Passou a vida inteira comprando pão na mesma padaria. Não que o pão fosse grande coisa – em verdade, era cinco centavos mais caro que na concorrência e vinha com a bundinha casqueada, o que o obrigava a serrar aquele último pedaço e jogar no lixo; mesmo assim, não era a mesma coisa – qual bateria eletrônica.
Passou a vida inteira comprando pão na mesma padaria pela mulher que lhe servia os pães. Não que fosse bonita, ou tivesse charme qualquer. Nunca tivera tesão recalcado nenhum nela; era casado, e amava o suficiente. Era mais pela simpatia, pelo bom trato que lhe dispensava. Sabia seu nome, quando poucos sabiam. Tentava acertar o pedido antes de ele pedir – geralmente errava, mas valia o esforço. Quando a clientela minguava, puxava papo sobre futebol, visivelmente desgostosa do esporte que era.
Certa feita, até coincidiu de descobrir-se que apareceriam no mesmo bar naquela noite. Um despretensioso te trombo lá então, e ela não apareceu, mas ele sabia que não era demérito. Fora da padaria, não teriam nada pra conversar.
Até que um dia se atrasou no trabalho e foi comprar pão mais tarde que o usual. E pegou fila, coisa estranha até então. Enquanto esperava, escrutinou os preços de picolés vizinhos, ainda que não os fosse degustar. Desviou-se inevitável. Ela se distraía com um cliente, um qualquer, chamando-o pelo nome e perguntando do Corinthians.
Saiu parcimonioso da padaria, e disse pra mulher que comeriam fora aquele dia.
Escrito por cenarock