Agosto 2, 2006

Sempre fui muito lerdo, seja pra entender piadas, indiretas, e, principalmente, pra valorizar um bom dia. Não sei se é esse Uncle John’s Band no fundo, mas hoje, pela primeira vez, eu entendi que tinha vivido um bom dia – sem precisar a ressaca me alertar a tanto. Já joguei a cabeça contra a parede por só descobrir minas interessadas quando já não mais estavam na minha vida, por valorizar amizades quando o avião já aterrisava em terras distantes, por demorar um ano pra perceber que vivera o melhor dos anos.

O dia só acaba quando a cerveja me induz à sonolência, e como isso ainda não aconteceu, vou considerar que foi ainda hoje que descobri que minha mulher lia todo dia o que escrevi pra ela. Sempre me lastimei à minha garota, insensivelmente, de não ter aproveitado à exaustão o momento em que tinha à mão a mulher que quisesse; que me comprometera cedo demais. Mas buceta nenhuma vale a certeza de acordar amanhã e saber que ela vai ter lido novamente o que escrevi pra ela, e saber que ela, mais ainda, vai me querer ao lado o resto da vida. Beg to differ, diria o Danilo, mas eu ponho minha mão n’água morna se alguém aqui tem tanta certeza do que está fazendo quanto eu. E pensar que só a tenho porque comentei descompromissadamente seu porte privilegiado com uma amiga em comum. Não tivesse ido na aula, ou simplesmente não tivesse comentado, estaria com uma putinha qualquer agora. A vida tem dessas coisas. Minha maré de sorte no bingo e no amor tá aí pra renegar o ditado.

Muito além daquela paixão cega que me custou chifres e declarações hoje rídiculas, é amor incondicional. A diferença é tênue, quase imperceptível: é o momento divino em que se pára de pensar em si mesmo e abnega-se devoto ao outro. À minha natureza, saturadamente egoísta e indiferente ao resto, a fronteira é ainda mais violenta. Querer bem ao custo que for, e sem o elogio do reconhecimento, isso nunca fez parte da minha cartilha – nem com a minha mãe. Me é tudo estranhamente novo. Mas bom. Acima de tudo, bom.

E como o dia ainda não acabou, também me é excitante a experiência de vender o primeiro livro. Sem ter que pedir, anarco-hippies malditos, pra comprar minha arte preu tomar uma nervosa, e repassar brinco do camelô por cincão. De vender o primeiro livro e, metros dali, ouvi-las, ainda mais extasiadas que eu, folheando em plena rua o que devem ter tomado por um bom negócio. De me fazerem acreditar que não pagaram só pela minha carinha bonita – ainda que isso deva ter inflacionado um pouco a barganha. É bom ter alguém esperando e pagando por algo que é, antes de tudo, meu, só meu.

Antes que o dia termine, é muito bom ter alguém conversando contigo, alguém que teria a obrigação moral de não falar mais contigo. E, muito além disso, apreciar a companhia, e até se desculpar. Implícita, mas uma desculpa. É legal saber que, apesar das cagadas, tem (muita) gente se importando. Já fodi muito nêgo; se todo mundo que, uma vez que fosse, eu quisera morto, sobrava dois gatos pingados. Já passa da hora de reparar tanta merda.

Quisera eu acreditar, ingênuo, que depois do álcool e do Grateful Dead, a sensatez permaneça. Minha história é cíclica, e amanhã vou estar redigindo mentalmente o obituário de todos que quis bem hoje. Mas o que tá escrito, tá escrito, e por mais que amanhã eu foda com a sua vida de novo, neste momento eu te quis bem. E, por mais que o dia de amanhã seja uma merda, hoje eu tive um bom dia.