Rainha da Exposição (ou Sobre a Civilização Moderna)

Março 21, 2008

Este texto claramente é uma ficção. Qualquer semelhança com fatos reais não passará de mera coincidência. Por favor não venham me bater, processar ou atropelar

Você surgirá aos olhos de todos; a música sertaneja – que lhe foi entregue a decorar – súbito será eclipsada, como prenunciado, pelo balançar das jóias da platéia. Um passo pra lá, dois pra cá, gira, rebola e volta, e seu trabalho por hoje acabou. Nos bastidores, contam-se os saquinhos de pão estufados de grana.

Seu pai caprichara na oferta, e o presente de debutante está garantido. A faixa desliza ao encontro de seu tórax impúbere, e você, quem diria, agora Rainha da Exposição. Sua amiga ao lado não se pode queixar. Adentrou o rosto inchado à passarela, o vexame de quem inadvertidamente gastara a oferta do pai em carolinas de doce-de-leite do Mister Cuca. Como saberia que tal desventura hipercalórica lhe conferiria o título de Miss Simpatia?

Hoje você dirá ao microfone da colunista social ai, é uma grande emoção… estar aqui no meio dessa gente linda e importante já é uma honra, né, Paula… (e a promotora do evento, atrás da câmera, sussurrará: é Olívia, Olívia!) e você dirá: Lívia… Então ela perguntará pra você o que representa para você o título de Rainha da Exposição? E nessa hora fugirão à sua memória as sessões de adestramento, que a tanto custo encontraram uma lacuna em meio ao francês e à aeróbica; um lépido desespero sobrevirá, mas não se abata. A assessora se adiantará e apontará um panfleto no qual se lê responsabilidade social e você dirá é uma grande responsabilidade social, enquanto Rainha da Exposição, e… éé… (assessora: representar a Sociedade Rural!) estar representando a Sociedade Rural de Londrina e a população dessa cidade linda do nosso Estado e… éé… (assessora: convida pro evento!) e gostaria de convidar todos vocês a presti… pres… prestigiarem a Exposição de Londrina e… éé… (assessora: agradece e sai!) e é isso aí, Paula, quero ver todos vocês lá. Obrigada.

E Olívia, virando à câmera, nos lembrará que foi uma honra conversar com a nova Rainha da Exposi… o alívio a envolverá enquanto afasta-se a dar lugar à madame de quádrupla idade à sua e semelhante eloqüência. E não é algo a se deixar embaraçar, se você não nasceu para falar, e sim para brilhar, filha – como mamãe sempre sublinhara.

Amanhã você, mamãe e vovó – papai foi se encontrar com um vereador e logo volta – assistirão à sua eminente aparição na TV e, pelo telefone, secretárias de construtoras, sociedades rurais e associações comerciais transmitirão as felicitações de seus patrões – que não puderam falar, pois estão se encontrando com um vereador.

Findo o programa, você irá ao colégio. Assistirá às aulas e, durante o recreio, sentará no seu banco de sempre, banco reservado aos filhos de construtoras, sociedades rurais e associações comerciais. Ao longe, verá aquele garoto que sempre lhe despertou curiosidade – bonito, articulado e, principalmente: munido da mais espinhosa indiferença à sua silhueta e sobrenome. Evidentemente, era endinheirado – a estudar no mesmo colégio -, mas lhe carecia à ascendência uma construtora, ou uma sociedade rural. Donde reservará a ele apenas os olhares furtivos de sempre.

Ao toque do sinal, você irá embora acompanhada de um colega do seu banco, ainda que lhe faltem três anos o direito à direção de seu Audi – nada que o sobrenome de construtora não resolva. Combinarão, antes de você subir à sua cobertura, um programa para esta noite. E nesta noite, vocês pagarão à boate que ostenta o sobrenome de outro amigo do banco do colégio os cinqüenta reais que, permitindo a vocês entrar, impedirão aqueles indesejados. Os dois goles da garrafa de vodka vendida pela casa à sexta potência do preço pela qual fora adquirida desimpedirão seu impulso de rechaçar o avanço de seu colega ao seu corpo até então virginal.

Neste fim de semana, você ligará para sua amiga Miss Simpatia e, aos prantos, colocará em questão a lucidez do ato de ontem. Ela, do largo de sua cintura, a invejará e a convidará para assistir um filme. Debaixo do cobertor e munida de pipoca, você sucumbirá à fantasia de sua comédia romântica, e lembrará o mocinho do final feliz ao garoto que você via ao longe no colégio. E questionará sua própria idéia de plenitude – tudo dentro das limitações intelectuais impostas por seu sobrenome.

Mas a ilação se esvairá ao toque do telefone celular, convocando-lhe à festa de coroação de Rainha na mesma boate de ontem. E ao ser clicada pelo assessor da construtora, ao lado do filho do patrão, incorrerá novamente no erro. E, desta feita, consumarão no banco de trás do Audi o que o padre da igreja que sua mãe freqüenta nos últimos domingos dos meses pares havia proibido.

Os próximos dois meses ocuparão sua consciência, primeiramente, de sentimentos de culpa e instintos de auto-flagelação; em um segundo momento, a idéia de conjugar e hifenizar dois sobrenomes de tamanha proeminência lhe parecerá bastante atraente; por fim, somados deveres sociais e sublimações de culpa, ficarão juntos – numa ilusão auto-imposta bastante lucrativa.

