cenarock V – Redenção

Junho 4, 2006

Nunca gostei de poesia, por ser coisa de viado. Mas havia alguma coisa naquele cara, um dentre tantos outros zumbis que empestam a Adega de madrugada, que me chamavam à sodomia. Não sua literatura – seus versos eram uma bosta, como todo verso o é.

A fronte deformada de soco recente declamava algo sobre mulheres e bocas-de-lobo que nos engolem inteiros, metaforizando suas bucetas. Um mendigo ao canto se masturbava; sabe-se lá se, tarado, intumescera pela lascívia do poema ou, intelectualizado, pela subversão do cânone poético.

Um pouco morto, A., o pretenso poeta, obedecia ao menos à estrutura clássica da Adega: roubava-nos vinho em troca da atenção dispensada. Uma dose – o preço invariável da dignidade de quem quer que se encontrasse a essas horas no boteco. Por um mísero copo de vinho – ou conhaque, pros mais exigentes –, já forçara um mendigo a entoar seu samba, outro a relembrar sua tragédia.

Já compartilhara meu vinho com toda espécie de mendigos, e quantos não se furtaram a me flertar. Nem por isso lhes tive vontade de comer o cu.

S., meu sempre altivo guru, lembrava-me que, por trás de nosso complexo reto-intestinal, encontra-se o eu mais íntimo do poeta. À parte as imprecisões históricas, S. me atentara a uma cultura – falha-me o nome – particularmente sábia, em que, descoberto ainda impúbere o talento do poeta da comunidade, punham-se seus moradores em círculo, o bastardo ao meio; no primeiro dia da primavera, arriavam as tangas e, paus em punho, sodomizavam-no até o raiar do sol do dia seguinte. Acreditavam com isso compartilhar do poeta sua destreza literária.

Em verdade, não foi a parábola de S. minha motivação – apenas quis fazê-la poética. Nutro repúdio sobre-humano pela necessidade dessa espécie nojenta de se forçar à lamúria aviadada na crença de tornar suas palavras bonitas. Minha intenção era das melhores: acha romântico sofrer, então vai sofrer. Deitei A. no chão e fiz-me ele. Enrabei-o até cutucar o último alexandrino. “Dizem-me do poeta/Transcendente, algo asceta/Digo-lhe apenas, sua bicha/Trova agora de pern’aberta”.

Baixara o poeta em mim. Meus pensamentos escandidos em versos e os versos em estrofes, não senti nada transcendente – mui pelo contrário. Senti-me apenas um tanto afrescalhado, desejoso de liberar a bunda.

Então era isso habitar a mente de um poeta? Vontade de dar? Puta que o pariu, pensei, e voltei-me a A. para dar um fim a tão torpe alma. Não foi preciso. Trouxera na glande seu impulso vital, no que o largara desavivado.

E lembrei-me de vezes em que S. empunhava o violão e, sem saber, punha-me a dormir ébrio, entoando uma velha canção – Grateful Dead, talvez – que falava assim: “Once dead the poet/ Ressurects the prophet/ Of a world of new”. E cantarolando-a suave, uma terça abaixo – minha parte na harmonia –, parecia-me ter enfim feito jus à sabedoria de meu amigo S., tantas vezes desonrada.

Desvencilhei-me de A.. Morto, e morta com ele minha inspiração, veio-me a luz. Enfim, A. morto, e morta com ele a poesia, findara minha missão.

Em anos e mais anos de cenarock, nunca me fora muito claro a que e a quem servia. Sabia apenas que algo urgia ser feito, e que urgia a mim fazê-lo. Num mundo apoético, agora viveriam todos prosas, desobrigados de sofrer pela inspiração dos poetas.

Lavadas as mãos, quebrei a garrafa vazia de vinho e, o bocal despedaçado, capei-me. Artífice de minhas recentes empreitadas, senti que devia ao membro decepado o merecido tributo. Guardei-o num pote vazio e descansei-o de volta à Adega, em meio aos ovos azuis e às salsichas em conserva.

Saí dali e pus-me à rua. Desci ladeira abaixo, desviando das sarjetas plenas de mendigos não-poetas. Desapareci na esquina seguinte, e nunca mais me encontrei.


cenarock IV – Catalepsia

Junho 4, 2006

“Cadê o desgraçado?!”, e um grito aquietado, empostado pelo sangue que obstruía a garganta, tudo antecipado pelo barulho do tiro.

Naquela fração atemporal, imensurável, em que os sonhos nos trazem de volta à realidade, aquela fração que sempre fora o único tesão dos meus dias vazios, naquele momento infindavelmente curto, atribuí aquele pandemônio de gritos e tiros a uma das recorrentes colagens amelódicas que se sobrepunham aos acordes mentais da obra que eu insistentemente compunha, noite após noite, durante meus sonhos, sem nunca colocá-la no papel.

