Àquela altura, esperávamos encontrar monstros. Ou assassinos, pedófilos, comunistas. Mas tudo que havia era uma panela de pressão, fitando um arquivo amarelo e desarrumado. Num canto, um bumbo, que não deixava esquecer a rebeldia que um dia já foi. Os sofás vazios resguardavam, como num protesto silencioso, as marcas daqueles sebastiões tão plenos em revolução e desejosos de mudar. Mesas, bancos, murais e até uma austera documentação burocrática, sempre cética, e nunca cansada de lembrar “ah, jovens bobos”, até ela, todos impacientes, como que dissessem “e agora?”
-Agora me chame de ex. Já não mando mais aqui.
A camiseta de um azul melancólico, nela um gritante “Contradição” estampado, combinando com a calça jeans e o semblante saudoso de quem sabe ter vivido dias melhores.
Como de costume, e talvez por sorte, só um dos coordenadores do Diretório Central dos Estudantes estava por lá. É comum, muitos dizem, não encontrar vivalma por lá. Fernando Maciel Ribeiro conversava com uma amiga, que se despediu à nossa chegada. Um dos quinze diretores do DCE da Uel, não dá pra dizer se estava lá por inércia ou se relutava em abandonar o posto que, um ano antes, movia energias e sentimentos os mais obscuros.
Quem já acompanhou os dias que antecedem uma eleição do DCE, sabe o paroxismo a que podem chegar seus candidatos, num embate que deixa no chinelo qualquer jogo de cena protagonizado pelos políticos profissionais. Entretanto, a crença geral é de que ultimamente os estudantes – tão embelezados por sua ideologia valente – têm se espelhado no andar de cima do poder: a pancadaria verbal nos debates e as propostas utópicas mostram-se, no mais das vezes, artífice de um só capricho: o poder pelo poder.
O círculo virtuoso de ideologia juvenil que permeava todo o processo democrático das universidades foi substituído pelo triângulo vicioso: desinteresse, falta de representatividade e descontentamento, que leva novamente ao desinteresse.
-Como vou representar quem não quer ser representado? – disse Fernando, atando os três vértices da questão.
Não que a culpa seja tão-somente dos estudantes, ele pondera, mas é difícil legislar em nome de quem não votou e sequer sabe que o DCE fica ali perto do CTU (Centro de Tecnologia e Urbanismo), depois da Física e da Química, numa casa de madeira apodrecida.
Podre, defendem-se os estudantes, é essa chapa – a Contradição -, a que veio antes, e a avó dela. Poucas são as palavras elogiosas às últimas chapas que encamparam a pequena casinha branca.
No papel e na fala pronta, todos os candidatos se prontificam a desancar a “Contradição”. Pintam-na com matizes de irresponsabilidade, descompromisso, pelego, burrice e até maldade. E no DCE esperávamos encontrar monstros. Já nos tinham dito até que, vencidos, o pessoal da “Contradição” se recusaria a sair de lá. Mas Fernando não parecia ter em seus planos um golpe de estado.
E são essas declarações cruzadas, as opiniões de cartilha – em tese funcionais,mas apenas em tese – que torna difícil acreditar que algo novo esteja para acontecer. O primeiro contato com propostas e candidatos, tão convictos de suas idéias, é sempre animador, mas são as pequenas coisas – como o descaso com a divulgação do nome dos eleitos – que levam ao niilismo e à compreensão dos motivos dos alunos que não votam, e, por conseqüência, das chapas que nada fazem.
Além de criticar a atual diretoria do DCE, as três chapas são profícuas em idéias para tornar o Diretório mais próximo dos alunos, dirimindo a burocracia e fazendo-o mais representativo. Para tanto, fala-se em revitalização e articulação dos Centros Acadêmicos, jornais de divulgação e renovação do espírito democrático entre os alunos.
Espírito esse que não é nenhum dinossauro da época da ditadura, como muitos imaginam. O hoje professor de Filosofia e Direito da Unifil e procurador da República Joseman Fernandes já foi diretor do DCE, entre 1994 e 1995. Ele diz que, na sua época, a combatividade já não era praxe, mas que o desânimo generalizado que se vê hoje é algo recente. Os cerca de 1.500 que votaram este ano representam metade dos três mil que compareceram às urnas dez anos atrás, o que, na voz de Joseman, conferia aos diretores do DCE “uma legitimidade maior do que a de governos de países onde o voto não é obrigatório”.
Uma das práticas da época era passar de sala em sala disputando o voto dos alunos e conclamando-os à eleição. Já nesta eleição, um representante de uma das chapas, sentado e fitando o vácuo em frente à mesa de votação, nem se levantou:
-Chama o pessoal da sua sala pra votar.
Não chamamos.
