Dia desses no Potiguá, não bastasse a tensão que já rondava a noite perdida, entra um bando de viadinhos e sapatas no bar – provavelmente advindos do Relicário ou de algum outro antro de gente indesejada, tantos são os que têm pipocado na cidade e passado ao largo do meus mais verdadeiro desinteresse.
Cada um mais andrógino que o anterior, não posso nem lhes abrigar à semelhança com o sexo que Deus lhes negou, pois se nunca vi mulher tão desmunhecada, nem carrapato que forçasse a mão a um saco que nem existe. Dumas cinqüenta pessoas que estavam no bar na hora, duvido que alguma outra ali fruísse opção sexual tão heterodoxa; diversos certamente eram refratários àquela imagem – uns radicalmente, suponho.
Evidentemente, as munhecas que mal davam conta do taco de sinuca estavam lá só pela provocação. Não sei se queriam apanhar pra poder berrar que só apanhou porque era viado – que nem nigger quando é preso (pelo menos esses tem um pouco de auto-ironia). Ou se se alimentam do ódio alheio, como professoras de telejornalismo. Só sei que não estavam ali pra manifestar seu direito de livre expressão – essa ladainha não cola.
Naquele momento, compreendi a raiva de quem pega esse pessoal na rua e espanca. Veja bem, nada contra viados – também nunca tive amigo anal-expansivo, mas nada contra. O problema é com a postura. É muito difícil se vestir que nem gente, se portar que nem uma pessoa de fato? Precisa desmunhecar, falar com o caralho na boca?
Graças à maldita cartilha da correção política, se acham no direito, primeiro, de tachar qualquer crítica, por mais sensata que seja, de preconceito e o caralho a quatro. Segundo, subterfugiam-se na puerilidade da afirmação de identidade.
Porra. Essas coisas não se ganham no grito. Pra quem é minoria absoluta e já sai na desvantagem, não é muito inteligente querer impor seus caprichos pruma sociedade historicamente heterossexual. Vindo de um grupo que se diz mais sensato, mais sensível à conjuntura social, mais cabeça aberta, enfim, o mínimo que se espera é fazer valer tantos predicados unilateralmente atribuídos.
Transpondo isso prum cenário universal: se sempre tive liberdades mil dentro e fora de casa, foi muito menos pelo caráter libertário dos meus pais do que pelo exemplar do meu comportamento. Nunca transpareci bebedeira nem ressaca – vomitava tudo que tinha que vomitar antes de subir o elevador. Notas invariavelmente as melhores, companhia as boas – as más sempre foram omitidas.
Se precisava de grana, estudava mais ainda pra prova. Querendo viajar, até sujava louça só pra poder mostrar que tava lavando. Gritando só me fodi nessa vida.
Conheço alguns viados lá do trampo do meu pai. E só fui descobrir que o eram pelo próprio. Um, puta refinado, colecionador de quadros (vá lá, devia ter desconfiado), era duma elegância nada escandalosa. Esse ganhou meu respeito. Cara ponta firme. Muito mais macho que uma pá de bombadinho de academia.
Porque soube se colocar no lugar. Não só viado; ninguém tem que ficar forçando a sexualidade pra cima do outro. O cara pagar de espada, todo mundo tá ligado que é escroto – indício de insegurança até -; agora, sair de bundinha arrebitada pra bar punk é sinal de coragem, desprendimento, afirmação da identidade marginalizada, promoção da diversidade e o raio que o parta.
Chegar chegando numa mina pode render uma justificada joelhada no saco. Já dar um chega pra lá num viado te fitando a noite inteira, aí não pode – é preconceito.
Seguindo a lógica de afirmação desses caras, eu vou lá na casa dele, saco o pau pra fora da calça e enrabo a mãe dele – afinal, eu só estou dando vazão a minha sexualidade latente. Idéia que dá guarida inclusive a espancá-los na praça: reafirmação da testosterona. Elas por elas.
O que esses idiotas tão fazendo, muito em vez de auferir respeito pra categoria deles (que, quero acreditar, seja composta em sua maioria de pessoas respeitáveis como os camaradas do meu pai), é legitimar a formação de uma sociedade cada vez mais justificadamente homofóbica. Isso é auto-flagelação desarrazoada, típica de quem gosta de levar no cu.
Agosto 11, 2006 às 1:47 pm |
Você tá falando dos “emos”? rapazes e moças de preto, androginós feito uma pera? Dia destes o jornal hoje, sem querer, acabou com eles. A mocinha dizendo que “emo” é de emoção, que eles passam emoção, aí a reporter foi entrevistar a mãe dela que comprovou o que eu já esperava: ela passa emoção na rua, porque comigo é um túmulo!
Aparências, nada mais!
abs.
Agosto 11, 2006 às 2:31 pm |
Meu caro Gazzoni,
Como diria MC Sábio: “As bicha de classe! Elas falam assim: FOFETI!!”
Que cada um curta friccionar e trocar fluídos de um jeito, tudo bem. Agora, demonstração pública de falta de virilidade e de boylismo é extremamente escroto e incômodo. Concordo com sua indignação, só não vai ficar muito indignado que isso é coisa de quem curte cuzinhá o brioco!Falou?!
A decência é um exercício de discrição.
Belo texto, esse sim poético. Parabéns!
Agosto 11, 2006 às 4:30 pm |
Seu pai frequenta o Relicario???
Agosto 14, 2006 às 1:36 pm |
E eu que fui lá uma única e desavisada vez. Mal cheguei para comprar uma breja e uma mona chegou, na caruda, me enlaçando pela cintura (que, dada a minha condição corporal não a tenho há uns bons 10 anos) e perguntando: “o gatinho tá sozinho?”. Porra, se eu faço isso com uma menina, a possibilidade de levar uma boa joelhada nos culhões beira os 80%. Por que eu tenho que aceitar que uma biba faça isso comigo, ora bolas?