Estendi meu braço para alcançar um cigarro e levantar, no que meu corpo se fez contrariado. Encontrei-me preso à semi-consciência daquele estado todo-sabedor e nada vivo. Imagens se formavam na minha mente, sem que eu pudesse dar aos olhos a chance de atestá-las reais.

E não poderia ser melhor. Este corpo material nunca me fora lá muito útil, e aquele quarto de pensão insalubremente minúsculo que enxergava além das pálpebras cerradas, aquela vida indigna contrastava enegrecida com a vívida idéia de abandoná-lo.

Sempre fundamentara meus atos na certeza de minha superioridade e da incompreensão que me dispensaram a vida inteira. Minhas raras saídas à rua eram invariavelmente acompanhadas da postura altiva e de palavras nunca desperdiçadas com a baixeza dos que me fitavam. Enchia a cara pra dar o merecido repouso a uma cabeça suficientemente congestionada, e deixar o álcool à vontade pra estimular a raiva indiscriminada e incondicional reger meus pensamentos incompreendidos, até porque nunca externados.

Essa incompreensão e a mais absoluta indisposição em me fazer compreender me trouxeram a esta pensão tosca e impessoal. Em verdade, nunca conheci o dono, tampouco alguém que morasse por aqui – não sei se de fato mora alguém neste lugar, e sinceramente não quero saber. Aqui tenho o sossego necessário para me dedicar integralmente a minha nobre tarefa de ser melhor que o resto. E sigo assim, encarando a parede nua durante os dias, esperando a chegada do sono para retomar minha obra onírica inacabada.

Soa-me irrepreensível a possibilidade de enfim me poder entregar a minha obra-prima sem o inconveniente de interrompê-la ao despertar do corpo – pra mim, este o verdadeiro sono das idéias. Liberdade irrestrita de composição, que artista nunca sonhou com isso? Posso agora elaborar a seção de metais, tantas vezes protelada pelo gralhar dos fiéis que ressoam os apelos desafinados do pastor da Igreja Universal do outro lado da rua; ou, quem sabe, completar ainda nesta semana o solo de oboé que me atravanca o interlúdio desde que uns imbecis decidiram que o melhor ponto para estacionar o carro e ouvir suas músicas é atrás do meu quarto.

E largo-me à diversão de olhar as coisas ao meu redor. Parecem mais bonitas assim, com os olhos fechados – imprimo a elas os tons que lhes foram negadas pela crueza do mundo sensível. Reconfortado, sei que, nesse mundo que desenho, minha obra encontraria a devida apreciação.

Já ouvira falar desse estado em que me encontro. O estado mais desesperador da existência, foi como me descreveram certa feita. Idiotas os que se deixam desesperar ante tão bela idéia. E que se deixam prender, e gozar um mundo alheio.

Nisso, rompe o quarto a voz que me despertara a incompleição, descontinuamente seguida de seu corpo disforme. Era S., meu bom, único amigo. Ou era – tinha-o por morto já havia algum tempo; pelas minhas mãos, por sinal. E não o lembrava assim, tão mais baixo e gordo que o era em vida.

Era eu o desgraçado que ele procurava. A arma em punho; logo ele, tão avesso a essas coisas. Abracei-o – evidentemente, não sentiu nada. Educadamente, pedi licença – precisava me voltar à composição. Lógico, não fui ouvido.

Apontou-me a arma, no que soube que ele não teria coragem de prosseguir. Permaneci estático, em verdade minha única alternativa. Encarou-me insistentemente, e se deixou prostar.

S. era um grande amigo, um ótimo caráter, e desfrutava duma grande idiossincrasia: reconhecia minha genialidade. Mas sempre fora um bunda-mole. Nunca atiraria em ninguém. Mesmo eu o tendo matado antes – no fundo, ele sabia que era a única coisa a ser feita.

Agora o via ao meu lado, ajoelhado à altura da cama, perguntando por quê?, por quê?, e não o responderia, mesmo que lhe me facultasse responder.

Começou a chorar, o que me irritou sobremodo. Nunca foi dado a essas bichices, a postura sempre espartana. Pudesse falar, o mandaria apenas pôr-se de pé – faça-se homem e honre este pau que Deus lhe deu.

Mas permaneci calado, ao menos aos olhos dele. Desviei meus pensamentos de sua presença e retomei a elaboração de minha obra. Um contracanto aqui, uma quebra de tempo ali. E seus prantos abichalados fogem ao tom, e me tiram a concentração de novo.

Sua presença começa a incomodar e o mataria novamente, se pudesse.

Pega a arma de novo, como me intimidasse. Ouço o estampido e seu corpo tomba, desfalecido.

Enfim, paz. Tenho todo o tempo do mundo agora. Reorganizo partituras mentais e vislumbro um fim próximo para minha obra. Com a maior vantagem de todas: nunca precisarei submetê-la ao aval da crítica. Cretinos, nunca a entenderiam.

E prossigo, adicionando nuances, depurando timbres, avolumando harmonias, reescrevendo o que nunca tive sossego pra reescrever.

