Engraçado. Por mais que eu me queira inconstante, minha vida sempre foi duma sistematização angustiante. Acordo, pretendo alguma coisa interessante pro dia, a barriga almoçada posterga os planos; a primeira cerveja do dia me assegura que não farei nada hoje. A segunda me excita o lado aventureiro – forjo idéias, crio, escrevo. A terceira concretiza os planos da segunda. A quarta fita a obra da segunda e da terceira – porra, tá uma merda. A quinta, quando existe, me baqueia e me põe a dormir acreditando: amanhã há de ser um novo dia.
E o ciclo se repete inexorável e irrevogavelmente. Acho que é só a cerveja que ainda me põe de pé. Sei que ela vai me levantar e me deitar. E acho que é só ela que ainda me segura nessas bandas. Ainda que seja talvez a única característica universal do país, é ela que me dorme com a promessa de ainda ter alguma chance por aqui.
Toda despedida nessa cidade culmina nas projeções dos que insistem. Quem vai ficar por aqui?, e sempre sou citado. Pô, toda sorte pra quem vai, mas eu não saio nem a pau. Não é questão de coragem ou desprendimento – mais do que qualquer um que eu conheça, eu já fui pra todos os cantos. E sempre retorno. Sempre saudoso. Não que Londrina carregue muitos méritos em particular. Não posso mais nem dizer que moro aqui, se, na mais absoluta desértia de bares próximos, só tenho bebido em casa. Tomo banho dia sim dia não, na falta de quem me cheire na rua.
Vinte e um anos cruzando as mesmas esquinas, freqüentando a mesma padaria, bebendo nos mesmos botecos. Não é possível que o cara que me atravessa na calçada já não tenha me visto, e que um monte deles não reconheçam o cabeludo de pernas tortas – assim como tantas caras eu já assimilei sem nunca me interessar a quem adornam.
Muito mais notariam minha presença lá fora que minha ausência aqui. Mas é que eu acho que, pruma vida que já levantou boa parte de suas bandeiras brancas, as que restam tão fincadas na terra onde eu vivi. Caindo fora, que obrigação tenho eu com pessoas, trabalhos, amigos?
Se algum dia fosse eu a desertar, eu sairia sem avisar. Porque eu não acho justo convidar dez ou quinze pessoas, os mais afins, e deixar de fora a Célia da padaria, que eu nem preciso mais pedir dois ten vermelhos que já ta na mão; o Paulão Paulada, sempre escoltando a esquina de casa; o cobrador do 305, sósia do Magno Malta, que já sabia a treta que era pra passar meu cartão quebrado. Aquele mendigo com vitiligo do Calçadão, a quem já neguei um sem-número de esmolas. A velha gorda do bar do lado do Fakir, que deve achar que eu prefiro conhaque a cerveja. O porteiro, a zeladora do prédio, o guardinha da UEL, o tiozão do xérox, a garçonete do Pátio.
Duvido que algum deles saiba meu nome. Que eu tenho blog. Que, pela primeira vez, eles são assunto de blog. Eu não saberia se eles morressem, e eles não notariam que eu fui embora. Amigos, mantém-se contato, arranja-se outros. O que me dói é abandonar esse contigente filho da puta de paralelepípedos já gastos da minha sola e de gente que eu convivi a vida toda sem nunca endereçar um sorriso que fosse.
Se a vida me for de todo negada pelas oportunidades que passaram do outro lado da rua, eu farei como faz todo mundo que não precisa de blog pra se tocar disso: eu me abandono. Mas não arredo pé. Posso perder namorada, família, amigos, pode trancar a rua, tombar o prédio, fechar o bar e aumentar a cerveja. A pinga pode ser fiada, e a sarjeta longe de casa. Posso esquecer a Célia, e nem lembrar onde moro: eu sempre terei Londrina.
Agosto 10, 2006 às 12:20 am |
Uma das coisas que eu não conseguiria conviver sem é o sol triste em pleno calçadão num sábado de manhã e as galeriazinhas e lojas que dão a esperança falsa de que se aquelas pessoas todas enterradas nesses estabelecimentos conseguem viver, por que eu não viveria?
Agosto 10, 2006 às 2:41 pm |
Bela declaração à Londrina. Em alguns, ou vários pontos, concordo contigo, e você sabe. Pode me xingar, mas que este texto ficou poético, ficou.
Agosto 10, 2006 às 7:41 pm |
acho melhor nao….
Agosto 12, 2006 às 9:03 pm |
Ih, Gazza, o Boneco falou que tu escreveu um texto poético….
Aliás, tou morrendo de saudades de Londrina. Aliás, no fundo, no fundo, Londrina é quae sempre uma cidade “Adotada” pelos outros…