Agosto 31, 2006

Passou a vida inteira comprando pão na mesma padaria. Não que o pão fosse grande coisa – em verdade, era cinco centavos mais caro que na concorrência e vinha com a bundinha casqueada, o que o obrigava a serrar aquele último pedaço e jogar no lixo; mesmo assim, não era a mesma coisa – qual bateria eletrônica.

Passou a vida inteira comprando pão na mesma padaria pela mulher que lhe servia os pães. Não que fosse bonita, ou tivesse charme qualquer. Nunca tivera tesão recalcado nenhum nela; era casado, e amava o suficiente. Era mais pela simpatia, pelo bom trato que lhe dispensava. Sabia seu nome, quando poucos sabiam. Tentava acertar o pedido antes de ele pedir – geralmente errava, mas valia o esforço. Quando a clientela minguava, puxava papo sobre futebol, visivelmente desgostosa do esporte que era.

Certa feita, até coincidiu de descobrir-se que apareceriam no mesmo bar naquela noite. Um despretensioso te trombo lá então, e ela não apareceu, mas ele sabia que não era demérito. Fora da padaria, não teriam nada pra conversar.

Até que um dia se atrasou no trabalho e foi comprar pão mais tarde que o usual. E pegou fila, coisa estranha até então. Enquanto esperava, escrutinou os preços de picolés vizinhos, ainda que não os fosse degustar. Desviou-se inevitável. Ela se distraía com um cliente, um qualquer, chamando-o pelo nome e perguntando do Corinthians.

Saiu parcimonioso da padaria, e disse pra mulher que comeriam fora aquele dia.


Agosto 28, 2006

Pra mim, qualquer coisa menos do que eu vivo é o mesmo que nada. Vê-la a cada dois, três dias, ter a necessidade de fazer coisa qualquer, sair prum bar ou comer um lanche – pra iludir-se de convivência -. pra mim isso vale merda. Qualquer coisa menos que passar junto o dia inteiro, e o não passar ser apenas um percalço. Ver-se todos os dias há oito dos onze meses de namoro, e não fazer disso só mais um recorde – como fiz com tudo na vida. Passei dias sem pôr álcool pra dentro, até algum dia doente devo ter deixado de fumar – mas a vi todos os dias, e foi natural como poucas coisas são naturais.

Ultimamente, não vejo mais necessidade alguma de escrever por aqui, de escrever at all. Há tempos que não me forço mais a falar bonito, a abrir sorriso na rua. Não tenho mais porque desfiar conhecimento, arregimentar conhecimento, falar de música, ouvir música. Não ouço mais música – afora este SMiLE, que tem algo de Deus, assim como ela o tem.

Não tenho mais tido tesão em sair com outros, em conversar com outros. Saímos, e, qualquer um que esteja ao lado, tão-somente estará. Ela me basta. Isso deve impor algum respeito nos outros, porque eu não preciso dos outros.

Não preciso mais de papel timbrado, de mãos dadas, nem a preciso ao lado a todo o momento. Me basta a certeza. Certeza de que, ao meu oposto, não enchendo a cara, não fumando à morte, não atravessando a rua com o sinal aberto, vou-me antes. Certeza de que não tenho de ter certeza de nada, afora a dela.

O resto? O resto passa ao largo – e, pra mim, tanto faz.


Claustrágoro II – Cotidiano

Agosto 23, 2006

Os olhos cerrados, tentava dormir – ou sonhava – quando a voz desafinada começou a martelar sua cabeça. Todo dia ela acorda… Maldito. Tanto o maldissera acordado, agora vinha importunar seu sono. Deslizou a freqüência mental prum Beach Boys, a fim de descansar. Que já passava da hora.

Não deu dois compassos praquela desgraça revolver à mente. Apelou pra Barbie Girl, que podia ser uma merda, mas grudava que nem porra molhada. E era melhor que aquilo.

E nada. Mentalizou o repertório do Top Surprise 2 inteiro, e nada. Devaneou, pensou em comida, fez planos pro dia seguinte; e o som lá, de trilha.