Mas não por muito tempo. Três meses contando de hoje, à temporada de exames no colégio se somará mais uma preocupação. Seu namorado irá, no trajeto de volta da boate que não mais ostentará o sobrenome de seu colega de banco – devido à uma parceria firmada com o pai de outro sobrenome de colega de banco -, furar o sinal de alguma avenida central, morrendo ele e a menina que levava no carona.

Você receberá a notícia pouco antes de entrar na prova; a realizará rapidamente, para então se juntar ao coro de prantos que envolve o pátio do colégio. Você se trajará Rainha a fazer as honras do velório.

Eventualmente, esse episódio será esquecido; e um sobrenome novo, de construtora moderna de condomínios fechados, adornará seus braços na foto da coluna social, a celebrar o ingresso e promissor futuro da ex-Rainha da Exposição nos bancos do curso de direito da Unopar.

Ao longo do curso, você restabelecerá sua amizade com sua amiga Miss Simpatia, que, sete plásticas depois, comandará a loja de roupas de etiquetas com nomes famosos, erigida como presente de sua mãe, ao repetidamente constatar a desarmonia da filha com o mundo acadêmico.

Seu pai, por sua vez, a presenteará com um estágio num escritório de advocacia de três sobrenomes ilustres. Presenteará também três sobrenomes ilustres com um saco de pão de conteúdo deveras generoso, a fim de não sobrecarregá-la de trabalho.

Você se formará com láureas televisivas, e um saquinho de pão triplamente generoso inaugurará o quarto sobrenome na fachada do escritório. O casamento, meses depois, assegurará o esforço de três sobrenomes na absolvição de seu sogro, acusado injustamente de uso da construtora para lavagem de dinheiro advindo do tráfico de armas e drogas.

De volta da lua-de-mel em Miami, você será agraciada por seu sogro com uma casa em um de seus condomínios fechados, como retribuição pela absolvição. Lá passará alguns dos melhores anos da sua vida, podendo enfim circunscrever sua vida às amigas de sobrenome que habitam o condomínio. Sem indesejados por perto, aproveitará as festas de confraternização do empreendimento, regadas a apresentações in persona de antigos intérpretes da MPB, para se eleger, unanimemente, presidente da Sociedade de Amigos do Museu Histórico da cidade.

Na transmissão de posse de sua prolífica legislatura, você será lembrada por seus pares em frente às câmeras pela notória habilidade em organizar jantares e bailes de refinadíssimo gosto – tudo em nome do Museu.

Mas não acabará por aí sua proeficência social-administrativa. Algumas intervenções cirúrgicas não invasivas e diversas injeções de toxina botulímica depois, a ascendência familiar mui orgulhosa do cruzamento puro de belos sobrenomes atravancará a ação do tempo. Aos 60 anos, a coluna social trocará os esbelta e jovial dos tempos de Rainha por um sofisticado elegantíssima senhora. E com esta alcunha será anunciada sua ascensão à presidência da ilustre Associação das Mulheres de Negócios da cidade, de onde sairá largamente exaltada nas páginas da coluna social por sua magistral condução de bailes e jantares em nome da Associação.

Na sua festa de 65 anos, amplamente antecipada por seus colegas de sobrenome, você será elogiadíssima pela estrutura de primeiro mundo montada em sua chácara. Em meio às andanças pelas rodas, a contemplar os convidados com suas ferozes críticas ao governo popular e com a acuidade de sua visão empresarial, seu olhar se deterá. Para longe, bem longe de suas amigas de sobrenome, alguma coisa lhe trará para cinqüenta anos antes. E você lembrará daquele garoto do colégio; aquele que nunca se deixou levar pela sua idéia de plenitude. E você pensará se teria sido tudo mais difícil, conquanto muito melhor, se tivesse atravessado o pátio a perguntar o sobrenome dele.

Mas provavelmente não. E você se voltará à colunista social que fará a cobertura de seu evento, sucedendo ao microfone a recém-eleita Rainha da Exposição.


Agosto 14, 2006

O grande barato da cerveja, inatingível com outras bebidas e substâncias, é o otimismo. Bêbado, todo mundo parece gente fina, toda cerveja é boa, e todo plano é executável. Foi bebendo que elaborei a viagem pra Borá, as 24 horas seguidas no Águas, a ida repentina pra São Paulo.

À medida que fui arregimentando garrafas vazias ao lado do computador, deixei o Danilo me convencer a cair pros lados da Europa. Quer dizer, se de fato se confirmarem as pechinchas que ele encontrou. Até lá, estarei com uma grana boa dum trampo fajuto que eu arrumei.

Mesmo que não dê em nada, serve de atestado empírico da grandeza da embriaguez. Dia após dia, chega essa hora em que eu já matei minha cota alcoólica, e os planos, das mais diversas naturezas, surgem. Não nego que uns oitenta por cento caem por terra com a ressaca. Mas o que sobra figura dentre os grandes feitos da humanidade.

Viagens, já as planejei pra basicamente todos os cantos que me vêm à cabeça. Vazar de casa, da cidade. Publicar livro, abrir boteco. Este blog rebentou duma madrugada de pródigas garrafas. O texto inaugural, uma garrafa depois. Devo dizer que nunca me arrependi de quaisquer incursões embriagadas.

