Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: IX – Elogio do Desgosto (deste eu me orgulho) – 2005

Junho 20, 2006

De repente, e não mais do que súbito, todo mundo ama a arte. Não é à toa que este jornal só trata disso. Não vou dizer que odeio a arte, sob pena de ter minha matéria extirpada desta edição [originalmente, a matéria avolumaria o jornaleco da sala]. Mas é basicamente isso mesmo. Há quem considere ilegítimo meu repúdio, e o tenha por sanha em ser diferente, do contra. Estranho – parece-me então já ter passado o tempo em que produzir ou mesmo ser um diletante da arte tomava uma certa erudição e sensibilidade fora do comum.

Mas hoje me sinto forçado a me deixar envolver por obras que nada me transmitem.

E de repente, não mais do que súbito, todo mundo é eclético. E aí começo a ter certeza de que devo realmente ser muito fresco. Pois veja: literatura me angustia, poesia sempre me soou afetada, duas horas dentro do cinema me entendiam, pinturas só me parecem pertinentes adornando salas de estar, e tenho pra mim que esculturas e monumentos em praça pública encontram suas mais sinceras apreciações depois do almoço das pombas.

Não me sinto bem sendo um desgostoso da arte, e isso não é justo. Sempre fico tenso em época de Filo, quando chegam os panfletinhos com a programação, que em minutos se tornam cartelas de bingo, cada um disputando quem assinala mais peças a que pretende assistir. Esse recente festival de literatura também me deixou desconcertado – no único momento em que me propus a prestigiar algo (um desses caras que faz uma música legal), o corredor polonês de pseudopoetas, pretensos eruditos e deslumbrados de plantão me constrangeu a abandonar o lugar. Minto, fiquei ainda um pouco, pelo pão com patê de graça.

Meoculpo-me: às vezes gosto de ouvir música. Mas também não forcemos a barra: ouço o rock, e olha lá. E mesmo assim, só uma ou outra coisa. Não me vejo apto a me arrogar gosto pela arte quando me apetece apenas uma ínfima parcela de um gênero pouco representativo dentro de apenas uma das artes. Claro, já fui adolescente pedante – comprei um monte de livros em sebos de uma tacada só; li meia dúzia e abandonei. Certa feita, peguei um livro de mesa de centro com gravuras do Picasso, mas achei tudo muito feio e torto. Descobri então uma locadora que locava 3 filmes por 3 reais, e aluguei uns 15 clássicos – sei hoje que aqueles quinze reais encontrariam melhor guarida em quatro vinhos da Adega, e ainda sobraria um de troco.

Até na música já tentei me aprofundar. Roubei do meu pai, tempos atrás, uns vinis do João Gilberto. Mas acabei perdendo um amigo por sugerir inocentemente a semelhança timbrística daquele com o Zacarias – ou Tiririca, me falha a memória.

Admito meus sucessivos fracassos em tentar ser uma pessoa melhor, mas acho que me sinto mais satisfeito pequeno assim.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: VIII – Crocodilo Dândi (resenha de jornaleco) – 2006

Junho 20, 2006

Quando urge a necessidade aos burros de se fazerem inteligentes, nomeiam pencas de livros, os ditos clássicos, aqueles que nos avalizam mais sabedores que os outros. Livros que ou não leram ou simplesmente o fizeram para ulteriormente citá-los quando a necessidade urge. Citações – que hoje vêm compiladas em calhamaços que encontram irrestrita apreciação entre essas espécies pedantes – das quais seus substratos são esses cretinos completamente alienados. Conhecimentos que não nutrem outra função senão a de nutrir o próprio ego.

Quando um metaleiro (sem ofensa aos metaleiros, também o sou) quer provar pra família que não é o cabeça oca que seu pai pensa ter criado, ele põe em seu som e em seu profile do orkut alguns noturnos de Chopin para celular, algumas peças de Mozart para elevador…

Mas houve um momento em particular – e logo na nossa outrora inteligente Londrina – em que se pôde gostar de música boa, refinada, sofisticada, erudita e o que mais queira, sem ter que fazê-lo à revelia, pelas aparências.

Quando Arrigo Barnabé decidiu que boa música não precisava ser chata, nesse momento Londrina conheceu um sujeito mais punk que qualquer moicano, mais headbanger que qualquer black metal profano. Que meteu orgasmos, gemidos, putas, crocodilos, fliperamas e toda espécie de material mundano numa sinfonia roqueira melhor que a quase totalidade do que já fora produzido por maestros frescos e recalcados de salão.

Com menos de 30 anos, um maconheiro porra-louca – em todas as acepções da palavra – gritava rouco sobre bases dodecafônicas, atonais e todas essas coisas eruditas que, em verdade, eu não sei muito bem como funcionam. Mas sei que ficou bom, muito bom.