Mas, maldição, sobrevêm-me dissonâncias. Desta feita, parecem vir de dentro. Vermes escrotos, corroendo minhas entranhas e melodias. O coração, até então obedecendo ao compasso, parece querer fugir do andamento. Minha respiração não mais pontuando os acentos.

Nunca terei tranqüilidade? Agora meu próprio corpo, se vingando de anos de maus-tratos, conspira contra minha obra. Ingrato. Não dedicarei ao verme que primeiro roeu minha carne legado algum; o levarei comigo.

Acredito que morri muito antes do meu corpo sucumbir. Em verdade, tenho pra mim que só passei a viver quando meu corpo não mais acordou, naquela manhã de gritos e tiros. Não posso nem mesmo lhes dizer se moro nessa pensão em que ninguém vive, se S. entrou aqui, se repousa agora a meu lado. Se S. sequer existiu. Prefiro pensar que sonhei a vida inteira com um mundo de pensões, bares e S., depois acordando para retomar minha tão estimada obra. Que essa vida inútil não passou de um longo pesadelo.

Não posso abrir os olhos e distinguir a realidade. E sinto-me mais confortável posto na ignorância.

Ninguém se dará pela minha falta. Ninguém iria ao meu enterro. E eu não sentirei falta das pessoas que não conheci. Nunca conhecerão minha obra, e não gostariam de conhecer. Saio do mundo físico quites. Nada fiz por ele, e dele não levarei nada.

S. costumava dizer que a gente nunca morre. Apenas transitamos pelo universo à procura de um sentido que não mora nas coisas materiais. Mas minha obra-prima transcende essas coisas mundanas, e há de encontrar guarida em alguém que a complete melhor do que eu fui capaz de fazê-lo em vida. E um dia, talvez a muito tempo de agora, a contemplarei sozinho, executada em algum teatro vazio, esteja eu habitando o corpo de quem estiver.


cenarock III – Purgatório

Junho 4, 2006

“Dormir aquele dia foi como não acordar mais. Aquelas últimas horas, mais do que uma eternidade, me foram um purgatório. Não é inferno, que dois pais nossos e cem reais redimem. É repousar na mediocridade. Meu fardo, o fado da impotência” – eu mesmo, em um manuscrito de guardanapo

Acordar sem o ombro sobre o qual me havia apoiado pra dormir seria kafkiano, não fosse pedante citar Kafka. Em verdade, era só estranho – dormira semi-consciente na grama rala daquela praça fétida, pra acordar sozinho, no banco de trás dum carro vazio, o dia claro.

O bafo de cerveja revolvia à boca à medida que encontrava meus companheiros da noite passada, deitados na praça, uns sobre o mijo, outros ao lado do próprio vômito.

Haviam abandonado o carro no meio da madrugada, um a um, a bile urgindo à boca.

S. tremia as mãos à fronte pálida, incapaz de pronunciar as poucas sílabas que não expelira junto com o suco gástrico.

B.D., um litro de conhaque aprisionado no fígado, surgia no horizonte marcando seu caminho de volta, jorros contínuos sublinhando o andamento, o passo pontuado pelo vômito rarefeito das tripas capituladas.

G., o ombro sobre o qual me fiz dormir, encontrei encolhido, os braços esmagados entre as pernas, coberto dos pés à boca por um trapo estendido sobre seu corpo por algum mendigo consternado.

Os três, imersos na própria desgraça, me encaravam temerosos, desviando o olhar pra então se entreolharem cúmplices. Meus ditos amigos – bêbados malditos, ciosos da lucidez de que se deixaram despir ao primeiro gole de cerveja.

Não tive vontade de entender a razão do medo dirigido a mim – logo eles, desgraçados; nunca se furtaram a me fitar insensíveis, incontáveis noites desmaiado a seus pés.

Deixei-os, os ingratos, e voltei ao lugar em que havia recobrado a consciência. A lateral amassada me era familiar, mas só isso. De resto, sabe-se lá que carro era aquele e como fora eu terminar lá.

Recebeu-me à porta o mesmo Dorival Caymmi que me embalara o sono – em vez de estimulá-lo, como sempre o fez.

Nada havia lá dentro que me trouxesse à mente as horas anteriores. Saí pela outra porta e percebi um amasso de proporções desanimadoras. Este sim não me era familiar.

Ou melhor, era: nos acidentáramos na noite anterior. A lembrança não era lá muito fidedigna, mas a dor que me acometia a perna serviu de muleta à idéia.

De fato, tínhamos batido. A memória clareava. Algum idiota quebrara uma garrafa de cerveja e metera o bocal estilhaçado na cabeça de um traveco desavergonhado, que nos tomou pelo cretino e veio atrás, amaldiçoando.

Daí a um de seus colegas vadios atravessar a frente do nosso carro e parar debaixo do chassi, não tomou muito tempo.

