Poema de repúdio aos que se formam em três anos e meio

Junho 30, 2006

Essa é pra você
que agora ostenta novo umbigo
Só por que tá na TV
já esqueceu do amigo?

Pois tenho novidades:
Vai trabalhar em Cidades,
depois quem sabe até uma coluna

Pode acumular fortuna
Mas ao fim do dia e da saga
(!)Não é que você também acocora e caga?!?


Junho 28, 2006

A única parte legal de se ter um blog é documentar as coisas. Quando meu filho, curioso que vai ser, vier me perguntar pai, como era a vovó? quem foi sua primeira namorada?, coisas que eu não lembrarei, não quererei lembrar, ou apenas estive muito bêbado pra lembrar, eu muito provavelmente forçarei-me ao silêncio. Mas as pequenas coisas, as mais gostosas e, sinceramente, mais importantes, ele vai acabar descobrindo sozinho, fuçando no computador. Vai descobrir que o pai já teve suas glórias, seus fracassos; já tinha sua mãe por vida há muito, muito tempo. Vai descobrir o exato post em que seu pai resolveu virar homem.

São Paulo é uma cidade que não passa desapercebida. Não pago pau pra ela, ao contrário do resto de Londrina (pra ser sincero, acho-a bem morta). Mas não se volta de lá ileso.

Graças ao bom Deus, voltei de lá melhor. Voltei sabendo o que não quero pra minha vida: não quero desperdiçar uma vida fumando maconha, não quero correr de um lado aoutro sem ter aonde chegar, não quero não conhecer as pessoas que atravessam a rua comigo, não quero ter de ganhar no grito, na camiseta, na grana. Não quero me deparar com pessoas que fazem o que faço mas melhor – sempre tem alguém -, ou que pelo menos se dão melhor no que fazem. Não quero viver num lugar em que eu não possa ser a média, e ainda assim ser o único.

Quero pra mim os mesmos dias nos mesmos lugares com as mesmas pessoas. Quero sair de calça e chinelo na rua, pra cantar com o Simão na praça, e só existirão duas vozes. Quero encontrar o Teixeira no Potiguá, e as risadas serão cúmplices como toda cumplicidade deveria ser, duas e uma só. Quero topar o Jess e o Michael na rua, nem que seja ano depois, e ainda serão o bobo mais bobo e o gordo mais gordo. Quero lembrar do Danilo toda vez que copiar uma de suas piadas, piadas que eram só suas. Quero escrever isso ouvindo Uncle John’s Band, e saber que só eu e o Fábio estamos ouvindo Uncle John’s Band.

Quero acordar, dia após dia, ao lado da minha mesma Lívia, e ela vai me acender o mesmo cigarro, dizer o mesmo eu te amo, e passar a mão na minha cabeça como não tivesse passado ontem, e dormir ao meu lado como não fosse dormir amanhã.

Quero pensar que, ainda que tenham acabado as cervejas na geladeira, amanhã outras cervejas estaram lá, e aí tudo isso fará sentido de novo.


Excerto (ainda) sem guarida

Junho 22, 2006

“Carregava o semblante uma beleza exótica. Ou uma feiúra comum”


A verdade do Dead (ou texto pra fazer média com meu amigo Fabão) – resenha pra jornaleco

Junho 22, 2006

Penei muito até descobrir que não era música aquilo que eu acreditava gostar. Eu, cético antes mesmo de aprender a soletrar agnosticismo, descubro tardiamente que gostava mesmo era da espiritualidade das coisas.

Todas as religiões e posturas introspectivas se assentam ora sobre o amor, ora sobre o ódio, ora sobre o diálogo de ambos – e aí se plenificam no mais precioso momento humano: a transcendência.

Musicalmente, isso fica explícito em mantras, gregorianedades, new ages e afins, ou, de maneira mais sutil, em Brian Wilson ou no Floyd.

Mas é legal ouvir essa experiência religiosa inserida num ritual coletivo, nada tribal, muito mais afeito a práticas pecaminosas do que propriamente ascéticas. E é legal ver que drogas, sexo e guitarras às vezes têm muito mais Deus que o coro desajeitado da igreja.

Os mandamentos do Grateful Dead pouco ou nada deviam se assemelhar aos católicos, mas isso não os impediu de trazer ao chão e à epiderme algo de além-mundo.

