Minha mina acha deprimente, mas eu acho é muito bonito ver um cara como o Tácito, do alto seus quase quarenta, mendigando, noite após noite, cigarro, cerveja e lugar pra dormir. Dum lado pra outro, com a indefectível pastinha de aquarelas à procura de comprador, que eu confesso nunca ter conhecido. Se dez por cento das histórias do cara forem verdade – e devem ser -, ele já viveu bem mais do que eu conseguirei viver. Já bateu, apanhou (tem que ter inimigo, né, senão a vida perde a graça), passou tempos em cana, foi procurado, fugiu pro Matogrosso, já pôs pra dentro basicamente tudo que pode ser posto pra dentro, já conheceu e se amigou de todo mundo que precisava ter conhecido e se amigado. Dormir na rua não é problema quando se deita na própria história.
A treta vai ser, depois de um período de férias altamente epifânico, voltar pro meio de 160 pretensos jornalistas querendo mudar o mundo entrevistando puta e fazenda matéria sobre trigo. De dia, claro. De noite, maconha pra uns e Acústico pra outros. Velho, sai pra rua antes, quebra a cara um pouco, vai conhecer quem quebrou a cara. É muito cômodo pegar o carro do pai, seguir pra Penitenciária e voltar com matéria de denúncia do sistema prisional – ou da merda que for.
Essa minha recente incursão pelos meandros da parte suja da cidade tem sido muito mais interessante do que qualquer protesto por equipamentos pro curso, que, sejamos sinceros, toda a burguesada lá tem dinheiro pra arranjar. E, à diferença do jornalismo tradicional, eu não vou divulgar o resultado pra ninguém. Caiam na rua e façam o mesmo, ou continuem se maquiando pruma câmera a que ninguém assiste.
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Elogio desgraçado esse da praxe condenável de se humilhar as pessoas a fim de fazê-las aprender algo. Virou moda agora, provavelmente herança desses livros de auto-ajuda pra alunos de Administração. Tem que pisar no idiota, porque só assim pra dizerem que você é bom professor. E até vira patrono de turma. Ainda me intriga o que eu deveria depreender da implicância desmesurada com o comprimento do meu cabelo – além da frustração evidente de quem tem de cobrir seu ralo capacete grisalho com uma tintura de péssimo gosto.
Parece que o pessoal esquece que o telejornalismo seguramente figura como a forma mais reles de expressão humana; que a senhora em questão doutorou-se com uma tese grandiloqüentemente infantil, inepta e mal-escrita, e com a única intenção de avolumar seu contra-cheque; que recebeu por um tempo razoável gratificações que não lhe cabiam; que seu histórico despeito com textos rebuscados só se deve a sua inabilidade semi-analfabeta de reproduzi-los. Que só trabalha nos bastidores porque nunca teve altura, beleza, carisma e uma voz feminina o suficiente pra promover-se frente às câmeras. Que seu desamor incontido não passa de reflexo do lesbianismo malogrado (lésbica não, porque, como já dizia o sábio Jess, lésbica é bonita; feia é sapata). Que não passa de uma profissional meia-boca lembrada, bem, por ninguém. Até agora – suponho inédita qualquer homenagem discente a ela.
Mas finalmente caíram no conto – décadas depois de ódio sistemático, institucionalizado e, acima de tudo, sensato, alguém finalmente caiu no conto. Uma conjuntura matematicamente improvável, contra-prova da seleção natural, conseguiu juntar um quórum que, desavivenciado, achou bonito esse negócio de apanhar. Pena que apanharam da pessoa errada. Podiam ter apanhado da polícia, e pego nojo dos porcos; podiam ter apanhado do pai, e aí não precisariam ir pra colégio construtivista; podiam ter apanhado da cerveja e da vida, e dormido na rua. Podiam ter aprendido alguma coisa de verdade.
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Eu, o Teixeira, o Tácito e o Cibié távamos discutindo assuntos correlatos quando o moleque começou a apanhar. Devia ter uns dez, onze anos, e juntaram uns dez pra espancar a criança. Sei lá se pegou pra si a grana da pinga, se fumou a nóia sozinho, ou se deu azar mesmo, mas acabou virando o espetáculo pra platéia impassível dos três botecos da redondeza. A gente, que tava descendo o pau nessas injustiças do mundo, não tinha muito o que fazer. Despedimo-nos e seguimos, cuidando pra pisar só nas pedras brancas do Calçadão.
Julho 23, 2006 às 12:39 pm |
C’est la vie… Corroboro com teu pensamento a cada vez que ouço alguém referir-se à bizarra figura como “ela pode ser o que for: mal humorada, ranzinza, chata, o que for. Mas é profissional”. À merda com o seu pretenso profissionalismo!!!
Julho 23, 2006 às 4:44 pm |
quem eh essa velha? me caguei de rir,..
Agosto 4, 2006 às 10:33 am |
Cara, este papo de curso de jornalismo me parece, as vezes, uma grande perda de tempo. O curso vai ensinar o sujeito a escrever? a olhar o mundo? a ser critico? a entender as engrenagens? se assim fosse não teríamos jornalistas maquiados no meio do trigal. Apanhadores do Campo de “Centelhas”. Acho que vc acertou em cheio ao falar desta parada. Pena que poucos pensemm assim, e que seus ideais possam ser resumidos em um crachá que ostente uma logomarca de um conglemerado jornalístico qualquer.
Grande abraço. (linkei teu blog)