Finalmente, podia-se tocar após os Ramones alguma coisa com mais de três acordes, e gostar mesmo daquilo. Ter um tesão irrefreável em algo muito mais sofisticado que aquilo que meus pais ouvem. Pra falar a verdade, eles continuam não gostando, e aparentemente até preferem a tosqueira só tosca dos Ramones à violência erudita do Arrigo. Mas não podem mais dizer que só ouço porcaria.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: VII – Sem Título (resenha de jornaleco) – 2005

Junho 20, 2006

Há diversos modos de se ouvir música. Mas quando se é um metido a enciclopédico, um mal que aflige a mim, minha colega de resenha musical nesse espaço e o público da Terça Tilt inteiro, acabamos por nos restringir a uma única modalidade de audição: ouvir lendo. Antes de se ouvir o disco, essa nossa pernóstica espécie percorre um tortuoso trajeto que inclui semanários ingleses, Ilustradas, Bizzes, Allmusics e outros, pra daí então ouvir o CD com o julgamento já pronto e imutável.

Mas às vezes eu lembro dos bons tempos de criança, quando eu gostava mesmo era da música. Podia ser cool, uncool, hype ou brega. Eu era metaleiro, porra! E hoje, fazendo umas contas despropositadas, lembrei que esse SMiLE que eu me proponho a resenhar era lançado há exato um ano. Resolvi reler a empoeirada e inédita resenha de 5 (!) páginas que escrevi na época de seu lançamento. Ainda está tudo lá: os 37 anos que o disco permaneceu engavetado (agora fariam 38), a indimensionável importância histórica do álbum (cada vez maior), o quanto meus pêlos se eriçavam ao começo de cada canção (permanecem eretos), o elogio de Brian como o maior gênio vivo ou morto da música pop (ainda é, sempre será), tudo no seu devido lugar. Depois de tudo isso, pra dizer no final que, mesmo assim, já se foi o tempo de SMiLE, e que, lançado em 2004, não substituiria nenhum dos panteões costumeiros do pop (Sgt. Pepper’s, Pet Sounds, London Calling, etc.).

Mentira. Das brabas. Idiota eu, com medo de que a finada ShowBizz viesse me puxar o pé à noite. Malditos fazedores de lista, sempre nos importando com o quanto tal álbum fez ou deixou de fazer história, e perpetuando a impossibilidade crescente de algo diferente se juntar a essas listas. E daí que ninguém pára pra escutar o que Brian faz hoje em dia? E daí que seu SMiLE não vai alterar um centímetro a rota do pop doravante? E daí que ele é tão cool quanto peruanos tocando Imagine no Calçadão? E eu com isso?

É lindo, é genial, me faz ser uma pessoa melhor, e é melhor que 100% do que é feito hoje em dia e do que já foi feito também. E é o melhor álbum da história da música. E essa resenha, dez vezes menor e cinco vezes mais honesta, ficou bem melhor que a primeira.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: VI – A Arte de Transcender (resenha de jornaleco) – 2006

Junho 20, 2006

Há apenas dois nichos nos quais discernir a música. Não as dicotomias clichês; bom ou ruim, erudito ou intuitivo, comercial ou artístico.

O único mérito de fato valorável no cancioneiro é a capacidade de aproximar espiritualmente seus fãs da sua criação. Que não me interpretem erroneamente os diletantes de música ruim; o fato de seu ídolo deixá-lo intumescido ao ponto de esperá-lo na frente do hotel na tentativa geralmente vã de estabelecer um contato extra-musical intra-corpóreo não significa em absoluto que sua música possui quaisquer aptidões sobre-humanas.

Gostar de música todo o mundo gosta. Outra coisa é fazer um ateu militante acreditar em Deus por três minutos e meio.

Isso os Beach Boys, a melhor e talvez única banda da história, fizeram comigo. Fizeram com o Simão, meu melhor amigo – cético de Deus e da boa música.

Às vezes me pego na rua ou em Valentinos da vida, compenetrado nas camisetas de bandas modernosas com cinco ou seis palavras no nome – quem sabe até um ponto de interrogação ou uma letra minúscula no nome próprio, o que torna tudo mais cult -, e me sinto um pouco acima dos outros, por não precisar passar dias na internet procurando a última banda do momento, pois sei que a felicidade mora perto, bem perto, ao alcance de qualquer um.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: V – A Arte de Estragar Tudo (resenha de jornaleco) – 2005

Junho 20, 2006

Não bastasse ser a melhor banda da história, os Beatles tinham um apreço todo especial pela megalomania. Não nos moldes do progressivo, com suas afetações narcisistas, putarias medievais e afins. Estava mais pruma necessidade pungente de competir com (e ganhar de) tudo e todos.

De fato, conseguiram. São a melhor banda de rock’n’roll, de folk, de psicodelia; e o White Album e o Peppers têm uma capacidade filha da puta de chutar pra todos os lados, e, mais do que acertar, criar uma obra-prima dentro de cada gênero em que se aventurassem. Mas, uma vez na vida, os Beatles erraram. Uma não, três.

