Os seis últimos parágrafos do texto devem ser lidos ao som de Revolution 9 (White Album – 68), a grã-porcaria dos Beatles.
O último parágrafo deve ser lido ao som de Good Night, a faixa seguinte.
O autor do texto não se responsabiliza por interpretações errôneas e leituras tediosas, no caso de desobediência ao guia de leitura.
A idéia era fazer uma idiotice maior ainda. O plano original, caminhar de Londrina a Maringá a pé (já cruzáramos Londrina norte-sul meses antes), tinha sido inviabilizado graças às seqüelas de um pé quebrado descendo um coqueiro, esta uma idiotice não planejada. No nosso emérito QG, uma mesa grudenta da Adega, ao lado do banheiro (esperando os fluxos de odor do banheiro para atingir a inspiração transcendental), veio súbito a iluminação: Borá.
Da Cena Rock original, só eu (posta a genial participação de F., que não pôde ir: “Borá? Bora!”). A única condição, não maturar a idéia parida um mês antes da viagem. Íamos pra Borá e pronto. Estávamos terminantemente proibidos de manter qualquer comunicação com a cidade, nem de procurar lugar pra dormir por lá. Tudo na cega.
Acordei segunda às nove, passagem marcada pras 11:40. Reunidos em casa, arrumamos a mochila (uma calça, duas bermudas, tênis, chinelas, seis ou sete camisetas, umas oito cuecas e uns cento e cinqüenta pilas – o essencial) e cooptamos, às 10:30, um último integrante: M. Agora éramos eu, B.D., G. (outro G.) e M. Optamos pelo ônibus às 14:30, pra M. ter tempo de se despedir de seus pais.
166 quilômetros e 2h30min depois, chegamos em Paraguaçu Paulista, a metrópole (uns 40 mil habitantes) de Borá. Tarde demais – perdêramos o último ônibus do dia pra Borá. A fim de não esquentar a cabeça, espalhamos a palavra pros nativos e fomos tomar uma no boteco da rodoviária. Foi servir os copos pra chegar um senhor e ofecerer uma carona em sua Kombi. Fechou por dez reais, pelo combustível. Viramos os copos e fomos. No caminho, nos contou das virtudes de Borá e nos indicou procurar de cara o prefeito da cidade, Seu Nelson. Respeitosos à hierarquia, ressabiamo-nos.
-Pronto, é isso aqui, Borá. E nos largou na entrada da cidade. A primeira edificação da cidade, naturalmente um boteco. Andamos quatro quarteirões, e acabou Borá.
Borá, 792 habitantes no censo de 2000, 808 estimados agora. A menor cidade do país. Na hora, bateu o desespero: fomos longe demais, isso vai além da idiotice. Que é que eu vou fazer nessa merda uma semana inteira?
Já escurecia, e o primeiro boraense a nos receber, não podia deixar de ser: o bêbado da cidade. Carlinhos mal parava em pé, mas tinha fôlego pra nos encher o saco diuturnamente. Paramos de escarná-lo quando descobrimos que desferira, anos antes, uma facada no Seu Chico, dono do boteco mais famoso de Borá.
Primeira paragem: Bar do Chico: Popular Quero-Quero – Encontro de Amigos. Genial, daqueles que não se vêem mais na pólis. Meia dúzia de pinguços no balcão, umas mesinhas pra fora e um campo de bocha ao fundo. Pedimos uma cerveja, M. uma pinga, e ficamos na miúda, pra não chamar a atenção. Não deu: logo os quatro cabeludos, como ficamos conhecidos, já éramos alvos de cochichos e olhares de soslaio.
No comando do bar estava Seu César, genro de Seu Chico, que estava hospitalizado. Senhor bonachão, em meia dúzia de minutos já nos estava afiançando pros bêbados do lugar: -tudo gente fina, tudo parente meu lá da capital. Novamente, nos indicou ao prefeito: -mora ali naquela casa.
16 de maio de 2004. Na padaria da cidade, uns comiam, outros enchiam a cara, como de costume. Tudo normal numa cidade que não presenciava um crime havia 55 anos. O filho do prefeito, Piu, estaciona sua moto, desce, atira no rosto de um cabra maconheiro que estava comendo sua esposa e vai embora. O chão, pleno de sangue e miolos, é o mesmo em que comeríamos nosso pão com manteiga nos desjejuns doravante.
-Volta daqui a meia hora. – Então daqui a uma hora a gente volta, Seu Nelson. – Eu disse meia hora.
Seu Nelson estava nos testando. 24 anos no poder (se elegia, reelegia, indicava um, elegia, reelegia e indicava outro), e 63 nas costas, era índio velho. Não ia dar abrigo pra qualquer malaco da cidade grande.
Voltamos em exata meia hora. A recompensa? A chave do centro comunitário de Borá, a maior construção da cidade. Arquibancada, palco, banheiros, cozinha, geladeira. Tudo nosso. E em pouco mais de duas horas. No primeiro dia, dormiríamos um no chão, dois na mesa, um no granito da pia. Pelo menos, não passaríamos a noite na rua.
Não tardaria a conseguirmos mais coisas. No dia seguinte, um papo com a diretora da creche nos rendeu colchonetes e uma câmera. Na quarta, travesseiros com as putinhas da cidade com que M. se enroscou. Utensílios de churrasco, cascos de cerveja, até um som, que recusamos – não leváramos discos.
