Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: VIII – Crocodilo Dândi (resenha de jornaleco) – 2006

Quando urge a necessidade aos burros de se fazerem inteligentes, nomeiam pencas de livros, os ditos clássicos, aqueles que nos avalizam mais sabedores que os outros. Livros que ou não leram ou simplesmente o fizeram para ulteriormente citá-los quando a necessidade urge. Citações – que hoje vêm compiladas em calhamaços que encontram irrestrita apreciação entre essas espécies pedantes – das quais seus substratos são esses cretinos completamente alienados. Conhecimentos que não nutrem outra função senão a de nutrir o próprio ego.

Quando um metaleiro (sem ofensa aos metaleiros, também o sou) quer provar pra família que não é o cabeça oca que seu pai pensa ter criado, ele põe em seu som e em seu profile do orkut alguns noturnos de Chopin para celular, algumas peças de Mozart para elevador…

Mas houve um momento em particular – e logo na nossa outrora inteligente Londrina – em que se pôde gostar de música boa, refinada, sofisticada, erudita e o que mais queira, sem ter que fazê-lo à revelia, pelas aparências.

Quando Arrigo Barnabé decidiu que boa música não precisava ser chata, nesse momento Londrina conheceu um sujeito mais punk que qualquer moicano, mais headbanger que qualquer black metal profano. Que meteu orgasmos, gemidos, putas, crocodilos, fliperamas e toda espécie de material mundano numa sinfonia roqueira melhor que a quase totalidade do que já fora produzido por maestros frescos e recalcados de salão.

Com menos de 30 anos, um maconheiro porra-louca – em todas as acepções da palavra – gritava rouco sobre bases dodecafônicas, atonais e todas essas coisas eruditas que, em verdade, eu não sei muito bem como funcionam. Mas sei que ficou bom, muito bom.

Finalmente, podia-se tocar após os Ramones alguma coisa com mais de três acordes, e gostar mesmo daquilo. Ter um tesão irrefreável em algo muito mais sofisticado que aquilo que meus pais ouvem. Pra falar a verdade, eles continuam não gostando, e aparentemente até preferem a tosqueira só tosca dos Ramones à violência erudita do Arrigo. Mas não podem mais dizer que só ouço porcaria.

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