A disposição dos candidatos parecia muito mais em apregoar as idéias de sua chapa do que de fato pô-las em prática. Discorriam cada proposta uma a uma, e mesmo em conversas informais, aproveitavam para alfinetar os concorrentes. Da chapa 3, ouvia-se críticas ao dito partidarismo das outras duas. Da 1 e da 2, reclamava-se de boatos supostamente espalhados pela 3 em panfletos apócrifos.
E continuávamos nossa caminhada pela UEL. No DCE, no CECA ou no CCH, o clima definitivamente não era de eleição. Muitos nem sabiam o que se passava na universidade. E, dentre os alunos, o máximo que se podia arrancar eram críticas ao partidarismo das duas primeiras chapas. Classificação que tanto a “Atitude” (que diziam ligada ao POR) como a “Virar ao Avesso” (suposta amiga do PC do B) insistem em descartar. Matheus Guenzo, do segundo ano de Ciências Sociais e um dos quinze componentes da chapa 2, resume essa posição:
-O fato de alguns dos integrantes serem filiados a partidos políticos –eu, por exemplo, sou militante do PC do B- não significa que todos o sejam, tampouco quer dizer que a chapa vá obedecer a ordens vindas dessas agremiações.
A “Atitude” faz coro à estigmatização das chapas, e ambas acusam a 3 –esta dita apartidária- como responsável por isso. Conclusões à parte, o fato é que boa parte do eleitorado comprou essa idéia, e muitos tomavam como oficial esse posicionamento.
E foi numa dessas andanças pelo campus que conhecemos a figura mais interessante do episódio.
No C.A. de Letras, numa interminável conversa com Matheus, da chapa 2, sopetão aparece um tipo alto, de cabelos longos presos num rabo-de-cavalo, uns quarenta anos, calça vermelha gritante, uma camisa de mangas arregaçadas cheia de inscrições kitsch. A barba inadvertidamente branca de alguma tinta vagabunda, que minutos antes lhe cobria a cara durante um dos “assaltos” –provavelmente alguma apresentação-relâmpago- que vinha fazendo com o pessoal de Artes Cênicas naquele dia.
Pede pra entrar, no que um aceno positivo de Matheus o faz jogar-se num sofá e, impaciente, invadir a nossa conversa:
-Tá tudo errado.
Algo estava errado, sabe-se lá o quê, e Matheus desaprovou a reprovação num dos muitos balançares de cabeça, claramente desconfortável com aquela situação. E o homem continuava a discordar, num bom-humor inabalável, de quase tudo que Matheus disse e tinha dito durante a entrevista. Àquela altura, já notáramos que o intruso não cessaria seu falatório tão cedo, e todos paramos para prestar atenção no que ele falava.
Milton, como pensávamos ter ouvido, ou Nelson, como desconfiaríamos depois, era um homem da renascença moderno. Era músico –mencionou ter sido baterista dos Ratos de Porão-, dizia-se ator, dava palestras Brasil afora e trazia em sua mochila uma infindável sanha de cindir o status quo, numa paixão que lhe contaria vinte anos a menos do que realmente aparenta.
Dizia estar na Uel de passagem, uma de tantas outras –conhecia bem a cidade-, mas originalmente teria se formado pela USP (calculo que há mais de uma década), e queria trazer para Londrina a atmosfera uspiana dos velhos tempos.
-Uma universidade sem maconha, cerveja, sexo e rock’n’roll só vai formar um bando de bobões, que vão sair daqui sem saber como é a vida de verdade…
Pregava um pragmatismo, em contraponto à ideologia utópica das chapas, que parecia assustar os demais candidatos presentes, como se nunca tivesse lhes ocorrido que uma coisa são propostas de mudança, outra é viver essa mudança, algo que Milton (Nelson) fazia em período integral. E Matheus baixava a cabeça a cada vez que ele taxava seus princípios de “bobagem”.
E idealizava não uma universidade séria e politizada, algo carrancuda, como a de Matheus, mas sim um espaço de intensa vivência e celebração da juventude que ele mesmo reluta em deixar para trás.
-Vamos trazer bandas de rock, mas também dançar o forró, beber cerveja, em vez de ficar discutindo coisas que não levam a lugar nenhum. Vocês marcam reunião até pra marcar reunião!
Hora de ir embora, e todos cercavam Milton (Nelson) fora do C.A. de Letras para ouvir suas histórias. Matheus, do outro lado, parecia contrariado com tanta atenção para aquele homem de idéias tão opostas às suas.
-É o típico velho que não amadureceu.
Mas quem sabe não seja a hora de o DCE se olhar no espelho e ver se já não está ficando enrugando demais, os cabelos grisalhos? Será que um pouco da imaturidade daquele homem que apareceu do nada e reavivou um pouco do jovem irresponsável que nós tentamos esconder não seria bom para trazer de volta à vida acadêmica aquela incorruptível poesia da revolução que nos faz admirar nossos veteranos de outrora?