Os dias seguintes foram regados a cerveja – e pinga pra M. Pinga mardita, que quase desvirginou M. Depois de alguns copos, saía a andar sem camisa pela cidade, se amigando de toda e qualquer fêmea que cruzasse sua frente. Numa dessas, cambaleando sozinho de madrugada, foi esperto o bastante pra entrar no carro duma bicha inconveniente, já conhecida do boteco. Conversa vai e vem, teve que pular do carro na entrada da rodovia, sob pena de ser sumariamente sodomizado.
No mais, a cidade era só simpatia. Todos puxavam conversa, nos ofereciam carona. O ex-prefeito, cumpadi de Seu Nelson, nos levou em sua caminhonete, abrindo caminho a facão, até umas cachoeiras. Numa dessas, conseguimos vislumbrar a natureza em estado bruto: um casal gordo e velho trepando, brochados à força pelo Seu Eliseu: -gente, veste a roupa que os menino querem ver a cachoeira…
Passamos os dias assim: boteco do Seu Chico, 71 partidas de bocha (40 a 31 pra dupla eu e G.), guerra de lama no balneário recém-construído, mulheres.
Mulheres. Causaram-nos problemas. Eu e B.D., compromissados, não queríamos papo com as deslumbradinhas que nos seguiam por Borá. Numa cidade em que todos pareciam mais velhos do que eram, G. teve a sorte de se meter com a vadia da cidade. Descobriria logo depois, com o dono da lanchonete – que já havia pisado no terreno -, a menina, gasta pela vida, a pança peluda de cerveja, somava doze anos e dois abortos.
Era só o que faltava. Em Borá, onde todo mundo é parente, pedofilia não era exatamente prioridade na nossa pauta de viagem. E ainda tínhamos dois dias por lá.
Somando-se ao nosso azar, nossa estada coincidiu com a semana do julgamento do filho do prefeito. Só se falava nisso, e quinta e sexta, partiam pra Paraguaçu ônibus plenos de depoentes, nativos que levaram sua cota de sangue e vísceras naquele soturno 16 de maio, que, sabe-se lá a ligação, desembocou num suicídio dias depois – o primeiro de Borá. Piu, o assassino, um ano e sete meses preso, foi absolvido. Estava livre de novo.
Os olhares até então complacentes transmutavam-se, as pupilas começavam a dilatar desconfiança, mas ainda plenas de cumplicidade. Eles sabiam. Até demais.
Mas a fome falava mais alto, e fomos fazer churrasco na casa de um pescador paulistano, sangue novo na cidade – um dos poucos bastardos da cidade. Prestimoso além da conta, nos preparou uma costela e um arroz no forno à lenha, apresentou a mulher, os filhos. Satisfeitos, eu e M. fomos ao Seu Chico tomar uma pinga, tudo que nossas parcas economias podiam sustentar no último dia de viagem. Acabamos nos alongando, e na volta fomos surpreendidos por G. e B.D., brancos, nos fitando assustados. –o cara veio com uns papos estranhos enquanto cês tavam fora. Waldir, o pescador, aproveitou nossa ausência – que ele tomou como ofensa – pra dissertar, algo taciturno, acerca dos costumes do pessoal da perifa de São Paulo em relação aos trutas que mancavam com eles. Nada agradável – sorte nossa, tínhamos comprado uma tubaína e dois litros de pinga pra beber juntos, o que acabou amenizando o clima.
Devoramos a costela à revelia pra nos livrarmos o quanto antes daquela casa maldita, enquanto Waldir nos encurralava com suas proezas fosse no uso de drogas (-já fiz de tudo nessa vida), fosse no manejo de armas (-vem aqui no quartinho conhecer meu arsenal). Não queríamos conhecer o quartinho, e fugimos dali sobressaltados.
Corremos de volta pro centro comunitário. Já madrugava, e a chuva tomava conta da cidade. Borá começava a ganhar contornos estranhos, lisérgicos, nada mais parecia ser o que realmente era. A chuva deformava os rostos, a cidade começava a dormir, as luzes dos quartos acesas, vultos distantes nos espreitando, observando os quatro forasteiros. Alguém gritando ao longe (“number nine, number nine, number nine…”). Nós, pretensos malandros, fingíamos nos divertir com o revertério.
A idiotice fatal: ir pro balneário. A chuva, a neblina, a madrugada vazia, de alguma maneira aquilo nos pareceu convidativo. Entramos na água gelada, e não se enxergava a mais que alguns palmos. Só os raios ao fundo eram visíveis. Trovejava, e muito. B.D. brincou: -no meio da chuva e d’água, nós somos a superfície mais alta – se um raio for cair, vai cair aqui.
E outro raio caiu. Saí correndo, branco, o coração a mil e a urgência de não estar ali naquele momento. Rezando baixinho, não fosse ateu, e a vontade de pedir desculpas pra minha mãe por ter lhe traído a boa educação que me dera. Só queria sair dali agora. Só isso. Os outros riam alto. Mais um raio caiu, e eles fugiram à minha frente. Nos abrigamos embaixo de um toldo do lado d’água.
Admiti meu terror. Ao que, despidos de nossas camisas e orgulhos, aceitamos: éramos frouxos. Urgia desaparecer daquela cidade, o mais rápido possível. Mas a cidade não iria deixar. Nós sabíamos. Até demais.
A chuva engrossara. E o escuro enegrecera. Quando demos por si, o vulto já estava ali, atrás de nós.
Aquele dia nós morremos. Não sei exatamente por que, nem como. Sei que me arrependo. Dessa vez fôramos longe, um pouco longe demais.