Ultimamente, tenho despendido meu tempo engendrando minha guerrilha pessoal contra as vadias do primeiro e nono andar do prédio – pelo menos, é onde acredito que elas moram. As recém-desgarradas do edifício têm deixado perfume exagerado e uma exacerbada concentracão de feromônios ao deixarem o elevador, o que tem instintivamente atraído os boyzinhos do terceiro e quinto andar – pelo menos, é onde acredito que eles moram – com seus paus impúberes indiscretamente eretos. E eu, infeliz morador do décimo terceiro, sou obrigado a cumplicizar diariamente esse infindável trajeto hormonal.

Ora tenho de regressar ao meu abrigo familiar, saudavelmente retrógrado, em meio ao viadinho do quinto andar, o corpo ainda em formação – desproporcionadamente alto, os braços longos estupidamente logrados pela natureza a facilitar-lhe a punheta, entrando em seu apartamento aos gritos de cadê a mulherada? – ; ora tenho de esperar o atrasado Simão em frente à portaria ao som fugidio das raparigas do primeiro, confabulando alto, claramente aos desígnios da descoberta do corpo à espera dos primeiros pêlos.

E alimentam a tensão adolescente à beira da minha piscina, até então só minha, seja duelando num ritual aquém da comédia física, seja colocando no stereo os últimos hits do verão, numa tentativa tragicômica de conquistar as vadias do primeiro e nono andar. Eu, que só queria beber minha cerveja e pegar uma corzinha, tenho de encolher a pança ao sair d’água ante uma platéia cinco anos mais nova e dez mais malhada.

Eu só queria um pouco de respeito.

Não sei se fui cobaia duma educacão particularmente regrada, mas aprendi desde pequeno a abaixar a cabeça aos que fizeram por merecer. Não entro no Fakir sem antes acender um cigarro e agradecer a Deus pela oportunidade de aprender o que outros não puderam. Voto em quem meu pai vota, e como transgênico com gosto, porque, não obstante as desavenças históricas com meu pai e ao contrário do CCH, aprendi quando falar e quando ficar calado. Não discuto com o Fábio porque a dileção matemática de outrora me ensinou a probalidade de quebrar a cara. E não cito Beatles quando não lembro o álbum.

Tudo isso porque desde cedo aprendi a beleza da reverência. Da humildade de quem um dia também quer ser reverenciado.

Nunca pedi muito dinheiro, saúde não faço questão, tampouco espaço na coluna social. Minha única e reles ambição é um dia sair do prédio, partir pra rua, e o boyzinho do quinto falar baixinho pro seu companheiro de troca-troca, não zoa não, que esse cara é escritor. Ou que entende de música. Ou que sabe das coisas. Qualquer coisa que me aufira, um mínimo que seja, de respeito.

Tava voltando do boteco esses dias, e – virando a esquina, meia quadra de casa -, como parece ser meu fardo, passou um carrinho de boys. Berraram alguma coisa; depreendi algo sobre meu cabelo de menina. Já acostumado ao despeito alheio, levantei eucaristicamente os braços; um só tempo, a questionar a necessidade do gesto e a aceitá-los em meu coração.

Mal completaram a curva, atravessaram de fronte o portão da mansão da esquina. Do carro lotado, ouvi os gritos agonizantes e gente saindo do carro e desmaiando em meio ao sangue. Acho que morreram, ou quase. Eu, nada que tinha a ver com isso, andei o último trecho que me restava à cama. E dormi. Redimido, enfim.

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