E tenho pena de quem não bebe. Admito, boa parte da minha vida eu não bebi. Mas não lembro nem quero lembrar como vivi sem essas doses tão bem-vindas de otimismo noturno. Gente que não bebe ou bebe pouco fica sempre na iminência de sair fora, e se diverte rechaçando os bons planos de quem bebe. Evidentemente, nunca se divertem. E nunca fazem nada.

Do que só posso inferir que a cerveja é o meio e fim último do homem.

Desafortunados os que só dispõe da cabeça sóbria pra pensar, e só aparecem com idéias tolas, factíveis a qualquer outro. Nunca escrevi aqui sem um mínimo de álcool no sangue; quando o fiz, esbarrei em idéias chão.

Pouco antes de dar o primeiro gole, estava com um plano fixo: voltar a ser um cara inteligente. Ler uns livros, ouvir umas músicas, arranjar rumo pra vida. Pô, eu me lembro em épocas de vestibular – todo cheio de mim. Não errava uma sequer no Show do Milhão. Bons tempos em que tinha a tabela periódica na ponta da língua, e sabia ao menos cinco representantes de cada movimento literário, ainda que nunca tivesse lido algum deles. Jogava o #gamagame no mIRC, sabia todas as capitais e as propriedades da multiplicação. Agora tomo um pau dessa molecadinha – não lembro as variedades de leucócitos, e só consegui me atinar dois poetas brasileiros.

Mas aí eu vejo meus rivais de gamagame prestidigitando Drummond com um m só, e enfiando a Turquia na África. Então eu recordo o sujeitinho nojento que eu era, sabendo, de tudo, tudo. E nada também.

Minha mais respeitosa reverência pra quem trilhou o caminho todo, e ouviu os discos que cita, e cita os países que visitou. Mas aí já fica muito difícil. Esbravejar o que não leu, cantarolar o que não ouviu, descrever o que não conheceu, isso daí é pousar no meio do mar. Eu me contento em sair pra Europa, que isso dinheiro paga.


Enfia

Agosto 11, 2006

Dia desses no Potiguá, não bastasse a tensão que já rondava a noite perdida, entra um bando de viadinhos e sapatas no bar – provavelmente advindos do Relicário ou de algum outro antro de gente indesejada, tantos são os que têm pipocado na cidade e passado ao largo do meus mais verdadeiro desinteresse.

Cada um mais andrógino que o anterior, não posso nem lhes abrigar à semelhança com o sexo que Deus lhes negou, pois se nunca vi mulher tão desmunhecada, nem carrapato que forçasse a mão a um saco que nem existe. Dumas cinqüenta pessoas que estavam no bar na hora, duvido que alguma outra ali fruísse opção sexual tão heterodoxa; diversos certamente eram refratários àquela imagem – uns radicalmente, suponho.

Evidentemente, as munhecas que mal davam conta do taco de sinuca estavam lá só pela provocação. Não sei se queriam apanhar pra poder berrar que só apanhou porque era viado – que nem nigger quando é preso (pelo menos esses tem um pouco de auto-ironia). Ou se se alimentam do ódio alheio, como professoras de telejornalismo. Só sei que não estavam ali pra manifestar seu direito de livre expressão – essa ladainha não cola.

Naquele momento, compreendi a raiva de quem pega esse pessoal na rua e espanca. Veja bem, nada contra viados – também nunca tive amigo anal-expansivo, mas nada contra. O problema é com a postura. É muito difícil se vestir que nem gente, se portar que nem uma pessoa de fato? Precisa desmunhecar, falar com o caralho na boca?

Graças à maldita cartilha da correção política, se acham no direito, primeiro, de tachar qualquer crítica, por mais sensata que seja, de preconceito e o caralho a quatro. Segundo, subterfugiam-se na puerilidade da afirmação de identidade.

Porra. Essas coisas não se ganham no grito. Pra quem é minoria absoluta e já sai na desvantagem, não é muito inteligente querer impor seus caprichos pruma sociedade historicamente heterossexual. Vindo de um grupo que se diz mais sensato, mais sensível à conjuntura social, mais cabeça aberta, enfim, o mínimo que se espera é fazer valer tantos predicados unilateralmente atribuídos.

Transpondo isso prum cenário universal: se sempre tive liberdades mil dentro e fora de casa, foi muito menos pelo caráter libertário dos meus pais do que pelo exemplar do meu comportamento. Nunca transpareci bebedeira nem ressaca – vomitava tudo que tinha que vomitar antes de subir o elevador. Notas invariavelmente as melhores, companhia as boas – as más sempre foram omitidas.

Se precisava de grana, estudava mais ainda pra prova. Querendo viajar, até sujava louça só pra poder mostrar que tava lavando. Gritando só me fodi nessa vida.

Conheço alguns viados lá do trampo do meu pai. E só fui descobrir que o eram pelo próprio. Um, puta refinado, colecionador de quadros (vá lá, devia ter desconfiado), era duma elegância nada escandalosa. Esse ganhou meu respeito. Cara ponta firme. Muito mais macho que uma pá de bombadinho de academia.