Tive o desprazer de assistir recentemente à filmografia completa dos Fab Four – a incursão do grupo pelo cinema sem dúvida elenca no cume do rol de cagadas do pop. Magical Mystery Tour (67) é emblemático do contraste: a melhor coletânea de faixas isoladas da história do pop servindo de trilha para a possivelmente mais constrangedora coletânea de quadros já registrada numa fita magnética. O não-enredo do filme versa sobre um ônibus numa excursão em que nada acontece, sendo os quatro Beatles magos que nada fazem acontecer. O mesmo acontece com A Hard Day’s Night (64) – admito não conseguir lembrar do que o filme trata. Mas, às vezes, é melhor não ter enredo do que encampar a trama de Help! (65), que me levou duas vezes ao sono. Ringo tem três horas pra arrancar um anel de seu dedo, caso não queira ser sacrificado por um clã de fanáticos religiosos.

Os Beatles fizeram a melhor música do século XX, inventaram o álbum como o conhecemos e ilustraram-nos com as melhores e mais memoráveis capas. Podem até ser melhores que Jesus, mas foram os maiores cretinos que já tiveram seus rostos projetados numa tela.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: IV – Infamemente intitulado Admirável Mundo Burro (encheção de linguiça pra Jornalismo Online) – 2006

Junho 20, 2006

“Keridus leitores e leitoras, esta delícia cremosa que vos tecla, deseja que o Papai Noel erótico (aquele que não faz HoHoHo e sim ooooooh, ooooooh, oooooooohhhh) traga um saco de bucetas quentinhas para os hômi ( e pras muié que – nham! – sejam chegadas) e um contêiner de CARALHAS ciclópicas e insaciáveis para as muié (e para os homé que – ui! -não têm medo de serem felizes). FELIZ NATAL!!!!!!!!!!!!!”

Não sou imbecil – sei que a política ditada pela cartilha é a de elogiar a imensurável polifonia empreendida pelo espaço livre da internet. E vá lá, sou viciado em orkut e fuçador incurável da vida dos outros, há muito, muito tempo. Não diminuo os méritos da web em dar espaço pra quem antes não era ouvido.

O problema é quando essa pluralidade de vozes se torna ensurdecedora. A obscenidade torpe supracitada foi o exemplo utilizado para ilustrar o artigo o qual me dispus a analisar, dessa tal senhora Rosa Meire Carvalho de Oliveira, suposta jornalista mestra e etc. De quem se infere uma pessoa sensata, refinada e o que mais queira. “As entradas são [...] cheias de bom humor [...] irreverentes”, é como Rosa se refere à “destacada” autora da porcaria cuspida no início deste texto.

Pois bem, se uma jornalista mestra se deixa enganar por esse discurso pueril, raso, imagine o resto do leitorado cibernético, na maioria adolescentes desprovidos de maturidade e bom senso suficiente para discernir boa de má literatura.

Considerarei que nos são consensuais as benfeitorias advindas da emergente onda blogueira. Mui entretanto, seus méritos parecem eclipsar o grande potencial nocivo proveniente dessa geração.

O único aspecto razoavelmente reiterado nesse sentido é a crítica aos impúberes desvairios lingüísticos incessantemente perpetrados à língua portuguesa, que, para a tristeza dos que prezam o beletrismo, vêm progressivamente se consolidando em todos os meios virtuais e, pior, não-virtuais: “kd”, “vc”, “tb” e todo tipo de relaxo – já os presenciei até em trabalhos do meu curso. O Telecine resolveu idiotamente dedicar uma faixa de horário a filmes legendados dessa maneira.

E não me venham falar em inovação lingüística ou qualquer corolário sofismático. Dentre as criações mais belas, atemporais e insubstituíveis do homem, está a língua. Tal magnitude está histórica e geograficamente ligada a um sofisticado processo criativo todo-inclusivo que alia a força da tradição à eficácia comunicativa, conjunturas sócio-culturais próprias… Não se trata de abreviar polissílabos a duas ou três letras, sem lastro algum a não ser o da preguiça.

Consterna-me, como estudante de comunicação, grande apreciador da língua e pretenso escritor, a podridão da maioria absoluta dos textos encontrados em blogs – grande parte redigida à luz de anseios literários. Não sei se me é tão interessante a pluralidade nesse caso. O salvo conduto outorgado aos internautas tem sido utilizado de maneira por demais constrangedora; não os considero merecedores do espaço que lhes é disponibilizado. Só quem dedicou uma vida à fruição dos clássicos (não que seja meu caso), da depuração estética e da lapidação textual sobremaneira árdua sabe o quanto não é justo confrontar-se com jornalistas mestras fazendo o elogio duma ninfomaníaca semi-analfabeta, apenas um dentre tantos exemplos de picaretas falaciosos que têm recebido a atenção da crítica estúpida.