O sono, esperto, dera o fora dali. Foi-se angustiando, enauseou-se; no escuro, coisas surgiam girando ao seu redor. Levantou, e caiu. Não acendeu a luz – o irmão dormia na cama ao lado.

Esforçou-se ao banheiro, e meteu a cara direto na patente. Vomitou até o último grão de arroz.

Voltou à cama, e tergipensou. A música insistia, e as mãos suavam, e a cabeça latejava. Lembrou-se de Schumann, ou Schoenberg, ou Chenson – algum desses morrera ouvindo um sustentado irrevogável. E dum cara que entrou pro Guinness – bateu as botas depois de sessenta e poucos anos soluçando.

Era destino trágico demais – antes uma nota ou um soluço, que ainda guardam algum valor musical.

Seis da manhã, o dia clareando – e como não fazia todo dia a essa hora, enrolou a fita isolante na cara e deixou faltar a respiração.

Seis da manhã, e como fazia todo dia a essa hora, seu irmão o sacudiu. Desta, não pra acordá-lo. Arrancou a fita, pra devolver o que ainda lhe cabia de ar.

O suficiente pra acordar na cama. Outra cama. Do hospital onde passaria ainda alguns bons anos vegetando. E todo dia lhe acordariam com banho de esponja, e todo dia lhe tirariam a merda pelo tubo, e todo dia lhe alimentariam papinha à veia. E todo dia lhe chegariam perto e sentariam à beira contando histórias da infância, e cantando músicas, e lhe consolando; e pensariam pelo menos ele nos ouve. Mas, dia após dia, era só uma melodia que se ouviria.


Agosto 19, 2006

Às vezes, uma minoria de vezes, a cerveja desanda – e aquele otimismo ao qual me referira dá lugar a um ímpeto incontrolável de cair fora. De passar uma rasteira nas próprias pernas, levantar e virar a esquina pra sair daquela rua que, agora faz sentido, parece ser sem saída.

Tudo aquilo que o otimismo levemente embriagado arquiteta se implode ao primeiro sinal de ressaca antecipada. E, se um, todo-consciente, sabe por experiência própria que a sobriedade do dia seguinte não vai dar guarida às absurdezas, o segundo teima em fazer de seu niilismo certeza irrefutável. É sustentar nos ombros um anjinho e um capetinha, e, um gole a mais – o fatal – transfere o poder de mãos.

Entrou no quarto, o sono já pesava, e enfiou a cara no travesseiro. Quase indiscernível à cerveja e aos vários maços, subiu-lhe ao crânio o cheiro de amaciante. Cheiro de bebê, de gente de vida reta. De quem, antes e acima de tudo, dorme a cabeça num travesseiro.

E lembrou-se dos caras que abandonara minutos antes. Caras que provavelmente não conheceriam um travesseiro aquela noite. Que repousariam a cabeça na pedra. E o corpo, e o pé na pedra. E aquilo não seria nada demais. Amanhã acordariam na mesma pedra, com carros outros em volta. E cagariam no mesmo, ou em outro banheiro público, e negariam à velha da porta os trinta centavos. Passariam o dia filando cerveja de um, esmolando cigarro do outro. E não é nem questão de dignidade ou da falta dela – quando não se tem outra opção.

Em algum momento do dia, sentarão no balcão, ou na calçada em frente, pedirão uma caneta e escreverão sobre cu, porra, merda, pau, buceta. Mas não porque isso choca, ou porque algum grã-fino o adjetivará visceral, ou genuíno, ou socará uma escondido da patroa. É porque, mesmo que eles quisessem, é só isso que eles vivem. Só isso que eles sabem escrever.

Dormiu tragando amaciante, e sonhou, em meio a tantos sonhos aristocráticos, com aquele bêbado da noite passada aconselhando se quiser ir, vá, mas vá até o fim. Vai pisar em muita merda no chão; não vai passar um dia sem o que ficou pra trás atrair-te de volta. Mas se for, vá até o fim. Porque a recompensa é a única, a maior de todas.