Porque soube se colocar no lugar. Não só viado; ninguém tem que ficar forçando a sexualidade pra cima do outro. O cara pagar de espada, todo mundo tá ligado que é escroto – indício de insegurança até -; agora, sair de bundinha arrebitada pra bar punk é sinal de coragem, desprendimento, afirmação da identidade marginalizada, promoção da diversidade e o raio que o parta.

Chegar chegando numa mina pode render uma justificada joelhada no saco. Já dar um chega pra lá num viado te fitando a noite inteira, aí não pode – é preconceito.

Seguindo a lógica de afirmação desses caras, eu vou lá na casa dele, saco o pau pra fora da calça e enrabo a mãe dele – afinal, eu só estou dando vazão a minha sexualidade latente. Idéia que dá guarida inclusive a espancá-los na praça: reafirmação da testosterona. Elas por elas.

O que esses idiotas tão fazendo, muito em vez de auferir respeito pra categoria deles (que, quero acreditar, seja composta em sua maioria de pessoas respeitáveis como os camaradas do meu pai), é legitimar a formação de uma sociedade cada vez mais justificadamente homofóbica. Isso é auto-flagelação desarrazoada, típica de quem gosta de levar no cu.


Vão à merda

Agosto 5, 2006

Ao longo duma constante infindável suposta elitização do meu arredor, eu nunca – sublinho: nunca – encontrei alguém que gostasse de arte. Já viajei o Brasil todo, já fucei a vida de milhares na internet, já conheci bibliófilos, colecionadores de quadros, discos; já mapeei minha cidade quase por completo. E até hoje nada.

Mas não preciso virar a esquina pra encontrar alguém que mataria e morreria pelo Corinthians. Que fique claro, não acho nada louvável – e sim uma grande idiotice – esse tesão desenfreado pelo futebol. Mas esses caras, fale o que quiser deles, esses caras gostam.

Desprezo citações, em especial as batidas, mas essa do Lou Reed é tão genial: Rock & Roll é tão fabuloso, as pessoas deviam começar a morrer por ele. As pessoas simplesmente devem morrer pela música. As pessoas estão morrendo por tudo o mais, então por que não pela música? Morrer por ela. Não é bárbaro? Você não morreria por algo bárbaro?

Não falo de punk, nem rock. Eu morreria pelos Beach Boys, cara. E eles vão tocar quando eu morrer. E não precisa morrer também. Mas pelo menos um pau duro, uma vontade de vomitar, de encher a cara. De espancar alguém, ou pegar uma caneta, uma guitarra.

E não precisa falar de porra, de morte, de cu. Já disse, uma banda completamente aviadada como os Beach Boys me deixa de pau duro. Morra pela música erudita, ou por essas poesias do Morrissey. Mas tenha alguma reação, pelo amor de Deus.

O que não dá é entrar na comunidade de uma porra dum chato dum James Joyce, e nêgo postar uma prova, literalmente uma prova, com excerto do livro e questões sobre a transitoriedade da voz do narrador. Isso é arte? Ou eu que tô sendo idiota e entendi tudo errado até hoje, ou isso que chamam arte não era algo pra causar sensações?

Agora me diz, que sensação existe em cerebralizar tudo que se lê, ouve, vê?; que graça tem ficar pescando metáfora, encadeamento harmônico, e sei lá o que mais?

Eu sei que graça tem: os outros baixam a bola e o interlocutor desavisado não vai ter a manha de falar meu, aquele riff me deixa de pau duro quando o primeiro, altivo, tá analisando o emprego inusitado da sexta na construção da harmonia.

Só dou um toque, na humildade: se o cara tava mesmo pensando a mesma coisa que você, se ele realmente fez conta pra escrever aquilo lá, então o cara também é um panaca que ia ser muito mais útil na livre-docência de engenharia elétrica. E, se o cara é que nem as boas pessoas que eu conheço – não me pretendo artista, mas eu escrevo, e minha mãe e namorada ainda apreciam a minha obra -, eles não pensaram em porra nenhuma disso, e provavelmente tão rindo da cara de vocês agora.

Eu não leio. Eu nem gostava de escrever, porque me forçava àquele texto de debutante. Demorou até tomar a cara de escrever do jeito que eu quero, do jeito que as coisas precisam ser escritas. Na porrada, no tempo de uma garrafa. Eu não leio, por mais que às vezes dê aquela vontade de folhear alguma coisa – e é claro que tem muita literatura boa. Eu não li os clássicos – nunca li Graciliano Ramos, Guimarães Rosa muito pouco. Nunca li nada – nada – de fora.

Paguei um pau praquele livrinho do Fabiano – mendigão mesmo -, pena que não o tenho em mãos pra citar; mas era alguma coisa assim: meu amigo falou pra mim: cara, vai ler os clássicos, Joyce, Wilde, Pirandelo… Eu li, e MEU! Aquilo me deu uma caganeira desgraçada, quase arregacei as pregas do cu. É isso que tem que ser dito, ainda que ninguém queira ouvir.