Literatura há de ser um dos mais nobres meios de educação, e como tal deveria ser mais acautelado.

Vejo que essa exposição começa a se exaltar e adquirir nuances perigosas. Não prego censura ou qualquer coisa do tipo. Mas peço aos formadores de opinião segundos a mais de consideração antes de rejubilarem-se ante tamanhas porcarias. Sei que nunca permitiria a meu filho, sem a devida orientação, meandrar por esse caminho de discursos vazios e auto-indulgentes, imanentes na sua imbecilidade. Escritores preguiçosos formam leitores preguiçosos. A preguiça de pensar tem formada uma geração que milita pela própria burrice, adotando o engajamento epidérmico de MTVs e símiles, com suas vinhetas completamente destituídas de germe pensante.

Com a internet, ficou muito fácil pesquisar, escrever, fazer jornalismo independente, etc. Fico feliz; todos ficamos. Porém, mais fácil ainda, é enganar. E as mil e uma utilidades desse novo meio, com seus pop-ups pululantes e páginas fulgurantes, têm ofuscado nossos olhos para os perigos de um canal que, negligenciado, não tardarão, à metáfora dos vírus virtuais, infectar corações e mentes a gigahertz de velocidade.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: III – Sem Título (Belinati perfilado) – 2004

Junho 20, 2006

“Se me ofenderem, não vou responder, vou fingir que tenho cera no ouvido” – Antônio Belinati

Cera no ouvido não é a única sujeira que marca a trajetória política de Antônio Casemiro Belinati, 60 anos. Do primeiro emprego –era balconista aos oito anos-, passando pelo rádio e, finalmente, entrando na vida política (em 68, como vereador mais votado de Londrina), Belinati mantém uma dialética de amor e ódio com a população da cidade, com um sensível pendor para o amor, que o elegeu três vezes prefeito (76, 88, 96), e esparsos espasmos de ódio –vide o processo de cassação de seu terceiro mandato, em 2000.

Autodefinido como “pai dos pobres” – seus filhos não refutam a ascendência – seu carisma é inegável. A indefectível escola radiofônica deu-lhe fluência coloquialesca e proximidade com os problemas suburbanos. Ficou famoso por se mudar para barracos na periferia em vésperas de eleições, ainda que escapasse à sorrelfa para o centro na calada da noite.

A pecha malufista (“rouba mas faz”) é companhia de longas datas, ainda que a fama de corrupto só se consolidasse após a fatídica cassação. Mas cuidado: tachá-lo ladrão pode render um infame processo por calúnia. Mesmo sendo ponto pacífico hoje que suas gestões foram pródigas em desvios, superfaturamentos e afins (há quem fale em cifras da ordem de centenas de milhões de reais), toda a argumentação anti-Belinati se funda em indícios – ainda que muitos sejam irrefutáveis – não há um tostão sequer cuja apropriação indevida tenha sido transitada em julgado.

Um tostão pode não ter terminado em nada, mas dois deles custaram 55 dias de prisão a um pobre noiado que roubara uma lata de tinner aberta no período de investigação das negociatas de Belinati. A manchete do Jornal de Londrina “Por R$2, pobre vai preso”, uma notinha de canto em dias normais, tentava soar como um grito de protesto de alguns jornalistas em meio ao silêncio forçado que a imprensa mantinha em torno do caso, e que só viria a acabar quando a situação se tornou incontornável.

O fato é que no domingo de eleição ele venceu o primeiro turno. Agora vai disputar com Nedson em 31 de outubro. Sua margem de vitória – cinco pontos percentuais à frente – não foi tão devastadora como apontavam pesquisas preliminares. Considerando que sua base de apoio é relativamente estanque e levando em conta o isolamento político que deve sofrer daqui pra frente, fica menos certa a sua vitória.

Virou sinônimo de idiotice e pequenez intelectual votar em Belinati – “voto da pobreza e pobreza de voto”, brincava com as palavras a socialite-socióloga Maria Lúcia Victor Barbosa, durante a apuração dos votos na TV. Mas será? Por mais que a dita camada ilustrada da sociedade não coadune de maneira alguma com a sanha de corrupção de Belinati – a não ser, lógico, os numerosos favorecidos pela manhas do ex-prefeito -, ele pode vir a ganhar muitos votos anti-PT de quem tiver a coragem de votar abertamente em um hipotético “menos pior”. Já a opção pelo voto nulo provavelmente garantirá a reeleição do petista, cuja rejeição, substancial mas menor que a do adversário, se embasa em critérios mais maleáveis do que a pura condenação moral.