Acordou com a cara no amaciante. Encontrou o quarto do jeito que o pusera pra dormir. A ressaca martelando, mas sóbrio, e, pela primeira vez, sóbrio não mudara de idéia. Sabia a iminência da decisão. Agora por si só, anjos e capetas expelidos junto com a embriaguez.

Arranjou tempo pra rememorar tudo em meio a sessões de autógrafos, fotos e entrevistas pro jornal, festas badaladas com gente badalada o badalando.

Nem precisava mais escrever – os outros pagariam seu brandy até o fim da vida, só para ouvir mais uma vez suas histórias de amor platônico, críticas sarcásticas ao governo que financiava sua publicação, e seu refinado, beletrista, saudosismo dum tempo bonito que só ele sabia que não vivera. Nem de um lado nem de outro. Mas que, no fundo, ele sabia que ninguém vivera. Porque, isso ele sabia, só existe um mundo a ser vivido: e esse ele abandonara com seus camaradas do bar. O dos que vão até o fim. Ele, ele não teve coragem de esquecer o cheiro do amaciante.

Nunca mais voltou ao bar. Tinha vergonha. Como ia se explicar ter voltado no meio do caminho? Algum filósofo disse que, uma vez entregue ao mar a jangada, pode-se aportar ou não no destino. Mas, do momento que se perde a vista da origem, a jangada está no mar a Deus querer.

Viveu a vida à deriva. Um pouco menor do que os que foram até o fim, mas um pouco maior do que os que não se aventuraram. E foi o mais marginal dentre os escritores de coisas bonitas.


Agosto 14, 2006

O grande barato da cerveja, inatingível com outras bebidas e substâncias, é o otimismo. Bêbado, todo mundo parece gente fina, toda cerveja é boa, e todo plano é executável. Foi bebendo que elaborei a viagem pra Borá, as 24 horas seguidas no Águas, a ida repentina pra São Paulo.

À medida que fui arregimentando garrafas vazias ao lado do computador, deixei o Danilo me convencer a cair pros lados da Europa. Quer dizer, se de fato se confirmarem as pechinchas que ele encontrou. Até lá, estarei com uma grana boa dum trampo fajuto que eu arrumei.

Mesmo que não dê em nada, serve de atestado empírico da grandeza da embriaguez. Dia após dia, chega essa hora em que eu já matei minha cota alcoólica, e os planos, das mais diversas naturezas, surgem. Não nego que uns oitenta por cento caem por terra com a ressaca. Mas o que sobra figura dentre os grandes feitos da humanidade.

Viagens, já as planejei pra basicamente todos os cantos que me vêm à cabeça. Vazar de casa, da cidade. Publicar livro, abrir boteco. Este blog rebentou duma madrugada de pródigas garrafas. O texto inaugural, uma garrafa depois. Devo dizer que nunca me arrependi de quaisquer incursões embriagadas.

E tenho pena de quem não bebe. Admito, boa parte da minha vida eu não bebi. Mas não lembro nem quero lembrar como vivi sem essas doses tão bem-vindas de otimismo noturno. Gente que não bebe ou bebe pouco fica sempre na iminência de sair fora, e se diverte rechaçando os bons planos de quem bebe. Evidentemente, nunca se divertem. E nunca fazem nada.

Do que só posso inferir que a cerveja é o meio e fim último do homem.

Desafortunados os que só dispõe da cabeça sóbria pra pensar, e só aparecem com idéias tolas, factíveis a qualquer outro. Nunca escrevi aqui sem um mínimo de álcool no sangue; quando o fiz, esbarrei em idéias chão.

