse entreguismo me tem feito sentir como Andy Kaufman vendendo a alma em Taxi.

Na verdade, isso é tudo uma grande premissa boba pra falar do cara. Tenho me doído pra falar dele desde que revi Man on the Moon, ontem à tarde. Aos familiarizados, meu asco pelo cinema é histórico e emblemático, mas esse filme – assim como Cidadão Kane, Patricinhas de Beverly Hills e Curso de Verão – merece uma apreciação extra-Valentino.

Não que sustente grandes méritos cinematográficos. Ou que sustente, quem sou eu pra decidir isso. Mas vale como única forma de se tomar idéia do que foi o maior gênio da comédia, junto com o Seinfeld (e incociliavelmente oposto a este), pra quem nasceu, assim como eu, um ano depois de sua morte e mora no Brasil.

Discutindo com minha mina hoje – que, à sua maneira, não foi com a cara do Andy porque ele é mau -, veio-me o paralelo perfeito: Danilo. Pra quem teve o infortúnio de não conhecer, é o cara que não perdia a piada, mas muito menos a entregava de graça. Cansávamos e desistíamos de implorar aquela situação ou imitação particular, porque isso só aproximava do zero as chances de ele fazê-lo. Nos surpreenderia num canto da esquina, surgindo às costas a imitaçào, quando ninguém mais estava interessado.

Fazia o Teixeira chorar de rir, a outra que me falha o nome chorar de ódio. O Chafic, logo ele, ser expulso de sala. Me fez devolver Pepsi Twist pelo nariz na frente da namorada, porque decidiu que essa era a hora de imitar o Faustão. De repetir a mesma frase pro Falleiros durante uma hora até fazê-lo humilhado. E deixar-se humilhar, porque não quer ninguém mal-humorado.

As piadas eram primitivas (já vendi muitas pra ele), mas o timing impecável. Natural de quem, muito além de fazer humor, vivia isso.

E eu suspeitei que nunca emagreceu porque era mais engraçado gordo assim.

Finalmente, Danilo, foste desmascardo. Fim da piada pra você.

A única merda é que, assistindo o filme, os punchlines são previsíveis, quando não entregues de antemão. Já dá pra saber que era tudo brincadeira.

Eu queria ser o trouxa que comprava as mentiras de Andy. Queria ser eu na época a rir de sua cara, quando era ele que ria da nossa. Queria ser eu a me apiedar do comediante incompetente, quando ele tinha pena de mim. Queria ser eu a acreditar que o cadáver no caixão era só mais uma armadilha, quando muitos ainda acreditam. Eu queria ter participado da piada.