Antes que o maniqueísmo se estabeleça, é interessante esclarecer alguns pontos: Belinati, queira ou não queira, constrói – pode superfaturar o quanto for, pode cercear a cidade com seus conjuntos habitacionais, mas infelizmente seus caprichos obreiros parecem, à vista da população carente, funcionar melhor que as práticas sociais concretas do PT, que, de um utópico crescimento sustentável, passaram a programas puramente assistencialistas. E, estes, à sombra das casas de Belinati, raramente atingem suas parcas metas. Como exemplo federal, temos o Fome Zero, que nunca chegou a se concretizar e o Primeiro Emprego, cujo número de beneficiados no país varia entre um e quinhentos, dependendo da fonte. O Bolsa-Escola até paga a mesada, mas não verifica a assiduidade à sala de aula, principal contrapartida do plano.

Pode-se fazer como na inauguração do SAMU, no estado de São Paulo. Lula quebrou o champagne no casco velho de meia dúzia de ambulâncias que não tinham sido senão repintadas com o novo logotipo sobre a marca da administração anterior. Ou descambar para a mera demagogia, como no caso da implantação das cotas para negros e estudantes de escolas públicas na universidade, réu confesso da falibilidade das utopias petistas de ação social sustentável.

A massa famélica do subúrbio quer, na melhor tradição da pobreza latina, que passem a mão na sua cabeça e te chamem “meu filho”. Ou é à toa o PAI (Pronto Atendimento Municipal) e agora o VÔ, para idosos? Tudo em Belinati cheira a populismo e paternalismo da mais getulista espécie. É algo um tanto quanto deslocado da política de terno, de bastidores e jogos de intrigas. Não tem como se negar a influência do candidato, que colocou no vice-governo do Estado sua ex-mulher Emília Belinati, e a cadeira na Assembléia Legislativa lastreada por uma votação histórica que seu filho Antônio Carlos conseguiu em sua primeira disputa, à parte o obscurantismo que cerceava seu passado e seu potencial. Tudo mérito de Belinati, claro.

Mas, ainda assim, o ex-prefeito se mostra, e a população o vê, como alguém desenredado da trama ardil e vetusta que cerca a política brasileira. Não tem seu nome fortemente ligado a partido algum, seja o antigo MDB, o PDT, o PP, e, principalmente, a esse tal de PSL (não pergunte o que significa), que claramente só está sendo usado para obedecer ao principio eleitoral que diz que sem partido não se concorre. Ainda assim, essa incipiente agremiação conseguiu eleger dois dos dezoito vereadores (um deles o novato Marcelo Belinati – coincidência? -, que ficou em primeiro, com 6.500 votos) e o prefeito da vizinha e recém-emancipada Tamarana.

Foi por pouco que essa promiscuidade partidária não custou ao candidato o fim de suas pretensões para o ano eleitoral. Tendo se filiado ao PSL depois do prazo permitido para aqueles que pretendem concorrer nas próximas eleições – um ano antes do pleito -. Belinati teve a impugnação de sua candidatura solicitada. O processo foi levado ao TSE, e lá julgado em meados de setembro. Deu empate: três juízes liberaram-no para concorrer, três não. O voto de minerva ficou com o ilustríssimo ministro Sepúlveda Pertence, que fez vista grossa para a legislação eleitoral. De qualquer maneira, fica evidente que Londrina já não está mais tão permeável à corrupção descarada – Belinati terá que esconder melhor as coisas daqui pra frente. Em outras épocas, o processo cairia em primeira instância e não se falaria mais nisso. Mas permanece o senso de justiça pequena: seria muito mais correto o impedimento de sua candidatura se este se devesse à flagrante má conduta da Prefeitura anterior, do que por uma mera burocracia partidária. Quando foi cassado, a gota d’água foi um obscuro processo por suposto exagero nos gastos com publicidade do PAI, muito menos vultoso do que as outras suspeitas creditadas a ele.

Mas não são só flores: basta ver a lista de vereadores eleitos. Sua base de apoio continua forte: Marcelo Belinati, Renato Araújo – presidente da Câmara durante o último mandato de Belinati e com suspeitas de envolvimento nas negociatas do ex-prefeito -, Renato Lemes – que também é do PSL -, Orlando Bonilha – que, apesar, de ter sido o voto que desempatou e engendrou a cassação de Belinati, pode ter participado ativamente do que houve de pior naquela administração -, Jamil Janene (ainda que José Janene tenha brigado com Belinati), entre outros. Todos esses são prováveis aliados do candidato caso ele chegue à Prefeitura, afora os que embarcarão depois.

Temos a vantagem de já conhecer bem o estilo Belinati de governar e, por outro lado, o do PT e de Nedson. Grandes surpresas provavelmente não virão, o que não evita ruidosas dissensões não sobre quem é melhor – e sim, tristemente, quem é menos pior.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: II – Sem Título (reportagem sobre a eleição do DCE) – 2004

Junho 20, 2006

Àquela altura, esperávamos encontrar monstros. Ou assassinos, pedófilos, comunistas. Mas tudo que havia era uma panela de pressão, fitando um arquivo amarelo e desarrumado. Num canto, um bumbo, que não deixava esquecer a rebeldia que um dia já foi. Os sofás vazios resguardavam, como num protesto silencioso, as marcas daqueles sebastiões tão plenos em revolução e desejosos de mudar. Mesas, bancos, murais e até uma austera documentação burocrática, sempre cética, e nunca cansada de lembrar “ah, jovens bobos”, até ela, todos impacientes, como que dissessem “e agora?”