Filme pra mim, Sessão da Tarde, e olha lá – Corujão já é muito cabeça. Não conheço música erudita, jazz, bossa-nova. Que tem coisa boa, claro que deve ter. Mas é risco muito grande, você começa ouvindo um bagulho que te fisgou a atenção – quando vê, já tá discutindo aquele acorde, aquela quebra de andamento. E isso contamina. Eu sei, e já previa isso, que perdi um tesão desgraçado nos Beach Boys só de aprender o campo harmônico maior. Tira a graça, sabe. Por mais que seja útil, e que nem se consiga reproduzir um Brian Wilson sem saber ler a música dele, é difícil quase impossível fazer tua aulinha de violão e não começar a escutar os caras e enxergar na tua frente os Am7 e Edim, pululando que nem letra em videokê, coisas que até antes você ouvia e aquilo só te eriçava os pêlos. Fica tudo muito mecânico, e isso é uma merda.

Pô, eu me entrego por inteiro pra tentar escrever o que suponho que as pessoas querem ler. E talvez, tolo eu, elas leiam mesmo e gostem. E deixem escapar uma barraca armada. Mas guardam pra elas, porque o bonito é gostar da coisa poética, do sofrimento escroto, vazio, do se colocar por baixo pra sair por cima. Se algum dia, e isso não vai acontecer, dessem algum reconhecimento pro que eu escrevo, não ia tardar a me elogiarem não pela raiva ou pelo tesão que eu despertei, e sim por alguma metáfora em casca de ovo, que – juro pelo cerveja ao meu lado – nunca foi minha intenção.

Graças a Deus que, sabe-se lá por quê, ninguém comenta no meu blog, então são poucas as chances de um desses escrotos vir aqui com um calhamaço provar por A+B que meu texto não tem fundamentação lógica, porque, como disse o Andy Kaufman, I have no comeback for that.


Da liberdade de querer mal os outros

Julho 27, 2006

Posta minha disposição em jogar uma peladinha de quando em nunca, meu esporte preferido sempre foi o de irritar pessoas em mesas contíguas no boteco.

Ocasiões como aquela em que o Pátio levantou-se em massa a me censurar meramente por eu achar o Rio de Janeiro feio. Os boyzinhos imberbes ao lado sugestionavam-me, em expressão inédita, conversar com a Hebe; um senhor do outro lado da cerca lembrava-me: era carioca da gema – no que só pude replicar bom pro senhor. E o inevitável aconteceu: os intelectualóides vizinhos quiseram entrar na conversa. Burro eu também, que me evadi no momento duma das regras pétreas da civilização: só escroto invade conversa dos outros – gente de fato civilizada põe-se tão-somente a resmungar a burrice alheia.

Não deu outra: o cara era da Unopar (UNiversidade PARticular). Disse, evocando a correção política, que não se pode generalizar uma afirmação, tanto mais quando se trata de uma cidade inteira. Sendo da Unopar, não tardou a descer o pau em Uberlândia, como não fosse esta também uma cidade. A conversa afundou de vez quando ele e seu companheiro, arrogando-se fanatismo incondicional pelo Floyd, perguntaram o nome daquele álbum que eles fizeram de trilha pro Mágico de Oz.

Desse momento doravante, assentei-me na certeza de vida que a mesa ao lado sempre comportará pessoas estúpidas, até que se prove o contrário – e devo dizer que nunca tive a satisfação de prová-lo.

Irritar os arredores não é um expediente simples como pode parecer. Necessita-se sobretudo colegas de cerveja dotados de um mínimo de acuidade intelectual e disposição a descer contigo até a última instância. Pena nunca termos, eu, Danilo, Gonzo e o Simão, concretizado o plano de nos sentarmos no Valentino ou Bar Brasil a descer o pau – justiçadamente – em alguma Bjork ou coisas do tipo, só pelo prazer de defenestrar o primeiro óculos de aro grosso que levantasse a voz pra gente.

Apiedou-me o Cibié confessando seu medo de ser tachado de nazista pelo simples fato de acreditar na seleção natural. É justo: de fato, tem gente que nasce pra ser pedreiro – pena que parte substancial desse contingente disponha de grana o suficiente pra comprar a mãe de seus pedreiros.


Julho 24, 2006

Me deixou puto porque eu vi nos olhos dela que ela não precisava nunca ter visto aquilo. Ninguém precisa ver um bando de marmanjos cheirando pó na beirada da mesa de sinuca. Não é bonito e eu acho que ninguém mais se impressiona com isso hoje em dia. Não me considero nem um pouco malandro, mas, enquanto fritavam o nariz, bebi o dia todo na conta deles.


Julho 23, 2006

Minha mina acha deprimente, mas eu acho é muito bonito ver um cara como o Tácito, do alto seus quase quarenta, mendigando, noite após noite, cigarro, cerveja e lugar pra dormir. Dum lado pra outro, com a indefectível pastinha de aquarelas à procura de comprador, que eu confesso nunca ter conhecido. Se dez por cento das histórias do cara forem verdade – e devem ser -, ele já viveu bem mais do que eu conseguirei viver. Já bateu, apanhou (tem que ter inimigo, né, senão a vida perde a graça), passou tempos em cana, foi procurado, fugiu pro Matogrosso, já pôs pra dentro basicamente tudo que pode ser posto pra dentro, já conheceu e se amigou de todo mundo que precisava ter conhecido e se amigado. Dormir na rua não é problema quando se deita na própria história.