Pouco antes de dar o primeiro gole, estava com um plano fixo: voltar a ser um cara inteligente. Ler uns livros, ouvir umas músicas, arranjar rumo pra vida. Pô, eu me lembro em épocas de vestibular – todo cheio de mim. Não errava uma sequer no Show do Milhão. Bons tempos em que tinha a tabela periódica na ponta da língua, e sabia ao menos cinco representantes de cada movimento literário, ainda que nunca tivesse lido algum deles. Jogava o #gamagame no mIRC, sabia todas as capitais e as propriedades da multiplicação. Agora tomo um pau dessa molecadinha – não lembro as variedades de leucócitos, e só consegui me atinar dois poetas brasileiros.

Mas aí eu vejo meus rivais de gamagame prestidigitando Drummond com um m só, e enfiando a Turquia na África. Então eu recordo o sujeitinho nojento que eu era, sabendo, de tudo, tudo. E nada também.

Minha mais respeitosa reverência pra quem trilhou o caminho todo, e ouviu os discos que cita, e cita os países que visitou. Mas aí já fica muito difícil. Esbravejar o que não leu, cantarolar o que não ouviu, descrever o que não conheceu, isso daí é pousar no meio do mar. Eu me contento em sair pra Europa, que isso dinheiro paga.


Enfia

Agosto 11, 2006

Dia desses no Potiguá, não bastasse a tensão que já rondava a noite perdida, entra um bando de viadinhos e sapatas no bar – provavelmente advindos do Relicário ou de algum outro antro de gente indesejada, tantos são os que têm pipocado na cidade e passado ao largo do meus mais verdadeiro desinteresse.

Cada um mais andrógino que o anterior, não posso nem lhes abrigar à semelhança com o sexo que Deus lhes negou, pois se nunca vi mulher tão desmunhecada, nem carrapato que forçasse a mão a um saco que nem existe. Dumas cinqüenta pessoas que estavam no bar na hora, duvido que alguma outra ali fruísse opção sexual tão heterodoxa; diversos certamente eram refratários àquela imagem – uns radicalmente, suponho.

Evidentemente, as munhecas que mal davam conta do taco de sinuca estavam lá só pela provocação. Não sei se queriam apanhar pra poder berrar que só apanhou porque era viado – que nem nigger quando é preso (pelo menos esses tem um pouco de auto-ironia). Ou se se alimentam do ódio alheio, como professoras de telejornalismo. Só sei que não estavam ali pra manifestar seu direito de livre expressão – essa ladainha não cola.

Naquele momento, compreendi a raiva de quem pega esse pessoal na rua e espanca. Veja bem, nada contra viados – também nunca tive amigo anal-expansivo, mas nada contra. O problema é com a postura. É muito difícil se vestir que nem gente, se portar que nem uma pessoa de fato? Precisa desmunhecar, falar com o caralho na boca?

Graças à maldita cartilha da correção política, se acham no direito, primeiro, de tachar qualquer crítica, por mais sensata que seja, de preconceito e o caralho a quatro. Segundo, subterfugiam-se na puerilidade da afirmação de identidade.

Porra. Essas coisas não se ganham no grito. Pra quem é minoria absoluta e já sai na desvantagem, não é muito inteligente querer impor seus caprichos pruma sociedade historicamente heterossexual. Vindo de um grupo que se diz mais sensato, mais sensível à conjuntura social, mais cabeça aberta, enfim, o mínimo que se espera é fazer valer tantos predicados unilateralmente atribuídos.

Transpondo isso prum cenário universal: se sempre tive liberdades mil dentro e fora de casa, foi muito menos pelo caráter libertário dos meus pais do que pelo exemplar do meu comportamento. Nunca transpareci bebedeira nem ressaca – vomitava tudo que tinha que vomitar antes de subir o elevador. Notas invariavelmente as melhores, companhia as boas – as más sempre foram omitidas.

Se precisava de grana, estudava mais ainda pra prova. Querendo viajar, até sujava louça só pra poder mostrar que tava lavando. Gritando só me fodi nessa vida.

Conheço alguns viados lá do trampo do meu pai. E só fui descobrir que o eram pelo próprio. Um, puta refinado, colecionador de quadros (vá lá, devia ter desconfiado), era duma elegância nada escandalosa. Esse ganhou meu respeito. Cara ponta firme. Muito mais macho que uma pá de bombadinho de academia.

