Agosto 14, 2006

O grande barato da cerveja, inatingível com outras bebidas e substâncias, é o otimismo. Bêbado, todo mundo parece gente fina, toda cerveja é boa, e todo plano é executável. Foi bebendo que elaborei a viagem pra Borá, as 24 horas seguidas no Águas, a ida repentina pra São Paulo.

À medida que fui arregimentando garrafas vazias ao lado do computador, deixei o Danilo me convencer a cair pros lados da Europa. Quer dizer, se de fato se confirmarem as pechinchas que ele encontrou. Até lá, estarei com uma grana boa dum trampo fajuto que eu arrumei.

Mesmo que não dê em nada, serve de atestado empírico da grandeza da embriaguez. Dia após dia, chega essa hora em que eu já matei minha cota alcoólica, e os planos, das mais diversas naturezas, surgem. Não nego que uns oitenta por cento caem por terra com a ressaca. Mas o que sobra figura dentre os grandes feitos da humanidade.

Viagens, já as planejei pra basicamente todos os cantos que me vêm à cabeça. Vazar de casa, da cidade. Publicar livro, abrir boteco. Este blog rebentou duma madrugada de pródigas garrafas. O texto inaugural, uma garrafa depois. Devo dizer que nunca me arrependi de quaisquer incursões embriagadas.

E tenho pena de quem não bebe. Admito, boa parte da minha vida eu não bebi. Mas não lembro nem quero lembrar como vivi sem essas doses tão bem-vindas de otimismo noturno. Gente que não bebe ou bebe pouco fica sempre na iminência de sair fora, e se diverte rechaçando os bons planos de quem bebe. Evidentemente, nunca se divertem. E nunca fazem nada.

Do que só posso inferir que a cerveja é o meio e fim último do homem.

Desafortunados os que só dispõe da cabeça sóbria pra pensar, e só aparecem com idéias tolas, factíveis a qualquer outro. Nunca escrevi aqui sem um mínimo de álcool no sangue; quando o fiz, esbarrei em idéias chão.

Pouco antes de dar o primeiro gole, estava com um plano fixo: voltar a ser um cara inteligente. Ler uns livros, ouvir umas músicas, arranjar rumo pra vida. Pô, eu me lembro em épocas de vestibular – todo cheio de mim. Não errava uma sequer no Show do Milhão. Bons tempos em que tinha a tabela periódica na ponta da língua, e sabia ao menos cinco representantes de cada movimento literário, ainda que nunca tivesse lido algum deles. Jogava o #gamagame no mIRC, sabia todas as capitais e as propriedades da multiplicação. Agora tomo um pau dessa molecadinha – não lembro as variedades de leucócitos, e só consegui me atinar dois poetas brasileiros.

Mas aí eu vejo meus rivais de gamagame prestidigitando Drummond com um m só, e enfiando a Turquia na África. Então eu recordo o sujeitinho nojento que eu era, sabendo, de tudo, tudo. E nada também.

Minha mais respeitosa reverência pra quem trilhou o caminho todo, e ouviu os discos que cita, e cita os países que visitou. Mas aí já fica muito difícil. Esbravejar o que não leu, cantarolar o que não ouviu, descrever o que não conheceu, isso daí é pousar no meio do mar. Eu me contento em sair pra Europa, que isso dinheiro paga.