A treta vai ser, depois de um período de férias altamente epifânico, voltar pro meio de 160 pretensos jornalistas querendo mudar o mundo entrevistando puta e fazenda matéria sobre trigo. De dia, claro. De noite, maconha pra uns e Acústico pra outros. Velho, sai pra rua antes, quebra a cara um pouco, vai conhecer quem quebrou a cara. É muito cômodo pegar o carro do pai, seguir pra Penitenciária e voltar com matéria de denúncia do sistema prisional – ou da merda que for.

Essa minha recente incursão pelos meandros da parte suja da cidade tem sido muito mais interessante do que qualquer protesto por equipamentos pro curso, que, sejamos sinceros, toda a burguesada lá tem dinheiro pra arranjar. E, à diferença do jornalismo tradicional, eu não vou divulgar o resultado pra ninguém. Caiam na rua e façam o mesmo, ou continuem se maquiando pruma câmera a que ninguém assiste.

Elogio desgraçado esse da praxe condenável de se humilhar as pessoas a fim de fazê-las aprender algo. Virou moda agora, provavelmente herança desses livros de auto-ajuda pra alunos de Administração. Tem que pisar no idiota, porque só assim pra dizerem que você é bom professor. E até vira patrono de turma. Ainda me intriga o que eu deveria depreender da implicância desmesurada com o comprimento do meu cabelo – além da frustração evidente de quem tem de cobrir seu ralo capacete grisalho com uma tintura de péssimo gosto.

Parece que o pessoal esquece que o telejornalismo seguramente figura como a forma mais reles de expressão humana; que a senhora em questão doutorou-se com uma tese grandiloqüentemente infantil, inepta e mal-escrita, e com a única intenção de avolumar seu contra-cheque; que recebeu por um tempo razoável gratificações que não lhe cabiam; que seu histórico despeito com textos rebuscados só se deve a sua inabilidade semi-analfabeta de reproduzi-los. Que só trabalha nos bastidores porque nunca teve altura, beleza, carisma e uma voz feminina o suficiente pra promover-se frente às câmeras. Que seu desamor incontido não passa de reflexo do lesbianismo malogrado (lésbica não, porque, como já dizia o sábio Jess, lésbica é bonita; feia é sapata). Que não passa de uma profissional meia-boca lembrada, bem, por ninguém. Até agora – suponho inédita qualquer homenagem discente a ela.

Mas finalmente caíram no conto – décadas depois de ódio sistemático, institucionalizado e, acima de tudo, sensato, alguém finalmente caiu no conto. Uma conjuntura matematicamente improvável, contra-prova da seleção natural, conseguiu juntar um quórum que, desavivenciado, achou bonito esse negócio de apanhar. Pena que apanharam da pessoa errada. Podiam ter apanhado da polícia, e pego nojo dos porcos; podiam ter apanhado do pai, e aí não precisariam ir pra colégio construtivista; podiam ter apanhado da cerveja e da vida, e dormido na rua. Podiam ter aprendido alguma coisa de verdade.

Eu, o Teixeira, o Tácito e o Cibié távamos discutindo assuntos correlatos quando o moleque começou a apanhar. Devia ter uns dez, onze anos, e juntaram uns dez pra espancar a criança. Sei lá se pegou pra si a grana da pinga, se fumou a nóia sozinho, ou se deu azar mesmo, mas acabou virando o espetáculo pra platéia impassível dos três botecos da redondeza. A gente, que tava descendo o pau nessas injustiças do mundo, não tinha muito o que fazer. Despedimo-nos e seguimos, cuidando pra pisar só nas pedras brancas do Calçadão.


Julho 16, 2006

Ultimamente, tenho despendido meu tempo engendrando minha guerrilha pessoal contra as vadias do primeiro e nono andar do prédio – pelo menos, é onde acredito que elas moram. As recém-desgarradas do edifício têm deixado perfume exagerado e uma exacerbada concentracão de feromônios ao deixarem o elevador, o que tem instintivamente atraído os boyzinhos do terceiro e quinto andar – pelo menos, é onde acredito que eles moram – com seus paus impúberes indiscretamente eretos. E eu, infeliz morador do décimo terceiro, sou obrigado a cumplicizar diariamente esse infindável trajeto hormonal.

Ora tenho de regressar ao meu abrigo familiar, saudavelmente retrógrado, em meio ao viadinho do quinto andar, o corpo ainda em formação – desproporcionadamente alto, os braços longos estupidamente logrados pela natureza a facilitar-lhe a punheta, entrando em seu apartamento aos gritos de cadê a mulherada? – ; ora tenho de esperar o atrasado Simão em frente à portaria ao som fugidio das raparigas do primeiro, confabulando alto, claramente aos desígnios da descoberta do corpo à espera dos primeiros pêlos.

E alimentam a tensão adolescente à beira da minha piscina, até então só minha, seja duelando num ritual aquém da comédia física, seja colocando no stereo os últimos hits do verão, numa tentativa tragicômica de conquistar as vadias do primeiro e nono andar. Eu, que só queria beber minha cerveja e pegar uma corzinha, tenho de encolher a pança ao sair d’água ante uma platéia cinco anos mais nova e dez mais malhada.

Eu só queria um pouco de respeito.