Do outro lado da rua em que o carro se encontrava, o bar. Este me era mais do que familiar. Lá nos estabelecêramos no dia anterior, do começo da tarde até, bem… até então, aparentemente.

Estranho apenas que o bar estivesse fechado. Por mais que o dia amanhecesse, o local se propunha 24 horas, e, em verdade, jamais o tinha conhecido as portas, sempre abertas. Tinha pra mim que sequer havia portas.

Recomposta a memória, bom saber que não tinha matado nem estuprado ninguém, tampouco perpetrado trotes telefônicos inconseqüentes.

Pude me voltar novamente aos três bêbados da praça, a postura altiva de quem encheu a cara e nem por isso fez merda ou foi parar na sarjeta.

S. eventualmente ergueu a face abatida. Sua expressão vazia me inquietou, incitou-me à recordação. Havia nos censurado na madrugada anterior, G. e eu: –Aonde cês foram?. De fato, não sabia dizer onde estivéramos. Sei, pelo que nos foi dito, que nos ausentáramos da roda em algum momento.

Mas agora ele só me encarava, se é que encarava, ou se seu olhar buscava algo além de mim. Evadi-me de seus olhos, estes sim de ressaca, e me pus à rua à procura da última das lembranças do dia anterior. Grande coisa não deveria ser – mero passeio ébrio, tão comum à noite.

Um senhor, ou senhora – sabe-se pouco das pessoas essas horas da manhã – atentou um momento às minhas costas. Desferiu um resmungo e prosseguiu seu caminho à feira, ou à igreja. Normalmente, eu não confiaria em ninguém nas primeiras horas de uma quarta-feira, mas, na falta de confiança própria, tinha que creditá-la a alguém. Virei o pescoço, pra me deparar com minha blusa favorita em retalhos, tingida de barro e sangue.

Despi-me – a rua estava deserta – e olhei peça por peça. Na calça e na cueca, as mesmas marcas de barro e sangue. Pus-me a cheirá-las, quando me acometeu o desespero.

Aquele sangue não era meu. Sempre me arroguei, o ar superior, do meu O positivo tão carinhosa e arduamente engendrado pela combinação gamética de que meus pais me fizeram homem. E o cheiro que se desprendia da blusa era, sem sombra de dúvida, de tipagem negativa – sangue de gente inferior, tantas vezes já enojara seu odor em minhas mãos.

Em meio ao desremendo que se tornara minha blusa, embaixo do barro e do sangue, um “me coma” maiúsculo, afoitamente dependurado por um trecho mínimo de fita crepe, escrito no verso da ficha que enumerava as incontáveis cervejas responsáveis pelo abismo moral dos três moribundos da praça. Ao lado deste, um pedaço de papel higiênico emoldurava um “sua bicha” tão gritante e criativo quanto.

Colar recados às minhas costas – estúpido sim, mas relativamente insólito, vindo de três imbecis tão dados à circunspecção própria aos velhos. Quem os diria agora, fetos encolhidos na praça, mijados e vomitados. Esbocei um sorriso, no que meu rosto não acompanhou.

As roupas caíram das minhas mãos no que corri rua abaixo. Ao me aproximar da esquina, saltou-me à memória a imagem de contorná-la à noite, acompanhado de G. Não me recordava o porquê de ter contornado a esquina, e tampouco se a contornei de volta à praça, mas o traçado mental da noite anterior se fechava aí. Um certo alívio me percorreu as entranhas, a sensação de reintegrar a própria história, como o filho que só agora conhece o pai.

Continuei correndo. Detive-me abrupto ante uma poça na calçada que seguia sua retirada rumo ao esgoto. Naquele sulco do chão confluíam a chuva que se iniciava insegura e o mijo transparente de bêbados pregressos que escorria pelo muro. Atirei-me ao solo e confiei o nariz àquela gosma. Empalideci. Aquele odor… o mesmo. O mesmo cheiro que sentira na minha blusa.

Imiscíveis ao sangue, algumas gotas brancas vagavam pela poça. Ajuntei-as na mão e levei-as às narinas. A lembrança de sabão de coco, inofensiva, não resistiu ao que aquele creme grudento era de fato. Porra, pensei, aquilo era sêmen. O meu. Minha própria porra no meio daquele sangue de gente vil.

Prostrado, deixei-me cair. Por alguns minutos, ou horas, permaneci deitado naquela poça. Pelado, a chuva me lambuzava e impregnava no meu corpo a lembrança do que quer que tenha se passado lá no dia anterior.

Fiz-me homem, levantei do chão e voltei à praça. O passo se apressava à medida que a certeza se assumia irreversível.

Encontrei os três dispostos da maneira que os deixara. Impassíveis, não me levantaram a face.

Ajuntei um pau do chão e matei um a um. Minha Mãe sempre disse que só cabe a Deus julgar o que fazemos em vida. Mas eu amava aqueles desgraçados, e só eu sei o quanto eles não se fizeram resistentes. No fundo, sabiam que aquela era a única coisa a ser feita.