-Agora me chame de ex. Já não mando mais aqui.

A camiseta de um azul melancólico, nela um gritante “Contradição” estampado, combinando com a calça jeans e o semblante saudoso de quem sabe ter vivido dias melhores.

Como de costume, e talvez por sorte, só um dos coordenadores do Diretório Central dos Estudantes estava por lá. É comum, muitos dizem, não encontrar vivalma por lá. Fernando Maciel Ribeiro conversava com uma amiga, que se despediu à nossa chegada. Um dos quinze diretores do DCE da Uel, não dá pra dizer se estava lá por inércia ou se relutava em abandonar o posto que, um ano antes, movia energias e sentimentos os mais obscuros.

Quem já acompanhou os dias que antecedem uma eleição do DCE, sabe o paroxismo a que podem chegar seus candidatos, num embate que deixa no chinelo qualquer jogo de cena protagonizado pelos políticos profissionais. Entretanto, a crença geral é de que ultimamente os estudantes – tão embelezados por sua ideologia valente – têm se espelhado no andar de cima do poder: a pancadaria verbal nos debates e as propostas utópicas mostram-se, no mais das vezes, artífice de um só capricho: o poder pelo poder.

O círculo virtuoso de ideologia juvenil que permeava todo o processo democrático das universidades foi substituído pelo triângulo vicioso: desinteresse, falta de representatividade e descontentamento, que leva novamente ao desinteresse.

-Como vou representar quem não quer ser representado? – disse Fernando, atando os três vértices da questão.

Não que a culpa seja tão-somente dos estudantes, ele pondera, mas é difícil legislar em nome de quem não votou e sequer sabe que o DCE fica ali perto do CTU (Centro de Tecnologia e Urbanismo), depois da Física e da Química, numa casa de madeira apodrecida.

Podre, defendem-se os estudantes, é essa chapa – a Contradição -, a que veio antes, e a avó dela. Poucas são as palavras elogiosas às últimas chapas que encamparam a pequena casinha branca.

No papel e na fala pronta, todos os candidatos se prontificam a desancar a “Contradição”. Pintam-na com matizes de irresponsabilidade, descompromisso, pelego, burrice e até maldade. E no DCE esperávamos encontrar monstros. Já nos tinham dito até que, vencidos, o pessoal da “Contradição” se recusaria a sair de lá. Mas Fernando não parecia ter em seus planos um golpe de estado.

E são essas declarações cruzadas, as opiniões de cartilha – em tese funcionais,mas apenas em tese – que torna difícil acreditar que algo novo esteja para acontecer. O primeiro contato com propostas e candidatos, tão convictos de suas idéias, é sempre animador, mas são as pequenas coisas – como o descaso com a divulgação do nome dos eleitos – que levam ao niilismo e à compreensão dos motivos dos alunos que não votam, e, por conseqüência, das chapas que nada fazem.

Além de criticar a atual diretoria do DCE, as três chapas são profícuas em idéias para tornar o Diretório mais próximo dos alunos, dirimindo a burocracia e fazendo-o mais representativo. Para tanto, fala-se em revitalização e articulação dos Centros Acadêmicos, jornais de divulgação e renovação do espírito democrático entre os alunos.

Espírito esse que não é nenhum dinossauro da época da ditadura, como muitos imaginam. O hoje professor de Filosofia e Direito da Unifil e procurador da República Joseman Fernandes já foi diretor do DCE, entre 1994 e 1995. Ele diz que, na sua época, a combatividade já não era praxe, mas que o desânimo generalizado que se vê hoje é algo recente. Os cerca de 1.500 que votaram este ano representam metade dos três mil que compareceram às urnas dez anos atrás, o que, na voz de Joseman, conferia aos diretores do DCE “uma legitimidade maior do que a de governos de países onde o voto não é obrigatório”.

Uma das práticas da época era passar de sala em sala disputando o voto dos alunos e conclamando-os à eleição. Já nesta eleição, um representante de uma das chapas, sentado e fitando o vácuo em frente à mesa de votação, nem se levantou:

-Chama o pessoal da sua sala pra votar.

Não chamamos.

A disposição dos candidatos parecia muito mais em apregoar as idéias de sua chapa do que de fato pô-las em prática. Discorriam cada proposta uma a uma, e mesmo em conversas informais, aproveitavam para alfinetar os concorrentes. Da chapa 3, ouvia-se críticas ao dito partidarismo das outras duas. Da 1 e da 2, reclamava-se de boatos supostamente espalhados pela 3 em panfletos apócrifos.