Porque soube se colocar no lugar. Não só viado; ninguém tem que ficar forçando a sexualidade pra cima do outro. O cara pagar de espada, todo mundo tá ligado que é escroto – indício de insegurança até -; agora, sair de bundinha arrebitada pra bar punk é sinal de coragem, desprendimento, afirmação da identidade marginalizada, promoção da diversidade e o raio que o parta.

Chegar chegando numa mina pode render uma justificada joelhada no saco. Já dar um chega pra lá num viado te fitando a noite inteira, aí não pode – é preconceito.

Seguindo a lógica de afirmação desses caras, eu vou lá na casa dele, saco o pau pra fora da calça e enrabo a mãe dele – afinal, eu só estou dando vazão a minha sexualidade latente. Idéia que dá guarida inclusive a espancá-los na praça: reafirmação da testosterona. Elas por elas.

O que esses idiotas tão fazendo, muito em vez de auferir respeito pra categoria deles (que, quero acreditar, seja composta em sua maioria de pessoas respeitáveis como os camaradas do meu pai), é legitimar a formação de uma sociedade cada vez mais justificadamente homofóbica. Isso é auto-flagelação desarrazoada, típica de quem gosta de levar no cu.


Agosto 9, 2006

Engraçado. Por mais que eu me queira inconstante, minha vida sempre foi duma sistematização angustiante. Acordo, pretendo alguma coisa interessante pro dia, a barriga almoçada posterga os planos; a primeira cerveja do dia me assegura que não farei nada hoje. A segunda me excita o lado aventureiro – forjo idéias, crio, escrevo. A terceira concretiza os planos da segunda. A quarta fita a obra da segunda e da terceira – porra, tá uma merda. A quinta, quando existe, me baqueia e me põe a dormir acreditando: amanhã há de ser um novo dia.

E o ciclo se repete inexorável e irrevogavelmente. Acho que é só a cerveja que ainda me põe de pé. Sei que ela vai me levantar e me deitar. E acho que é só ela que ainda me segura nessas bandas. Ainda que seja talvez a única característica universal do país, é ela que me dorme com a promessa de ainda ter alguma chance por aqui.

Toda despedida nessa cidade culmina nas projeções dos que insistem. Quem vai ficar por aqui?, e sempre sou citado. Pô, toda sorte pra quem vai, mas eu não saio nem a pau. Não é questão de coragem ou desprendimento – mais do que qualquer um que eu conheça, eu já fui pra todos os cantos. E sempre retorno. Sempre saudoso. Não que Londrina carregue muitos méritos em particular. Não posso mais nem dizer que moro aqui, se, na mais absoluta desértia de bares próximos, só tenho bebido em casa. Tomo banho dia sim dia não, na falta de quem me cheire na rua.

Vinte e um anos cruzando as mesmas esquinas, freqüentando a mesma padaria, bebendo nos mesmos botecos. Não é possível que o cara que me atravessa na calçada já não tenha me visto, e que um monte deles não reconheçam o cabeludo de pernas tortas – assim como tantas caras eu já assimilei sem nunca me interessar a quem adornam.

Muito mais notariam minha presença lá fora que minha ausência aqui. Mas é que eu acho que, pruma vida que já levantou boa parte de suas bandeiras brancas, as que restam tão fincadas na terra onde eu vivi. Caindo fora, que obrigação tenho eu com pessoas, trabalhos, amigos?

Se algum dia fosse eu a desertar, eu sairia sem avisar. Porque eu não acho justo convidar dez ou quinze pessoas, os mais afins, e deixar de fora a Célia da padaria, que eu nem preciso mais pedir dois ten vermelhos que já ta na mão; o Paulão Paulada, sempre escoltando a esquina de casa; o cobrador do 305, sósia do Magno Malta, que já sabia a treta que era pra passar meu cartão quebrado. Aquele mendigo com vitiligo do Calçadão, a quem já neguei um sem-número de esmolas. A velha gorda do bar do lado do Fakir, que deve achar que eu prefiro conhaque a cerveja. O porteiro, a zeladora do prédio, o guardinha da UEL, o tiozão do xérox, a garçonete do Pátio.

