Penei muito até descobrir que não era música aquilo que eu acreditava gostar. Eu, cético antes mesmo de aprender a soletrar agnosticismo, descubro tardiamente que gostava mesmo era da espiritualidade das coisas.
Todas as religiões e posturas introspectivas se assentam ora sobre o amor, ora sobre o ódio, ora sobre o diálogo de ambos – e aí se plenificam no mais precioso momento humano: a transcendência.
Musicalmente, isso fica explícito em mantras, gregorianedades, new ages e afins, ou, de maneira mais sutil, em Brian Wilson ou no Floyd.
Mas é legal ouvir essa experiência religiosa inserida num ritual coletivo, nada tribal, muito mais afeito a práticas pecaminosas do que propriamente ascéticas. E é legal ver que drogas, sexo e guitarras às vezes têm muito mais Deus que o coro desajeitado da igreja.
Os mandamentos do Grateful Dead pouco ou nada deviam se assemelhar aos católicos, mas isso não os impediu de trazer ao chão e à epiderme algo de além-mundo.
O Dead, seguindo à risca os ensinamentos do papa Brian, fazia música para os outros sorrirem. E só sorri quem acredita. Jerry Garcia e seus comparsas, muito antes de encadear harmonias e sobrepor vozes, sorriam. E acreditavam. E, naquele instante, era só isso que importava.
Escrito por cenarock
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