Ao longo duma constante infindável suposta elitização do meu arredor, eu nunca – sublinho: nunca – encontrei alguém que gostasse de arte. Já viajei o Brasil todo, já fucei a vida de milhares na internet, já conheci bibliófilos, colecionadores de quadros, discos; já mapeei minha cidade quase por completo. E até hoje nada.
Mas não preciso virar a esquina pra encontrar alguém que mataria e morreria pelo Corinthians. Que fique claro, não acho nada louvável – e sim uma grande idiotice – esse tesão desenfreado pelo futebol. Mas esses caras, fale o que quiser deles, esses caras gostam.
Desprezo citações, em especial as batidas, mas essa do Lou Reed é tão genial: Rock & Roll é tão fabuloso, as pessoas deviam começar a morrer por ele. As pessoas simplesmente devem morrer pela música. As pessoas estão morrendo por tudo o mais, então por que não pela música? Morrer por ela. Não é bárbaro? Você não morreria por algo bárbaro?
Não falo de punk, nem rock. Eu morreria pelos Beach Boys, cara. E eles vão tocar quando eu morrer. E não precisa morrer também. Mas pelo menos um pau duro, uma vontade de vomitar, de encher a cara. De espancar alguém, ou pegar uma caneta, uma guitarra.
E não precisa falar de porra, de morte, de cu. Já disse, uma banda completamente aviadada como os Beach Boys me deixa de pau duro. Morra pela música erudita, ou por essas poesias do Morrissey. Mas tenha alguma reação, pelo amor de Deus.
O que não dá é entrar na comunidade de uma porra dum chato dum James Joyce, e nêgo postar uma prova, literalmente uma prova, com excerto do livro e questões sobre a transitoriedade da voz do narrador. Isso é arte? Ou eu que tô sendo idiota e entendi tudo errado até hoje, ou isso que chamam arte não era algo pra causar sensações?
Agora me diz, que sensação existe em cerebralizar tudo que se lê, ouve, vê?; que graça tem ficar pescando metáfora, encadeamento harmônico, e sei lá o que mais?
Eu sei que graça tem: os outros baixam a bola e o interlocutor desavisado não vai ter a manha de falar meu, aquele riff me deixa de pau duro quando o primeiro, altivo, tá analisando o emprego inusitado da sexta na construção da harmonia.
Só dou um toque, na humildade: se o cara tava mesmo pensando a mesma coisa que você, se ele realmente fez conta pra escrever aquilo lá, então o cara também é um panaca que ia ser muito mais útil na livre-docência de engenharia elétrica. E, se o cara é que nem as boas pessoas que eu conheço – não me pretendo artista, mas eu escrevo, e minha mãe e namorada ainda apreciam a minha obra -, eles não pensaram em porra nenhuma disso, e provavelmente tão rindo da cara de vocês agora.
Eu não leio. Eu nem gostava de escrever, porque me forçava àquele texto de debutante. Demorou até tomar a cara de escrever do jeito que eu quero, do jeito que as coisas precisam ser escritas. Na porrada, no tempo de uma garrafa. Eu não leio, por mais que às vezes dê aquela vontade de folhear alguma coisa – e é claro que tem muita literatura boa. Eu não li os clássicos – nunca li Graciliano Ramos, Guimarães Rosa muito pouco. Nunca li nada – nada – de fora.
Paguei um pau praquele livrinho do Fabiano – mendigão mesmo -, pena que não o tenho em mãos pra citar; mas era alguma coisa assim: meu amigo falou pra mim: cara, vai ler os clássicos, Joyce, Wilde, Pirandelo… Eu li, e MEU! Aquilo me deu uma caganeira desgraçada, quase arregacei as pregas do cu. É isso que tem que ser dito, ainda que ninguém queira ouvir.
Filme pra mim, Sessão da Tarde, e olha lá – Corujão já é muito cabeça. Não conheço música erudita, jazz, bossa-nova. Que tem coisa boa, claro que deve ter. Mas é risco muito grande, você começa ouvindo um bagulho que te fisgou a atenção – quando vê, já tá discutindo aquele acorde, aquela quebra de andamento. E isso contamina. Eu sei, e já previa isso, que perdi um tesão desgraçado nos Beach Boys só de aprender o campo harmônico maior. Tira a graça, sabe. Por mais que seja útil, e que nem se consiga reproduzir um Brian Wilson sem saber ler a música dele, é difícil quase impossível fazer tua aulinha de violão e não começar a escutar os caras e enxergar na tua frente os Am7 e Edim, pululando que nem letra em videokê, coisas que até antes você ouvia e aquilo só te eriçava os pêlos. Fica tudo muito mecânico, e isso é uma merda.
Pô, eu me entrego por inteiro pra tentar escrever o que suponho que as pessoas querem ler. E talvez, tolo eu, elas leiam mesmo e gostem. E deixem escapar uma barraca armada. Mas guardam pra elas, porque o bonito é gostar da coisa poética, do sofrimento escroto, vazio, do se colocar por baixo pra sair por cima. Se algum dia, e isso não vai acontecer, dessem algum reconhecimento pro que eu escrevo, não ia tardar a me elogiarem não pela raiva ou pelo tesão que eu despertei, e sim por alguma metáfora em casca de ovo, que – juro pelo cerveja ao meu lado – nunca foi minha intenção.
Graças a Deus que, sabe-se lá por quê, ninguém comenta no meu blog, então são poucas as chances de um desses escrotos vir aqui com um calhamaço provar por A+B que meu texto não tem fundamentação lógica, porque, como disse o Andy Kaufman, I have no comeback for that.