E continuávamos nossa caminhada pela UEL. No DCE, no CECA ou no CCH, o clima definitivamente não era de eleição. Muitos nem sabiam o que se passava na universidade. E, dentre os alunos, o máximo que se podia arrancar eram críticas ao partidarismo das duas primeiras chapas. Classificação que tanto a “Atitude” (que diziam ligada ao POR) como a “Virar ao Avesso” (suposta amiga do PC do B) insistem em descartar. Matheus Guenzo, do segundo ano de Ciências Sociais e um dos quinze componentes da chapa 2, resume essa posição:

-O fato de alguns dos integrantes serem filiados a partidos políticos –eu, por exemplo, sou militante do PC do B- não significa que todos o sejam, tampouco quer dizer que a chapa vá obedecer a ordens vindas dessas agremiações.

A “Atitude” faz coro à estigmatização das chapas, e ambas acusam a 3 –esta dita apartidária- como responsável por isso. Conclusões à parte, o fato é que boa parte do eleitorado comprou essa idéia, e muitos tomavam como oficial esse posicionamento.

E foi numa dessas andanças pelo campus que conhecemos a figura mais interessante do episódio.

No C.A. de Letras, numa interminável conversa com Matheus, da chapa 2, sopetão aparece um tipo alto, de cabelos longos presos num rabo-de-cavalo, uns quarenta anos, calça vermelha gritante, uma camisa de mangas arregaçadas cheia de inscrições kitsch. A barba inadvertidamente branca de alguma tinta vagabunda, que minutos antes lhe cobria a cara durante um dos “assaltos” –provavelmente alguma apresentação-relâmpago- que vinha fazendo com o pessoal de Artes Cênicas naquele dia.

Pede pra entrar, no que um aceno positivo de Matheus o faz jogar-se num sofá e, impaciente, invadir a nossa conversa:

-Tá tudo errado.

Algo estava errado, sabe-se lá o quê, e Matheus desaprovou a reprovação num dos muitos balançares de cabeça, claramente desconfortável com aquela situação. E o homem continuava a discordar, num bom-humor inabalável, de quase tudo que Matheus disse e tinha dito durante a entrevista. Àquela altura, já notáramos que o intruso não cessaria seu falatório tão cedo, e todos paramos para prestar atenção no que ele falava.

Milton, como pensávamos ter ouvido, ou Nelson, como desconfiaríamos depois, era um homem da renascença moderno. Era músico –mencionou ter sido baterista dos Ratos de Porão-, dizia-se ator, dava palestras Brasil afora e trazia em sua mochila uma infindável sanha de cindir o status quo, numa paixão que lhe contaria vinte anos a menos do que realmente aparenta.

Dizia estar na Uel de passagem, uma de tantas outras –conhecia bem a cidade-, mas originalmente teria se formado pela USP (calculo que há mais de uma década), e queria trazer para Londrina a atmosfera uspiana dos velhos tempos.

-Uma universidade sem maconha, cerveja, sexo e rock’n’roll só vai formar um bando de bobões, que vão sair daqui sem saber como é a vida de verdade…

Pregava um pragmatismo, em contraponto à ideologia utópica das chapas, que parecia assustar os demais candidatos presentes, como se nunca tivesse lhes ocorrido que uma coisa são propostas de mudança, outra é viver essa mudança, algo que Milton (Nelson) fazia em período integral. E Matheus baixava a cabeça a cada vez que ele taxava seus princípios de “bobagem”.

E idealizava não uma universidade séria e politizada, algo carrancuda, como a de Matheus, mas sim um espaço de intensa vivência e celebração da juventude que ele mesmo reluta em deixar para trás.

-Vamos trazer bandas de rock, mas também dançar o forró, beber cerveja, em vez de ficar discutindo coisas que não levam a lugar nenhum. Vocês marcam reunião até pra marcar reunião!

Hora de ir embora, e todos cercavam Milton (Nelson) fora do C.A. de Letras para ouvir suas histórias. Matheus, do outro lado, parecia contrariado com tanta atenção para aquele homem de idéias tão opostas às suas.

-É o típico velho que não amadureceu.

Mas quem sabe não seja a hora de o DCE se olhar no espelho e ver se já não está ficando enrugando demais, os cabelos grisalhos? Será que um pouco da imaturidade daquele homem que apareceu do nada e reavivou um pouco do jovem irresponsável que nós tentamos esconder não seria bom para trazer de volta à vida acadêmica aquela incorruptível poesia da revolução que nos faz admirar nossos veteranos de outrora?


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: I – Sem Título – 2004

Junho 20, 2006

Desta vez, não havia nenhuma criança na porta do Aplicação. Os pirralhos cumpriam seu dever cívico na frente da minha casa, gritando e jogando bola uns nos outros. Acordei da ressaca ao som de “Poeira, poeira, levantou poeira”. Levantei, puto, e fui praguejar o Poeira (PTB – 14560), que achei responsável pelo irresponsável carro de som em dia de eleição.

