A verdade do Dead (ou texto pra fazer média com meu amigo Fabão) – resenha pra jornaleco

Junho 22, 2006

Penei muito até descobrir que não era música aquilo que eu acreditava gostar. Eu, cético antes mesmo de aprender a soletrar agnosticismo, descubro tardiamente que gostava mesmo era da espiritualidade das coisas.

Todas as religiões e posturas introspectivas se assentam ora sobre o amor, ora sobre o ódio, ora sobre o diálogo de ambos – e aí se plenificam no mais precioso momento humano: a transcendência.

Musicalmente, isso fica explícito em mantras, gregorianedades, new ages e afins, ou, de maneira mais sutil, em Brian Wilson ou no Floyd.

Mas é legal ouvir essa experiência religiosa inserida num ritual coletivo, nada tribal, muito mais afeito a práticas pecaminosas do que propriamente ascéticas. E é legal ver que drogas, sexo e guitarras às vezes têm muito mais Deus que o coro desajeitado da igreja.

Os mandamentos do Grateful Dead pouco ou nada deviam se assemelhar aos católicos, mas isso não os impediu de trazer ao chão e à epiderme algo de além-mundo.

O Dead, seguindo à risca os ensinamentos do papa Brian, fazia música para os outros sorrirem. E só sorri quem acredita. Jerry Garcia e seus comparsas, muito antes de encadear harmonias e sobrepor vozes, sorriam. E acreditavam. E, naquele instante, era só isso que importava.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: VIII – Crocodilo Dândi (resenha de jornaleco) – 2006

Junho 20, 2006

Quando urge a necessidade aos burros de se fazerem inteligentes, nomeiam pencas de livros, os ditos clássicos, aqueles que nos avalizam mais sabedores que os outros. Livros que ou não leram ou simplesmente o fizeram para ulteriormente citá-los quando a necessidade urge. Citações – que hoje vêm compiladas em calhamaços que encontram irrestrita apreciação entre essas espécies pedantes – das quais seus substratos são esses cretinos completamente alienados. Conhecimentos que não nutrem outra função senão a de nutrir o próprio ego.

Quando um metaleiro (sem ofensa aos metaleiros, também o sou) quer provar pra família que não é o cabeça oca que seu pai pensa ter criado, ele põe em seu som e em seu profile do orkut alguns noturnos de Chopin para celular, algumas peças de Mozart para elevador…

Mas houve um momento em particular – e logo na nossa outrora inteligente Londrina – em que se pôde gostar de música boa, refinada, sofisticada, erudita e o que mais queira, sem ter que fazê-lo à revelia, pelas aparências.

Quando Arrigo Barnabé decidiu que boa música não precisava ser chata, nesse momento Londrina conheceu um sujeito mais punk que qualquer moicano, mais headbanger que qualquer black metal profano. Que meteu orgasmos, gemidos, putas, crocodilos, fliperamas e toda espécie de material mundano numa sinfonia roqueira melhor que a quase totalidade do que já fora produzido por maestros frescos e recalcados de salão.

Com menos de 30 anos, um maconheiro porra-louca – em todas as acepções da palavra – gritava rouco sobre bases dodecafônicas, atonais e todas essas coisas eruditas que, em verdade, eu não sei muito bem como funcionam. Mas sei que ficou bom, muito bom.

Finalmente, podia-se tocar após os Ramones alguma coisa com mais de três acordes, e gostar mesmo daquilo. Ter um tesão irrefreável em algo muito mais sofisticado que aquilo que meus pais ouvem. Pra falar a verdade, eles continuam não gostando, e aparentemente até preferem a tosqueira só tosca dos Ramones à violência erudita do Arrigo. Mas não podem mais dizer que só ouço porcaria.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: VII – Sem Título (resenha de jornaleco) – 2005

Junho 20, 2006

Há diversos modos de se ouvir música. Mas quando se é um metido a enciclopédico, um mal que aflige a mim, minha colega de resenha musical nesse espaço e o público da Terça Tilt inteiro, acabamos por nos restringir a uma única modalidade de audição: ouvir lendo. Antes de se ouvir o disco, essa nossa pernóstica espécie percorre um tortuoso trajeto que inclui semanários ingleses, Ilustradas, Bizzes, Allmusics e outros, pra daí então ouvir o CD com o julgamento já pronto e imutável.

