Os olhos cerrados, tentava dormir – ou sonhava – quando a voz desafinada começou a martelar sua cabeça. Todo dia ela acorda… Maldito. Tanto o maldissera acordado, agora vinha importunar seu sono. Deslizou a freqüência mental prum Beach Boys, a fim de descansar. Que já passava da hora.
Não deu dois compassos praquela desgraça revolver à mente. Apelou pra Barbie Girl, que podia ser uma merda, mas grudava que nem porra molhada. E era melhor que aquilo.
E nada. Mentalizou o repertório do Top Surprise 2 inteiro, e nada. Devaneou, pensou em comida, fez planos pro dia seguinte; e o som lá, de trilha.
O sono, esperto, dera o fora dali. Foi-se angustiando, enauseou-se; no escuro, coisas surgiam girando ao seu redor. Levantou, e caiu. Não acendeu a luz – o irmão dormia na cama ao lado.
Esforçou-se ao banheiro, e meteu a cara direto na patente. Vomitou até o último grão de arroz.
Voltou à cama, e tergipensou. A música insistia, e as mãos suavam, e a cabeça latejava. Lembrou-se de Schumann, ou Schoenberg, ou Chenson – algum desses morrera ouvindo um lá sustentado irrevogável. E dum cara que entrou pro Guinness – bateu as botas depois de sessenta e poucos anos soluçando.
Era destino trágico demais – antes uma nota ou um soluço, que ainda guardam algum valor musical.
Seis da manhã, o dia clareando – e como não fazia todo dia a essa hora, enrolou a fita isolante na cara e deixou faltar a respiração.
Seis da manhã, e como fazia todo dia a essa hora, seu irmão o sacudiu. Desta, não pra acordá-lo. Arrancou a fita, pra devolver o que ainda lhe cabia de ar.
O suficiente pra acordar na cama. Outra cama. Do hospital onde passaria ainda alguns bons anos vegetando. E todo dia lhe acordariam com banho de esponja, e todo dia lhe tirariam a merda pelo tubo, e todo dia lhe alimentariam papinha à veia. E todo dia lhe chegariam perto e sentariam à beira contando histórias da infância, e cantando músicas, e lhe consolando; e pensariam pelo menos ele nos ouve. Mas, dia após dia, era só uma melodia que se ouviria.
Escrito por cenarock