Não sei se fui cobaia duma educacão particularmente regrada, mas aprendi desde pequeno a abaixar a cabeça aos que fizeram por merecer. Não entro no Fakir sem antes acender um cigarro e agradecer a Deus pela oportunidade de aprender o que outros não puderam. Voto em quem meu pai vota, e como transgênico com gosto, porque, não obstante as desavenças históricas com meu pai e ao contrário do CCH, aprendi quando falar e quando ficar calado. Não discuto com o Fábio porque a dileção matemática de outrora me ensinou a probalidade de quebrar a cara. E não cito Beatles quando não lembro o álbum.

Tudo isso porque desde cedo aprendi a beleza da reverência. Da humildade de quem um dia também quer ser reverenciado.

Nunca pedi muito dinheiro, saúde não faço questão, tampouco espaço na coluna social. Minha única e reles ambição é um dia sair do prédio, partir pra rua, e o boyzinho do quinto falar baixinho pro seu companheiro de troca-troca, não zoa não, que esse cara é escritor. Ou que entende de música. Ou que sabe das coisas. Qualquer coisa que me aufira, um mínimo que seja, de respeito.

Tava voltando do boteco esses dias, e – virando a esquina, meia quadra de casa -, como parece ser meu fardo, passou um carrinho de boys. Berraram alguma coisa; depreendi algo sobre meu cabelo de menina. Já acostumado ao despeito alheio, levantei eucaristicamente os braços; um só tempo, a questionar a necessidade do gesto e a aceitá-los em meu coração.

Mal completaram a curva, atravessaram de fronte o portão da mansão da esquina. Do carro lotado, ouvi os gritos agonizantes e gente saindo do carro e desmaiando em meio ao sangue. Acho que morreram, ou quase. Eu, nada que tinha a ver com isso, andei o último trecho que me restava à cama. E dormi. Redimido, enfim.


No fundo, era só de ontem de que eu precisava

Julho 9, 2006

Aos dez anos, se não me falha a memória, vivenciei um episódio seminal na minha vida, fundador de uma persona incontidamente raivosa: um dente-de-leite recalcitrava aos rituais anciãos de auto-extração dentária, e outorguei a tarefa pela primeira vez a um profissional; o desgraçado puxou papo o suficiente pra me distrair e, súbito, arrancar meu molar desacautelado, às risadas do meu pai, cúmplice do ardil. Não achei graça nenhuma; em verdade, esqueci do dente e concentrei-me ao nojo. Com o tempo, a raiva passou, mas a descrença perdura e revolve a cada semestre que torno ao consultório. Aquele molar decadente levou junto boa parte da inocência que eu criança deveria ter resguardado pelo menos até o primeiro assalto, um mero ano depois.

Assalto que provavelmente levaria o boné e deixaria a inocência. O meu problema não são as atitudes. Ainda que eu tenha experienciado muito pouco nessa minha vida pequeno-burguesa (FLÁVIA, Camarada. Conversas de Bar, 2006), e meu imaginário de estupros, tiros e corpos dilacerados advenha de Carlos Camargo e Faces da Morte, não me enxergo chocado mui facilmente. O que me aflige são as posturas.

Horas de conversa as mais tranqüilas possíveis, ele levanta, despede-se calmamente e, à porta, esmurra a mulher e a arrasta às bicudas pra fora do lugar, regendo as ameaças dos mendigos presentes – estes sim preocupados com as atitudes. Fosse um desses mendigos protagonista de cena semelhante, me valeria da indiferença adeguiana de sempre. O problema, pelo menos pra mim, não é bater em mulher. Quer dizer, nada a favor também – o trauma reside na violência, independente do gênero. O que me deixou atônito o resto da madrugada foi a abrupção, de devaneios inocentes sobre o caráter pueril das composições de Brian Wilson, pra socos e chutes, segundos após. Nesse caso em particular, o qüiproquó marital me deixou ainda mais fascinado com aquela figura sempre tão coerentemente pacífica.

Mas, afora essa exceção plenamente justificável, me aflora o asco não a incoerência, mas a indefinição, o livre-trânsito. Não me deixo impressionar por citações de Kant, consciência ambientalista ou peitos volumosos. Prezo unicamente numa pessoa não a postura coerente, mas a coerência de postura. Tenho grande simpatia por loucos, os patológicos, por serem estes sempre coerentes – em sua incoerência peculiar, mas o são. Deles espera-se o inesperado, inclusive uma postura coerente.

Cultivo ódio irrefreável por pessoas que se orgulham, junto comigo, de levar a faculdade na mais voluptuosa coxa, e, à primeira suspeita de potencial reprovação, reprovam-me por não adimplir com a parte que me cabe no trabalho. Gente que, alvo de ódios pregressos, largou ao chão uma vida de sujeira e agora, admitida ao trabalho gratuito de ONGs ambientalistas, arrastam pra baixo do tapete a sujeira da vida. Que, ao primeiro trabalho na TV, desviam o foco pra longe da possibilidade de quem não trabalha na TV.

Não são meus olhos verdes ou a propriedade de um White Album com dois discos 1 que me encaixam numa parcela minoritária da população. Prefiro acreditar que isso esteja ligado ao fato de que sempre soube lidar com relativa destreza poética o ódio, e, no entanto, padecer de desajeito diametral no trato com o amor. Assim como um expressava seus sentimentos no fêmur da esposa, outro vomitava no chão do bar seus ressentimentos conjugais, inadvertidamente recobrados por mim.