Mas às vezes eu lembro dos bons tempos de criança, quando eu gostava mesmo era da música. Podia ser cool, uncool, hype ou brega. Eu era metaleiro, porra! E hoje, fazendo umas contas despropositadas, lembrei que esse SMiLE que eu me proponho a resenhar era lançado há exato um ano. Resolvi reler a empoeirada e inédita resenha de 5 (!) páginas que escrevi na época de seu lançamento. Ainda está tudo lá: os 37 anos que o disco permaneceu engavetado (agora fariam 38), a indimensionável importância histórica do álbum (cada vez maior), o quanto meus pêlos se eriçavam ao começo de cada canção (permanecem eretos), o elogio de Brian como o maior gênio vivo ou morto da música pop (ainda é, sempre será), tudo no seu devido lugar. Depois de tudo isso, pra dizer no final que, mesmo assim, já se foi o tempo de SMiLE, e que, lançado em 2004, não substituiria nenhum dos panteões costumeiros do pop (Sgt. Pepper’s, Pet Sounds, London Calling, etc.).

Mentira. Das brabas. Idiota eu, com medo de que a finada ShowBizz viesse me puxar o pé à noite. Malditos fazedores de lista, sempre nos importando com o quanto tal álbum fez ou deixou de fazer história, e perpetuando a impossibilidade crescente de algo diferente se juntar a essas listas. E daí que ninguém pára pra escutar o que Brian faz hoje em dia? E daí que seu SMiLE não vai alterar um centímetro a rota do pop doravante? E daí que ele é tão cool quanto peruanos tocando Imagine no Calçadão? E eu com isso?

É lindo, é genial, me faz ser uma pessoa melhor, e é melhor que 100% do que é feito hoje em dia e do que já foi feito também. E é o melhor álbum da história da música. E essa resenha, dez vezes menor e cinco vezes mais honesta, ficou bem melhor que a primeira.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: VI – A Arte de Transcender (resenha de jornaleco) – 2006

Junho 20, 2006

Há apenas dois nichos nos quais discernir a música. Não as dicotomias clichês; bom ou ruim, erudito ou intuitivo, comercial ou artístico.

O único mérito de fato valorável no cancioneiro é a capacidade de aproximar espiritualmente seus fãs da sua criação. Que não me interpretem erroneamente os diletantes de música ruim; o fato de seu ídolo deixá-lo intumescido ao ponto de esperá-lo na frente do hotel na tentativa geralmente vã de estabelecer um contato extra-musical intra-corpóreo não significa em absoluto que sua música possui quaisquer aptidões sobre-humanas.

Gostar de música todo o mundo gosta. Outra coisa é fazer um ateu militante acreditar em Deus por três minutos e meio.

Isso os Beach Boys, a melhor e talvez única banda da história, fizeram comigo. Fizeram com o Simão, meu melhor amigo – cético de Deus e da boa música.

Às vezes me pego na rua ou em Valentinos da vida, compenetrado nas camisetas de bandas modernosas com cinco ou seis palavras no nome – quem sabe até um ponto de interrogação ou uma letra minúscula no nome próprio, o que torna tudo mais cult -, e me sinto um pouco acima dos outros, por não precisar passar dias na internet procurando a última banda do momento, pois sei que a felicidade mora perto, bem perto, ao alcance de qualquer um.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: V – A Arte de Estragar Tudo (resenha de jornaleco) – 2005

Junho 20, 2006

Não bastasse ser a melhor banda da história, os Beatles tinham um apreço todo especial pela megalomania. Não nos moldes do progressivo, com suas afetações narcisistas, putarias medievais e afins. Estava mais pruma necessidade pungente de competir com (e ganhar de) tudo e todos.

De fato, conseguiram. São a melhor banda de rock’n’roll, de folk, de psicodelia; e o White Album e o Peppers têm uma capacidade filha da puta de chutar pra todos os lados, e, mais do que acertar, criar uma obra-prima dentro de cada gênero em que se aventurassem. Mas, uma vez na vida, os Beatles erraram. Uma não, três.

Tive o desprazer de assistir recentemente à filmografia completa dos Fab Four – a incursão do grupo pelo cinema sem dúvida elenca no cume do rol de cagadas do pop. Magical Mystery Tour (67) é emblemático do contraste: a melhor coletânea de faixas isoladas da história do pop servindo de trilha para a possivelmente mais constrangedora coletânea de quadros já registrada numa fita magnética. O não-enredo do filme versa sobre um ônibus numa excursão em que nada acontece, sendo os quatro Beatles magos que nada fazem acontecer. O mesmo acontece com A Hard Day’s Night (64) – admito não conseguir lembrar do que o filme trata. Mas, às vezes, é melhor não ter enredo do que encampar a trama de Help! (65), que me levou duas vezes ao sono. Ringo tem três horas pra arrancar um anel de seu dedo, caso não queira ser sacrificado por um clã de fanáticos religiosos.

Os Beatles fizeram a melhor música do século XX, inventaram o álbum como o conhecemos e ilustraram-nos com as melhores e mais memoráveis capas. Podem até ser melhores que Jesus, mas foram os maiores cretinos que já tiveram seus rostos projetados numa tela.