Duvido que algum deles saiba meu nome. Que eu tenho blog. Que, pela primeira vez, eles são assunto de blog. Eu não saberia se eles morressem, e eles não notariam que eu fui embora. Amigos, mantém-se contato, arranja-se outros. O que me dói é abandonar esse contigente filho da puta de paralelepípedos já gastos da minha sola e de gente que eu convivi a vida toda sem nunca endereçar um sorriso que fosse.

Se a vida me for de todo negada pelas oportunidades que passaram do outro lado da rua, eu farei como faz todo mundo que não precisa de blog pra se tocar disso: eu me abandono. Mas não arredo pé. Posso perder namorada, família, amigos, pode trancar a rua, tombar o prédio, fechar o bar e aumentar a cerveja. A pinga pode ser fiada, e a sarjeta longe de casa. Posso esquecer a Célia, e nem lembrar onde moro: eu sempre terei Londrina.


Agosto 7, 2006

Deselegantemente oposto a um amigo meu, eu não sinto a menor saudade do segundo colegial. Claro, tenho grandes histórias da época, mas que só me tem uso pra mostrar pra minha mina como um dia eu já fui legal.

No entanto, não sei, talvez seja a sétima de um dia de boas cervejas, mas me deu aquele ímpeto e eu reinstalei o mIRC.

Porra, nem lembro há quantos anos eu acessei a última vez o #londrina. A internet tem dessas coisas: é só começar a pegar o jeito da coisa, e alguém já inventa um substituto.

Bons tempos em que status se determinava pela arroba antes do nome da pessoa, que o canal da cidade tinha eternas duzentas pessoas conectadas, e você conhecia metade dos que estavam lá – ainda que fisicamente só uns cinco.

Elegantemente oposto ao meu irmão, nunca fui rato de computador. Mas o mIRC marcou minha vida como poucas coisas e pessoas marcaram. Eu lembro: foi no #gamagame em que ampliei minha casta de conhecimento inútil, no #gamo finalmente obtive o devido reconhecimento por tão extensa miríade cognoscitiva, um imponente + antes do meu nick, que nem lembro mais qual era. No #jesus eu aprendi a contestar as falácias religiosas. Foi no pvt que eu passei a primeira cantada numa mina – e levei um toco. Foi naquela poluição de cores, underlines, arrobas, que eu… bem, juro que fui até abrir outra cerveja, mas não sei dizer o que mIRC fez por mim. Sei que eu me diverti pra caralho.

Com o tempo, tomei a cara de chegar nas minas, de blasfemar minha vó crente. Quanto ao #gamagame, confesso minha mais absoluta involução em não mais lembrar o nome de cinco empresas de telecomunicação ou quem gravou a música “Mesa de bar”, junto com Alcione no cd “Celebração”.

Bom tempo em que cada roda de amigos tinha seu próprio canal, tempo em que abri dissensão na luta pelo comando da sala. E saí vencido. Humildemente outorgaram-me o comando do canal dissidente, e aprendi da maneira mais humilhante a não me embriagar com o poder. Tempo sem MSN, celulares; em que você podia chamar o cara sem se preocupar em arruinar a trepada dele.

Tempo em que o nosso canal tinha nome de maconha, mas todo mundo se cagava por dentro quando a primeira puta tirava pra fora a buceta mal lavada.

Parece despropositado esse saudosismo das coisas modernas, mas em algum momento isso fez sentido pra mim. Não sei se pelo mIRC em si ou pela vida que eu vivia no tempo do mIRC, e nem a quero de volta – deselegante oposto a um amigo meu. Mas eu encho o copo e dou um trago fundo só de lembrar.