Nunca ascendi a lágrimas, sonetos ou parapeitos de prédio por mulher alguma.


Por cinquenta centavos, até que o mendigo me vendeu um bom texto

Junho 19, 2006

Nunca despendi tempo e grana com rueiros, a não ser quando sou coagido a tanto. No mais das vezes, um cigarro paraguaio os faz calar a boca. Nunca me deixei comover por suas histórias de aids, fome, retorno a casa, leite pro filho; em geral, subterfúgios pra tomar mais uma cachaça. Que conste, um motivo deveras digno.

Não que me fundamente em ideologias CCHianas anti-assistencialismo ou qualquer baboseira do tipo; tampouco o mandei trabalhar, que meu dinheiro é tão merecido quanto Trinidad & Tobago levar a Copa.

Hoje, entretanto, topei um mendigo na rua e acabei por dar-lhe a moeda que esmolava. Cinquenta centavos, ou um copo de cerveja.

Não sei se o fiz por retrofilantropia moral, recobrando a consciência por um preço além do módico, se o fiz por previdência cármica, esperando receber em dobro quando for eu na rua a esmolar uma pinga, ou por mera preguiça de negar-lhe a moeda. Sei, contudo, que não o fiz pelo mendigo.

E isso não pode ser bom.

Mas, vamos e venhamos, o que é bom? Porventura, é bom me repreender terminantemente por querer boa parte da população morta e, em seguida, pregar a pena de morte pra estuprador e votar pra que possamos usufruir o direito, naturalíssimo, de munir-nos de um trezoitinho inofensivo na gaveta da cômoda? É bom, me pergunto, ser boy paz-e-amor-me-amarro-em-mulher todo frutinha de camisa rosa, completamente intolerante à subversão violenta do sistema, e sair na balada (termo nojento) procurando treta? É bom virar ambientalista ONGiano depois de jogar uma vida de bitucas no chão, de querer despoluir o planeta quando sequer arranca a crosta de merda que carrega nos pés descalços? Deve ser muito bom apologar a paz mundial; e, melhor ainda, sem se desconcentrar da maquininha de levantar peso, inchando os braços pra lembrar o interlocutor que é bom concordar contigo.

Sintam-se impelidos à discórdia, mas eu me considero uma boa pessoa. A despeito da patrulha ideológica e da correção política, levo-me pela justiça e pelo equilíbrio das forças cósmicas. Pra cada pré-adolescente que se desvirtua ao vegetarianismo, eu mando ver mais uma bisteca sangrando; pra cada calouro de Greenpeace, jogo uma casca de fruta na lixeira de metal reciclável. Pra cada bom Bussunda que morre, fantasio o açoite de uma professora de telejornalismo, duma ambientalista hipócrita e de um frequentador do Acústico [glossário aos gringos: Acústico - boate de quem não tem dinheiro pra ir no Empório (gl. II - Empório - boate de quem tem dinheiro suficiente pra gastar meia centena de reais num galpão de estocagem de arroz)].

Afinal, o faxineiro só leva o leite da família se alguém cagar fora da patente.

Não é um mundo perfeito – longe disso. Mas acredito-o bem sossegado, pelo menos pra mim, e esforço­-me à manutenção do status quo. Imagine o CCH como umbigo do universo – eles já imaginam (gl. III: CCH – Centro de Ciências Humanas, ou Centro CHato. No caso, é o da UEL, mas os alunos são os mesmos da sua universidade: também querem mudar o mundo, mas só das 8:20 às 11:50). Cada um com sua lixeirinha de reciclados a tira-colo, na lancheirinha de alimentos verdes não-transgênicos; FILO permanente (gl. IV: FILO – Festival de Indivíduos LOgrados por uma série de pseudo-manifestaçôes teatrais; ou seja, gente pelada num palco sendo levadas a sério por gente mais pretensiosa ainda), todo mundo devidamente bissexual (gay) e a favor da liberdade sexual (contanto que seja no cu do próximo). Ao seu lado, passa um nego numa perna de pau cuspindo fogo, e, atrás dele, um chapando gritando: É arte! É arte! Um mundo com Mutantes e maconha infinita, enfim, um Pé na Cova gigante (gl. V – Pé na Cova: boteco fuleiro o suficiente pra estar na moda, mas seguro o suficiente pra não roubarem o Vectra do pai, estacionado na quadra anterior – porque ninguém pode saber).

Sigo sem me filiar a nenhuma corrente. Deixo-os se terem melhores que eu. Mas tem uma coisa que S. me dizia antes de morrer: magro, gordo, bandido, aluno de Ciências Sociais, todo mundo caga. Quem caga todo dia, limpa bunda e consciência. Quem segura a merda, hora ou outra entope a privada. Cometo meus pequenos crimes diariamente, e até agora mantive-me apto a expurgá-los. Quem se deixa pautar pela obediência incondicional à cartilha da correção política, eventualmente vai desandar. Onde estão agora os antigos revolucionários do PT?

Enquanto me mantiver superavitário face às pessoas que prezo, não vejo por que mudar minhas posturas. Uma bituquinha de vez em quando faz muito menos mal ao Igapó que o jorro de merda que escoa do bueiro.