Abracei os três como nunca tivera o ímpeto quando ainda vivos, e pude enfim descansar, em meio à urina e à suficiência.


cenarock II – O Fim

Junho 4, 2006

Os seis últimos parágrafos do texto devem ser lidos ao som de Revolution 9 (White Album – 68), a grã-porcaria dos Beatles.
O último parágrafo deve ser lido ao som de Good Night, a faixa seguinte.
O autor do texto não se responsabiliza por interpretações errôneas e leituras tediosas, no caso de desobediência ao guia de leitura.

A idéia era fazer uma idiotice maior ainda. O plano original, caminhar de Londrina a Maringá a pé (já cruzáramos Londrina norte-sul meses antes), tinha sido inviabilizado graças às seqüelas de um pé quebrado descendo um coqueiro, esta uma idiotice não planejada. No nosso emérito QG, uma mesa grudenta da Adega, ao lado do banheiro (esperando os fluxos de odor do banheiro para atingir a inspiração transcendental), veio súbito a iluminação: Borá.

Da Cena Rock original, só eu (posta a genial participação de F., que não pôde ir: “Borá? Bora!”). A única condição, não maturar a idéia parida um mês antes da viagem. Íamos pra Borá e pronto. Estávamos terminantemente proibidos de manter qualquer comunicação com a cidade, nem de procurar lugar pra dormir por lá. Tudo na cega.

Acordei segunda às nove, passagem marcada pras 11:40. Reunidos em casa, arrumamos a mochila (uma calça, duas bermudas, tênis, chinelas, seis ou sete camisetas, umas oito cuecas e uns cento e cinqüenta pilas – o essencial) e cooptamos, às 10:30, um último integrante: M. Agora éramos eu, B.D., G. (outro G.) e M. Optamos pelo ônibus às 14:30, pra M. ter tempo de se despedir de seus pais.

166 quilômetros e 2h30min depois, chegamos em Paraguaçu Paulista, a metrópole (uns 40 mil habitantes) de Borá. Tarde demais – perdêramos o último ônibus do dia pra Borá. A fim de não esquentar a cabeça, espalhamos a palavra pros nativos e fomos tomar uma no boteco da rodoviária. Foi servir os copos pra chegar um senhor e ofecerer uma carona em sua Kombi. Fechou por dez reais, pelo combustível. Viramos os copos e fomos. No caminho, nos contou das virtudes de Borá e nos indicou procurar de cara o prefeito da cidade, Seu Nelson. Respeitosos à hierarquia, ressabiamo-nos.

-Pronto, é isso aqui, Borá. E nos largou na entrada da cidade. A primeira edificação da cidade, naturalmente um boteco. Andamos quatro quarteirões, e acabou Borá.

Borá, 792 habitantes no censo de 2000, 808 estimados agora. A menor cidade do país. Na hora, bateu o desespero: fomos longe demais, isso vai além da idiotice. Que é que eu vou fazer nessa merda uma semana inteira?

Já escurecia, e o primeiro boraense a nos receber, não podia deixar de ser: o bêbado da cidade. Carlinhos mal parava em pé, mas tinha fôlego pra nos encher o saco diuturnamente. Paramos de escarná-lo quando descobrimos que desferira, anos antes, uma facada no Seu Chico, dono do boteco mais famoso de Borá.

Primeira paragem: Bar do Chico: Popular Quero-Quero – Encontro de Amigos. Genial, daqueles que não se vêem mais na pólis. Meia dúzia de pinguços no balcão, umas mesinhas pra fora e um campo de bocha ao fundo. Pedimos uma cerveja, M. uma pinga, e ficamos na miúda, pra não chamar a atenção. Não deu: logo os quatro cabeludos, como ficamos conhecidos, já éramos alvos de cochichos e olhares de soslaio.

No comando do bar estava Seu César, genro de Seu Chico, que estava hospitalizado. Senhor bonachão, em meia dúzia de minutos já nos estava afiançando pros bêbados do lugar: -tudo gente fina, tudo parente meu lá da capital. Novamente, nos indicou ao prefeito: -mora ali naquela casa.

16 de maio de 2004. Na padaria da cidade, uns comiam, outros enchiam a cara, como de costume. Tudo normal numa cidade que não presenciava um crime havia 55 anos. O filho do prefeito, Piu, estaciona sua moto, desce, atira no rosto de um cabra maconheiro que estava comendo sua esposa e vai embora. O chão, pleno de sangue e miolos, é o mesmo em que comeríamos nosso pão com manteiga nos desjejuns doravante.

-Volta daqui a meia hora. – Então daqui a uma hora a gente volta, Seu Nelson. – Eu disse meia hora.

Seu Nelson estava nos testando. 24 anos no poder (se elegia, reelegia, indicava um, elegia, reelegia e indicava outro), e 63 nas costas, era índio velho. Não ia dar abrigo pra qualquer malaco da cidade grande.