O mIRC anda deserto, e ninguém se propôs a conversar comigo até agora. E nem devem. Eles, à procura de mp3 ou uma metida virtual, não entraram lá pra ouvir saudosismo barato. Minto: um cara me abordou com uma concisa propaganda do canal de jogos concorrente. Tentei puxar conversa, mas insistiu na propaganda. Não estava lá pelo saudosismo.


Vão à merda

Agosto 5, 2006

Ao longo duma constante infindável suposta elitização do meu arredor, eu nunca – sublinho: nunca – encontrei alguém que gostasse de arte. Já viajei o Brasil todo, já fucei a vida de milhares na internet, já conheci bibliófilos, colecionadores de quadros, discos; já mapeei minha cidade quase por completo. E até hoje nada.

Mas não preciso virar a esquina pra encontrar alguém que mataria e morreria pelo Corinthians. Que fique claro, não acho nada louvável – e sim uma grande idiotice – esse tesão desenfreado pelo futebol. Mas esses caras, fale o que quiser deles, esses caras gostam.

Desprezo citações, em especial as batidas, mas essa do Lou Reed é tão genial: Rock & Roll é tão fabuloso, as pessoas deviam começar a morrer por ele. As pessoas simplesmente devem morrer pela música. As pessoas estão morrendo por tudo o mais, então por que não pela música? Morrer por ela. Não é bárbaro? Você não morreria por algo bárbaro?

Não falo de punk, nem rock. Eu morreria pelos Beach Boys, cara. E eles vão tocar quando eu morrer. E não precisa morrer também. Mas pelo menos um pau duro, uma vontade de vomitar, de encher a cara. De espancar alguém, ou pegar uma caneta, uma guitarra.

E não precisa falar de porra, de morte, de cu. Já disse, uma banda completamente aviadada como os Beach Boys me deixa de pau duro. Morra pela música erudita, ou por essas poesias do Morrissey. Mas tenha alguma reação, pelo amor de Deus.

O que não dá é entrar na comunidade de uma porra dum chato dum James Joyce, e nêgo postar uma prova, literalmente uma prova, com excerto do livro e questões sobre a transitoriedade da voz do narrador. Isso é arte? Ou eu que tô sendo idiota e entendi tudo errado até hoje, ou isso que chamam arte não era algo pra causar sensações?

Agora me diz, que sensação existe em cerebralizar tudo que se lê, ouve, vê?; que graça tem ficar pescando metáfora, encadeamento harmônico, e sei lá o que mais?

Eu sei que graça tem: os outros baixam a bola e o interlocutor desavisado não vai ter a manha de falar meu, aquele riff me deixa de pau duro quando o primeiro, altivo, tá analisando o emprego inusitado da sexta na construção da harmonia.

Só dou um toque, na humildade: se o cara tava mesmo pensando a mesma coisa que você, se ele realmente fez conta pra escrever aquilo lá, então o cara também é um panaca que ia ser muito mais útil na livre-docência de engenharia elétrica. E, se o cara é que nem as boas pessoas que eu conheço – não me pretendo artista, mas eu escrevo, e minha mãe e namorada ainda apreciam a minha obra -, eles não pensaram em porra nenhuma disso, e provavelmente tão rindo da cara de vocês agora.

Eu não leio. Eu nem gostava de escrever, porque me forçava àquele texto de debutante. Demorou até tomar a cara de escrever do jeito que eu quero, do jeito que as coisas precisam ser escritas. Na porrada, no tempo de uma garrafa. Eu não leio, por mais que às vezes dê aquela vontade de folhear alguma coisa – e é claro que tem muita literatura boa. Eu não li os clássicos – nunca li Graciliano Ramos, Guimarães Rosa muito pouco. Nunca li nada – nada – de fora.

Paguei um pau praquele livrinho do Fabiano – mendigão mesmo -, pena que não o tenho em mãos pra citar; mas era alguma coisa assim: meu amigo falou pra mim: cara, vai ler os clássicos, Joyce, Wilde, Pirandelo… Eu li, e MEU! Aquilo me deu uma caganeira desgraçada, quase arregacei as pregas do cu. É isso que tem que ser dito, ainda que ninguém queira ouvir.