Não era nada disso.

O Dr. Aldo Pedalino é ortodontista infantil, trabalha ao lado de casa, e, ao contrário de Félix Ribeiro, não é candidato a nada. O que não o impediu de promover uma algazarra generalizada que fechou a Pará, entre a Hugo Cabral e a Higienópolis. Treze andares abaixo, pilhas e pilhas de crianças pulavam amarelinha, jogavam vôlei e dançavam ao som da maldita “Poeira”, na rua pichada de giz.

-Ô molecada escrota!, gritei da sacada, ao que não recebi resposta.

À hora de sair de casa, já não havia ninguém, só as marcas de giz. Pude ir tranqüilamente para o Aplicação, onde não mais que alguns concidadãos cumpriam, muitos à revelia, a rotina burocrática que se repete a cada par de anos.

Mas era a minha primeira vez. E, como toda estréia que se preze, causou-me estranheza. As mãos suadas, o nervosismo indiscretamente contido, andando devagar para facilitar o trabalho de quem quisesse me advertir. Na sala, esperava ansioso a conferência do meu nome, como que esperando alguma mácula do passado fazer proibitiva minha ida à urna. Ficha limpa, fui em frente.

Enquanto olhava para a maquininha, senti-me idiota postado ali. Minutos antes, seria capaz de desfiar um solilóquio eficiente sobre a utilização desses amontoados de transistores, assim como a TV ensinava todo dia. Mas agora as lembranças haviam se embaralhado por alguns momentos, e me veio à cabeça a memória de alguns anos antes, quando entrava na seção junto de meu pai, e, números decorados, punha-me a bater nas teclas como se fosse o fim do mundo, a fim de terminar mais rápido que meu irmão, que acompanhava minha mãe. E o dia estava feito. Principalmente se saísse vencedor.

Recompostos alguns conhecimentos, recobrei o vereador, e digitei-o rápido, para não fazer feio para os mesários. A urna, não satisfeita ante meu sofrimento, pôs-me contra a parede: questionava, sem cerimônia alguma, minhas posições ideológicas, minhas dileções políticas e até minhas intenções pessoais – queria, enfim, saber em que eu votaria para prefeito.

Despiu-me. Cabisbaixo e um tanto constrangido, não cheguei a lhe dizer, mas as mãos inseguras e resvalantes falaram por si só:

-Não, urna, eu não sei em quem votar.

Deixara para a última hora uma das únicas coisas que minha vida ainda guardava de decente, e eu falhara. Tentei pescar mentalmente os motivos que me fizeram chegar a tão inescrupulosa situação. Lembrei-me das discussões alteradas de mesa de bar, cercado de petistas, e gritando palavras bêbadas e tucanas, para desespero dos ouvintes. Ali tudo parecia muito claro. Mas, bêbado, votaria até no Barbosa. E a urna me chamava à sobriedade, pedindo-me em alguns segundos uma decisão que não havia germinado em meses de debate.

Não que em algum momento eu tivesse cogitado alguém que não Naudemar ou Hauly. O primeiro habitava minha fração inconformista, do voto de protesto. Não aceitava ter oito candidatos à disposição, e nenhum que eu pudesse pedir para cuidar da minha bicicleta enquanto eu entro naquela loja. Alguns, mais ainda, montariam nela e a levariam pra casa, tamanho o regozijo em roubar.

Já o Hauly não fazia nem um pouco dignificante meu voto. Qualquer candidato que só entre em discussão após o reiterado preâmbulo “odeio o cara, mas só tem ele, fazer o quê?”, boa pessoa não é. Filho dileto da minha porção pragmática, ainda assim sabia que suas chances eram poucas. Só que um pouco maiores que as de Naudemar.

Nessa hora quisera ser petista roxo, e poder votar em qualquer panaca indicado pelo partido e ainda sair de lá feliz, com a consciência limpa. Não chegava a ser tucano de carteirinha, mas o contraponto ao PT me é necessário. Mas não o bastante pra achar bonita a foto do Hauly na urna.

Sim, acabei votando nele. A contragosto, e com a mão deslizando do 45 para o 43 do PV. Mas era inevitável. Sentiria-me um idealista, alienado de minha autonomia política, se porventura desse meu voto para um protesto silencioso e de efeito nulo. Pior, agora me sinto idiota de dar meu voto não para o candidato que eu queria, mas para o que teria mais chances de ganhar do PT. Senti-me um petista às avessas, com as rédeas tolhendo-me a vontade, e, mais reles ainda, fazendo oposição sistemática em vez de apoio irrestrito.

Dei meu voto pra um sistema corrupto, que se auto-alimenta da burrice que impinge aos próprios governados. Eu, que sempre condenara aqueles que perpetuavam essa autofagia, agora descia aos pés da urna e, humilhado, lamentava a ela: eu também sou um deles.