Voltamos em exata meia hora. A recompensa? A chave do centro comunitário de Borá, a maior construção da cidade. Arquibancada, palco, banheiros, cozinha, geladeira. Tudo nosso. E em pouco mais de duas horas. No primeiro dia, dormiríamos um no chão, dois na mesa, um no granito da pia. Pelo menos, não passaríamos a noite na rua.

Não tardaria a conseguirmos mais coisas. No dia seguinte, um papo com a diretora da creche nos rendeu colchonetes e uma câmera. Na quarta, travesseiros com as putinhas da cidade com que M. se enroscou. Utensílios de churrasco, cascos de cerveja, até um som, que recusamos – não leváramos discos.

Os dias seguintes foram regados a cerveja – e pinga pra M. Pinga mardita, que quase desvirginou M. Depois de alguns copos, saía a andar sem camisa pela cidade, se amigando de toda e qualquer fêmea que cruzasse sua frente. Numa dessas, cambaleando sozinho de madrugada, foi esperto o bastante pra entrar no carro duma bicha inconveniente, já conhecida do boteco. Conversa vai e vem, teve que pular do carro na entrada da rodovia, sob pena de ser sumariamente sodomizado.

No mais, a cidade era só simpatia. Todos puxavam conversa, nos ofereciam carona. O ex-prefeito, cumpadi de Seu Nelson, nos levou em sua caminhonete, abrindo caminho a facão, até umas cachoeiras. Numa dessas, conseguimos vislumbrar a natureza em estado bruto: um casal gordo e velho trepando, brochados à força pelo Seu Eliseu: -gente, veste a roupa que os menino querem ver a cachoeira…

Passamos os dias assim: boteco do Seu Chico, 71 partidas de bocha (40 a 31 pra dupla eu e G.), guerra de lama no balneário recém-construído, mulheres.

Mulheres. Causaram-nos problemas. Eu e B.D., compromissados, não queríamos papo com as deslumbradinhas que nos seguiam por Borá. Numa cidade em que todos pareciam mais velhos do que eram, G. teve a sorte de se meter com a vadia da cidade. Descobriria logo depois, com o dono da lanchonete – que já havia pisado no terreno -, a menina, gasta pela vida, a pança peluda de cerveja, somava doze anos e dois abortos.

Era só o que faltava. Em Borá, onde todo mundo é parente, pedofilia não era exatamente prioridade na nossa pauta de viagem. E ainda tínhamos dois dias por lá.

Somando-se ao nosso azar, nossa estada coincidiu com a semana do julgamento do filho do prefeito. Só se falava nisso, e quinta e sexta, partiam pra Paraguaçu ônibus plenos de depoentes, nativos que levaram sua cota de sangue e vísceras naquele soturno 16 de maio, que, sabe-se lá a ligação, desembocou num suicídio dias depois – o primeiro de Borá. Piu, o assassino, um ano e sete meses preso, foi absolvido. Estava livre de novo.

Os olhares até então complacentes transmutavam-se, as pupilas começavam a dilatar desconfiança, mas ainda plenas de cumplicidade. Eles sabiam. Até demais.

Mas a fome falava mais alto, e fomos fazer churrasco na casa de um pescador paulistano, sangue novo na cidade – um dos poucos bastardos da cidade. Prestimoso além da conta, nos preparou uma costela e um arroz no forno à lenha, apresentou a mulher, os filhos. Satisfeitos, eu e M. fomos ao Seu Chico tomar uma pinga, tudo que nossas parcas economias podiam sustentar no último dia de viagem. Acabamos nos alongando, e na volta fomos surpreendidos por G. e B.D., brancos, nos fitando assustados. –o cara veio com uns papos estranhos enquanto cês tavam fora. Waldir, o pescador, aproveitou nossa ausência – que ele tomou como ofensa – pra dissertar, algo taciturno, acerca dos costumes do pessoal da perifa de São Paulo em relação aos trutas que mancavam com eles. Nada agradável – sorte nossa, tínhamos comprado uma tubaína e dois litros de pinga pra beber juntos, o que acabou amenizando o clima.

Devoramos a costela à revelia pra nos livrarmos o quanto antes daquela casa maldita, enquanto Waldir nos encurralava com suas proezas fosse no uso de drogas (-já fiz de tudo nessa vida), fosse no manejo de armas (-vem aqui no quartinho conhecer meu arsenal). Não queríamos conhecer o quartinho, e fugimos dali sobressaltados.

Corremos de volta pro centro comunitário. Já madrugava, e a chuva tomava conta da cidade. Borá começava a ganhar contornos estranhos, lisérgicos, nada mais parecia ser o que realmente era. A chuva deformava os rostos, a cidade começava a dormir, as luzes dos quartos acesas, vultos distantes nos espreitando, observando os quatro forasteiros. Alguém gritando ao longe (“number nine, number nine, number nine…”). Nós, pretensos malandros, fingíamos nos divertir com o revertério.

