A única parte legal de se ter um blog é documentar as coisas. Quando meu filho, curioso que vai ser, vier me perguntar pai, como era a vovó? quem foi sua primeira namorada?, coisas que eu não lembrarei, não quererei lembrar, ou apenas estive muito bêbado pra lembrar, eu muito provavelmente forçarei-me ao silêncio. Mas as pequenas coisas, as mais gostosas e, sinceramente, mais importantes, ele vai acabar descobrindo sozinho, fuçando no computador. Vai descobrir que o pai já teve suas glórias, seus fracassos; já tinha sua mãe por vida há muito, muito tempo. Vai descobrir o exato post em que seu pai resolveu virar homem.
São Paulo é uma cidade que não passa desapercebida. Não pago pau pra ela, ao contrário do resto de Londrina (pra ser sincero, acho-a bem morta). Mas não se volta de lá ileso.
Graças ao bom Deus, voltei de lá melhor. Voltei sabendo o que não quero pra minha vida: não quero desperdiçar uma vida fumando maconha, não quero correr de um lado aoutro sem ter aonde chegar, não quero não conhecer as pessoas que atravessam a rua comigo, não quero ter de ganhar no grito, na camiseta, na grana. Não quero me deparar com pessoas que fazem o que faço mas melhor – sempre tem alguém -, ou que pelo menos se dão melhor no que fazem. Não quero viver num lugar em que eu não possa ser a média, e ainda assim ser o único.
Quero pra mim os mesmos dias nos mesmos lugares com as mesmas pessoas. Quero sair de calça e chinelo na rua, pra cantar com o Simão na praça, e só existirão duas vozes. Quero encontrar o Teixeira no Potiguá, e as risadas serão cúmplices como toda cumplicidade deveria ser, duas e uma só. Quero topar o Jess e o Michael na rua, nem que seja ano depois, e ainda serão o bobo mais bobo e o gordo mais gordo. Quero lembrar do Danilo toda vez que copiar uma de suas piadas, piadas que eram só suas. Quero escrever isso ouvindo Uncle John’s Band, e saber que só eu e o Fábio estamos ouvindo Uncle John’s Band.
Quero acordar, dia após dia, ao lado da minha mesma Lívia, e ela vai me acender o mesmo cigarro, dizer o mesmo eu te amo, e passar a mão na minha cabeça como não tivesse passado ontem, e dormir ao meu lado como não fosse dormir amanhã.
Quero pensar que, ainda que tenham acabado as cervejas na geladeira, amanhã outras cervejas estaram lá, e aí tudo isso fará sentido de novo.