O segredo da vida é o timing. É saber não o que fazer, mas quando fazer, quando começar, e, acima de tudo, quando parar.
Por maior o instinto de esgotamento das alternativas, há de se ter aquele impulso de largar tudo enquanto ainda está por cima; sob pena, não o fazendo à hora, da graça perdida, da decepção, eventualmente da degradação ou da morte.
Saber é uma coisa. Saber, eu sei – o que nunca me abonou de incorrer na cagada. Minha vida foi uma história cíclica de auges e decadências. Sistemático que sempre fui, não passou um casal de anos escolares sem que a série de engraçadão da sala antecipasse a de vexatório ostracismo.
E era chegar todo fim de ano pra me distanciar brigado dos camaradas dos quais já havia enchido a paciência nos meses pregressos.
Comprava discos até me endividar, pra daí adimplir as dívidas vendendo os mesmos discos por um quarto do preço. Fui sumariamente expulso da Morada do Sol por desviar-me dos olhares das mães já cansadas da minha convivência diuturna com seu filhos de metade da minha idade.
Bebia até contemplar tudo que bebera, acrescido do almoço do dia, à frente das pernas abertas. Passei todos os minutos em que estive acordado ao lado da mulher que me aturou até o momento que não me aturou mais ao lado. E nisso me virei pra ver as horas, e passou um gordinho com o uniforme do Newton Guimarães.
Não que eu tenha atingindo a maturidade, longe disso, mas tenho me esforçado a respeitar o timing das coisas. Dia desses, abandonei o bar enquanto ainda tinha gente lá. Abandonei antes de ser eu o abandonado.
E não mais nutro remorso algum em largar amizades pelo simples fato que já deu.
Com o tempo, os rostos simpáticos começam a se contorcer intolerantes – e, tivesse me despedido de Borá meses antes, não morreria por lá.
Afastei-me prematuro dum lugar que pare cem poetas por dia – todos ruins. Não abandonei Bukowski porque nunca o quis conhecer, e não posso abandonar um lugar que nunca me acolheu. E foi só confirmar as horas que passou o gordinho com o uniforme do Newton Guimarães.
Não nego: tentei-me a olhar as horas de novo só pra ver se o gordinho passava. Mas me guardei à cerveja e ao cigarro, porque às vezes é melhor deixar quieto.
Setembro 11, 2006 às 7:02 am |
O timing, meu amigo, é imprescindível. E não há dentifrício Alcalol, e nem mesmo brilhantina Glostora que salve um homem sem timing…
Abril 9, 2007 às 9:39 am |
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