A idiotice fatal: ir pro balneário. A chuva, a neblina, a madrugada vazia, de alguma maneira aquilo nos pareceu convidativo. Entramos na água gelada, e não se enxergava a mais que alguns palmos. Só os raios ao fundo eram visíveis. Trovejava, e muito. B.D. brincou: -no meio da chuva e d’água, nós somos a superfície mais alta – se um raio for cair, vai cair aqui.

E outro raio caiu. Saí correndo, branco, o coração a mil e a urgência de não estar ali naquele momento. Rezando baixinho, não fosse ateu, e a vontade de pedir desculpas pra minha mãe por ter lhe traído a boa educação que me dera. Só queria sair dali agora. Só isso. Os outros riam alto. Mais um raio caiu, e eles fugiram à minha frente. Nos abrigamos embaixo de um toldo do lado d’água.

Admiti meu terror. Ao que, despidos de nossas camisas e orgulhos, aceitamos: éramos frouxos. Urgia desaparecer daquela cidade, o mais rápido possível. Mas a cidade não iria deixar. Nós sabíamos. Até demais.

A chuva engrossara. E o escuro enegrecera. Quando demos por si, o vulto já estava ali, atrás de nós.

Aquele dia nós morremos. Não sei exatamente por que, nem como. Sei que me arrependo. Dessa vez fôramos longe, um pouco longe demais.


Morte e Vida de uma cenarock

Junho 4, 2006

(páá), e com o barulho do tijolo acertando a porta do Banco B., começava a Cena Rock.

6:30 da manhã, C. ajuntou uma pedra duma caçamba da Higienópolis, mirou no coração da ameaça capitalista e disparou. Como tudo que fez nos seus 27 anos, fez errado. Direto no meio do pilar, entre os vidros. Não contente, sacou um tijolo e, desta feita, bem no meio da porta. Virou pra trás, os olhos enquadrados pelos óculos de aro grosso – o rosto sujo emoldurado pelo cabelo desgrenhado – “vaza, vaza!!” e correu à próxima esquina mais rápido que três acordes do Ramones.

Nós, ebriamente atônitos, não conseguíamos parar de rir ante o espetáculo conjuntamente presenciado pelo aterrorizado segurança do banco e os incautos que esperavam o ônibus para trabalhar no Sete de Setembro. Sobriamente gratos eles, que certamente tiveram o dia feito depois daquele terrorismo aparentemente gratuito. Na pior das hipóteses, uma história pra contar pros colegas de labuta, e de brinde aquela sensação de vingança contra os donos da grana.

Já disse, começava ali a cenarock. Tudo tinha sido meticulosamente engendrado alguns minutos antes do ataque. Empanturrados de churrasco e cerveja a madrugada além, um súbito niilismo acometeu todos ali. Não acontece porra nenhuma nessa cidade, consensualizamos. Cadê a tão falada cena rock? O dia ainda amanhecendo, e toda aquela molecada de bonezinho pro lado e brinco na boca tinha se despido da indumentária ideológica, dado boa-noite pra mãe e dormido já há algumas horas. As ruas, em pleno centro, abandonadas – nenhum bar aberto. Rumamos à casa de C., que a essa altura, já tinha trocado de camisa a fim de não ser enjaulado pela travessura pregressa. -Ninguém vai me dedurar?!, agora já paranóico, mas não arrependido. -Minha mãe trabalha praqueles desgraçados, e não tem reajuste há cinco anos…

A idéia era subir na casa dele e ouvir um vinil raro (Richard Hell & the Voidoids – Blank Generation – 1977), com o som baixo pra não acordar a mãe que dormia ao lado. E tentar esquecer, por dez músicas, que vivia numa cidade moribunda, sem lugar pra sua banda tocar nem pra tomar uma cerveja às sete da manhã dum feriado. Mesmo problema de F., que, dia desses, tentou tocar de graça no Valentino, mas foi obrigado a cobrar três reais. De graça não pode – vai saber. Dizem por aí que o Valentino agora é do cidadão honorário Galvão Bueno. E até onde se sabe, o Galvão nunca foi muito do rock. Mas tudo bem, acho que já deu o tempo de fechar. Rock é coisa de moleque, e o Valentino já tem idade pra ser pai de quase todo mundo que ainda se presta a ir pra lá. Sem contar a cerveja a três reais, soma que roqueiro nenhum consegue bancar. Além disso, o lugar virou carne de vaca. De terça-feira, me lembra o recreio nos idos tempos de fundamental. Todo mundo uniformizado (pensando bem, até meus amigos infantes de quarta-série eram punks perto desse pessoal – lá, burlar o uniforme era sinal de coragem, ia todo mundo pra direção), o pátio do bar claustrofobicamente lotado, e uma musiquinha moderna lá no fundo, só pra existir um motivo pra se estar lá.