Filme pra mim, Sessão da Tarde, e olha lá – Corujão já é muito cabeça. Não conheço música erudita, jazz, bossa-nova. Que tem coisa boa, claro que deve ter. Mas é risco muito grande, você começa ouvindo um bagulho que te fisgou a atenção – quando vê, já tá discutindo aquele acorde, aquela quebra de andamento. E isso contamina. Eu sei, e já previa isso, que perdi um tesão desgraçado nos Beach Boys só de aprender o campo harmônico maior. Tira a graça, sabe. Por mais que seja útil, e que nem se consiga reproduzir um Brian Wilson sem saber ler a música dele, é difícil quase impossível fazer tua aulinha de violão e não começar a escutar os caras e enxergar na tua frente os Am7 e Edim, pululando que nem letra em videokê, coisas que até antes você ouvia e aquilo só te eriçava os pêlos. Fica tudo muito mecânico, e isso é uma merda.

Pô, eu me entrego por inteiro pra tentar escrever o que suponho que as pessoas querem ler. E talvez, tolo eu, elas leiam mesmo e gostem. E deixem escapar uma barraca armada. Mas guardam pra elas, porque o bonito é gostar da coisa poética, do sofrimento escroto, vazio, do se colocar por baixo pra sair por cima. Se algum dia, e isso não vai acontecer, dessem algum reconhecimento pro que eu escrevo, não ia tardar a me elogiarem não pela raiva ou pelo tesão que eu despertei, e sim por alguma metáfora em casca de ovo, que – juro pelo cerveja ao meu lado – nunca foi minha intenção.

Graças a Deus que, sabe-se lá por quê, ninguém comenta no meu blog, então são poucas as chances de um desses escrotos vir aqui com um calhamaço provar por A+B que meu texto não tem fundamentação lógica, porque, como disse o Andy Kaufman, I have no comeback for that.


Claustrágoro

Agosto 3, 2006

Conforme eu previra, foi o último dedo se desprender do parapeito e veio o arrependimento. O orgulho único da vida que não tinha mais nada pra deixar pra trás era o de ter nunca melindrado. Meu pai sempre me alertara – no caso, em relação aos malacos -: quem não tem nada a perder, não tem medo. Ele não sabia, mas eu também não tinha nada a perder. E não tinha medo.

Mas essa imagem sempre permeara sonhos, devaneios. O minúsculo quase invisível instante em que se perde o controle da situação. Sensato, recluso, introspecto que sempre fui, nunca me fugira o domínio do momento como me fugia agora.

Essa autocracia de dar-se um fim, muito além do caráter criminoso, subversivo, me consumia admirado pela retidão dos que estavam dispostos muito menos em terminar-se irrevogáveis do que pela segurança com que relevavam o prognóstico imediatamente seguinte, de se entregar convictos à impossibilidade de regressar enquanto podem, e já não podem mais.

Em verdade, foi isso, e só isso, que protelou o que há muito já tinha por certo. E foi isso, só isso, que, em verdade, me levou ao que só tinha por certo pelo tesão que supunha a esse instante.

Nem de pequeno quis ir pra Lua, tampouco agnóstico clamei vez sequer algum sinal dos trabalhos divinos. Não me proponho ao intangível, e, oposto ao meu rival de dinâmica de grupo, não gosto de desafios, muito menos tenho por qualidade a perspicácia.

Mas, arrodando minha envergadura, não me vem à mente substância passada ao largo, palavra não escrita, distância inóspita. Não amargo despromessas.

É arrependimento, mas é arrependimento honroso. De não capitular à mais temerosa, derradeira – única até – experiência.

Não me apatizo: compadeço dos que chorarão por mim. Dos que talvez se levem ao mesmo parapeito por mim. Mas, às vezes, um homem tem que tomar decisões. Não sei se conseguiria me encarar, tivesse abichalado à janela.

Desculpe me desviar, mas dá pra ver pela fresta o boy do quinto andar de quatro. Sabia que ele era viado.