Às vezes, uma minoria de vezes, a cerveja desanda – e aquele otimismo ao qual me referira dá lugar a um ímpeto incontrolável de cair fora. De passar uma rasteira nas próprias pernas, levantar e virar a esquina pra sair daquela rua que, agora faz sentido, parece ser sem saída.

Tudo aquilo que o otimismo levemente embriagado arquiteta se implode ao primeiro sinal de ressaca antecipada. E, se um, todo-consciente, sabe por experiência própria que a sobriedade do dia seguinte não vai dar guarida às absurdezas, o segundo teima em fazer de seu niilismo certeza irrefutável. É sustentar nos ombros um anjinho e um capetinha, e, um gole a mais – o fatal – transfere o poder de mãos.

Entrou no quarto, o sono já pesava, e enfiou a cara no travesseiro. Quase indiscernível à cerveja e aos vários maços, subiu-lhe ao crânio o cheiro de amaciante. Cheiro de bebê, de gente de vida reta. De quem, antes e acima de tudo, dorme a cabeça num travesseiro.

E lembrou-se dos caras que abandonara minutos antes. Caras que provavelmente não conheceriam um travesseiro aquela noite. Que repousariam a cabeça na pedra. E o corpo, e o pé na pedra. E aquilo não seria nada demais. Amanhã acordariam na mesma pedra, com carros outros em volta. E cagariam no mesmo, ou em outro banheiro público, e negariam à velha da porta os trinta centavos. Passariam o dia filando cerveja de um, esmolando cigarro do outro. E não é nem questão de dignidade ou da falta dela – quando não se tem outra opção.

Em algum momento do dia, sentarão no balcão, ou na calçada em frente, pedirão uma caneta e escreverão sobre cu, porra, merda, pau, buceta. Mas não porque isso choca, ou porque algum grã-fino o adjetivará visceral, ou genuíno, ou socará uma escondido da patroa. É porque, mesmo que eles quisessem, é só isso que eles vivem. Só isso que eles sabem escrever.

Dormiu tragando amaciante, e sonhou, em meio a tantos sonhos aristocráticos, com aquele bêbado da noite passada aconselhando se quiser ir, vá, mas vá até o fim. Vai pisar em muita merda no chão; não vai passar um dia sem o que ficou pra trás atrair-te de volta. Mas se for, vá até o fim. Porque a recompensa é a única, a maior de todas.

Acordou com a cara no amaciante. Encontrou o quarto do jeito que o pusera pra dormir. A ressaca martelando, mas sóbrio, e, pela primeira vez, sóbrio não mudara de idéia. Sabia a iminência da decisão. Agora por si só, anjos e capetas expelidos junto com a embriaguez.

Arranjou tempo pra rememorar tudo em meio a sessões de autógrafos, fotos e entrevistas pro jornal, festas badaladas com gente badalada o badalando.

Nem precisava mais escrever – os outros pagariam seu brandy até o fim da vida, só para ouvir mais uma vez suas histórias de amor platônico, críticas sarcásticas ao governo que financiava sua publicação, e seu refinado, beletrista, saudosismo dum tempo bonito que só ele sabia que não vivera. Nem de um lado nem de outro. Mas que, no fundo, ele sabia que ninguém vivera. Porque, isso ele sabia, só existe um mundo a ser vivido: e esse ele abandonara com seus camaradas do bar. O dos que vão até o fim. Ele, ele não teve coragem de esquecer o cheiro do amaciante.

Nunca mais voltou ao bar. Tinha vergonha. Como ia se explicar ter voltado no meio do caminho? Algum filósofo disse que, uma vez entregue ao mar a jangada, pode-se aportar ou não no destino. Mas, do momento que se perde a vista da origem, a jangada está no mar a Deus querer.

Viveu a vida à deriva. Um pouco menor do que os que foram até o fim, mas um pouco maior do que os que não se aventuraram. E foi o mais marginal dentre os escritores de coisas bonitas.

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