Do outro lado da cidade, os punks vão pro Potiguá. Mais de dez anos nas costas, sobrevive como o último legítimo bar punk da cidade. Já mudou de lugar três vezes, abrigou diversas correntes -conflitantes ou não-, foi tema de tese de mestrado, enfim, uma longa e tumultuada história. Principalmente nos últimos tempos, com mais algumas dissensões seguidas de brigas e do subseqüente ostracismo, que não deve durar muito. Como todo bom bar, tem sua figura – Kreator -, diuturnamente batendo ponto no mesmo banco do lado do balcão, e seu dono – Donizete, ou Seu Potiguá -, um corintiano inflamando que às vezes se põe a cantar as musiquinhas mal gravadas que o pessoal leva em fitinhas cassete pra tocar lá. Às vezes, eu olho pra ele, do alto de sua placidez anciã e de camisa aberta no peito, e penso que até hoje não entende por que raios esse pessoal sujo e barulhento resolveu adotar o seu boteco. Só sei que ele gosta da idéia. Gente fina o Seu Potiguá.

Ao contrário do Seu Zé. Seu Zé, ou Seu Paschoeto, como o cognominamos – seu vinho caseiro atende por esse nome -, não tem saco pra punk, e manda todo mundo embora quando chega a hora de dormir. Não coloca fitinha pra gente ouvir, e não quer saber de briga no bar. E é por isso que a gente gosta do Seu Zé. Seu Zé é dono da Adega União, um dos bares mais antigos da cidade. Fundado em 58 por ele mesmo, também mudou algumas vezes de lugar, e continua famoso por guardar, como diz um amigo meu, um gostinho do charme da periferia no centro da cidade. Uma noite lá rende, invariavelmente, acidentes de carro, ameaças de morte, assédios homossexuais vindos de mendigos inconvenientes, bêbados altifalantes, gente vomitando ao seu lado, e o melhor de tudo: o indefectível odor do banheiro masculino, que vêm em fluxos sazonais e regulares em direção à mesa, imiscuindo-se ao aroma do vinho, previamente manuseado pelas mãos de Seu Paschoeto, que, reza a lenda, nunca teriam sido lavadas nesses quarenta e sete anos, assim como o banheiro masculino.

Mas a Adega fecha cedo – o horário varia de acordo com o humor do Seu Paschoeto, que expulsa a todos ora se aproximando com um pedaço de ferro na mão ou pondo seu filho a distribuir tapas na nuca dos recalcitrantes.

Aí sobem todos, a quilômetros dali, para o Águas & Cia. O Águas, originalmente uma distribuidora de água mineral aberta 24 horas, descobriu que, se pusesse algumas cadeiras ali fora, alguns bêbedos perdidos acabariam por sentar e pedir uma cerveja, todas abaixo de dois reais – um achado. Assim como o Potiguá e a Adega, fica longe do centro da cidade e dos olhos reprovadores do pessoal mais aprumado. Forma-se um universo à parte, em que todos podem se despir das rédeas civilizatórias e liberar seus instintos mais escusos. O que sempre acaba ensejando uma ótima noite para nós, observadores neutros.

Mas naquele Sete de Setembro nós não queríamos ser observadores neutros. Afinal, se ninguém faz o rock pra gente, nós mesmos temos que fazê-lo. Porque esse é o princípio do rock, não é? Com o Valentino, a Adega, o Potiguá, o Águas fechados, tínhamos de achar um lugar pra epilogar a noite. Impossibilitados de ouvir o vinil raro de C. em sua casa, descemos ao posto de gasolina algumas quadras dali. Compramos umas latinhas e fomos beber na área social do posto. Frente ao veto do caixa do posto, desfiamos alguns xingamentos e resmungos ao estabelecimento, e fomos beber do outro lado da rua. Sentados na bancada da Sercomtel, gritamos algumas palavras de ordem até vislumbramos uma placa de “Pão quentinho toda hora”. Voltamos ao posto e pedimos um pão quentinho. Ante a negativa da atendente, questionamos a legitimidade da placa. Sem sucesso algum, destilamos mais algumas verdades sobre o fracasso da sociedade moderna, que vende um pão quentinho que na verdade não existe, e resolvemos dar por finda a noite (manhã). No caminho, F., que permanecera calado o tempo todo, fez de seu silêncio sabedoria. -Fi, acabô a cena rock… Virou o boné pro lado e, adotando gestual característico: -Agora é a cena hip-hop.

Pus-me, de luto, a lamentar nossa mais recente perda. Não sem que fosse interrompido pelo surto psicótico de C.. Despedindo-se de G., que nem havia entrado na história, começou a rasgar a camisa do amigo gola abaixo. Teve a sua rasgada também. Ambos semi-desnudos, foram cada um prum lado, as panças de cerveja à mostra. Catei do chão o bolso da camisa de C., e voltei pra casa, oito e pouco da manhã, com a certeza que a cenarock estava ali, o corpo estendido na esquina, junto com o que sobrara da camisa do Sex Pistols. Logrou menos de duas horas de vida. Mas tudo bem, a discografia dos Pistols durou um terço disso.