O Dead, seguindo à risca os ensinamentos do papa Brian, fazia música para os outros sorrirem. E só sorri quem acredita. Jerry Garcia e seus comparsas, muito antes de encadear harmonias e sobrepor vozes, sorriam. E acreditavam. E, naquele instante, era só isso que importava.


Cantinho epistemológico

Junho 21, 2006

“A vida é um 307
às seis e meia da tarde”


Poema vagabundo de métrica questionável acerca de dileções musicais ainda mais questionáveis

Junho 20, 2006

Às vezes, bebo um pouco mais
e fico bêbado iânque

Então eu viro punk
e deixo o media player estanque
numa música dos Ramones

E chego a dizer que Grateful Dead
é melhor do que Stones.


Hai Kai assimétrico de inauguração dum blog e duma vida que deixaram a eloqüência pra trás

Junho 20, 2006

Corpo e alma
Indissociavelmente
Porco e lama


Junho 20, 2006

Nove. Nove as coisas que guardei em 21 anos. Uma média medíocre


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: IX – Elogio do Desgosto (deste eu me orgulho) – 2005

Junho 20, 2006

De repente, e não mais do que súbito, todo mundo ama a arte. Não é à toa que este jornal só trata disso. Não vou dizer que odeio a arte, sob pena de ter minha matéria extirpada desta edição [originalmente, a matéria avolumaria o jornaleco da sala]. Mas é basicamente isso mesmo. Há quem considere ilegítimo meu repúdio, e o tenha por sanha em ser diferente, do contra. Estranho – parece-me então já ter passado o tempo em que produzir ou mesmo ser um diletante da arte tomava uma certa erudição e sensibilidade fora do comum.

Mas hoje me sinto forçado a me deixar envolver por obras que nada me transmitem.

E de repente, não mais do que súbito, todo mundo é eclético. E aí começo a ter certeza de que devo realmente ser muito fresco. Pois veja: literatura me angustia, poesia sempre me soou afetada, duas horas dentro do cinema me entendiam, pinturas só me parecem pertinentes adornando salas de estar, e tenho pra mim que esculturas e monumentos em praça pública encontram suas mais sinceras apreciações depois do almoço das pombas.

Não me sinto bem sendo um desgostoso da arte, e isso não é justo. Sempre fico tenso em época de Filo, quando chegam os panfletinhos com a programação, que em minutos se tornam cartelas de bingo, cada um disputando quem assinala mais peças a que pretende assistir. Esse recente festival de literatura também me deixou desconcertado – no único momento em que me propus a prestigiar algo (um desses caras que faz uma música legal), o corredor polonês de pseudopoetas, pretensos eruditos e deslumbrados de plantão me constrangeu a abandonar o lugar. Minto, fiquei ainda um pouco, pelo pão com patê de graça.

Meoculpo-me: às vezes gosto de ouvir música. Mas também não forcemos a barra: ouço o rock, e olha lá. E mesmo assim, só uma ou outra coisa. Não me vejo apto a me arrogar gosto pela arte quando me apetece apenas uma ínfima parcela de um gênero pouco representativo dentro de apenas uma das artes. Claro, já fui adolescente pedante – comprei um monte de livros em sebos de uma tacada só; li meia dúzia e abandonei. Certa feita, peguei um livro de mesa de centro com gravuras do Picasso, mas achei tudo muito feio e torto. Descobri então uma locadora que locava 3 filmes por 3 reais, e aluguei uns 15 clássicos – sei hoje que aqueles quinze reais encontrariam melhor guarida em quatro vinhos da Adega, e ainda sobraria um de troco.

Até na música já tentei me aprofundar. Roubei do meu pai, tempos atrás, uns vinis do João Gilberto. Mas acabei perdendo um amigo por sugerir inocentemente a semelhança timbrística daquele com o Zacarias – ou Tiririca, me falha a memória.

Admito meus sucessivos fracassos em tentar ser uma pessoa melhor, mas acho que me sinto mais satisfeito pequeno assim.


Seção Resgate de textos pregressos de que não nutro (tanta) vergonha: VIII – Crocodilo Dândi (resenha de jornaleco) – 2006

Junho 20, 2006

Quando urge a necessidade aos burros de se fazerem inteligentes, nomeiam pencas de livros, os ditos clássicos, aqueles que nos avalizam mais sabedores que os outros. Livros que ou não leram ou simplesmente o fizeram para ulteriormente citá-los quando a necessidade urge. Citações – que hoje vêm compiladas em calhamaços que encontram irrestrita apreciação entre essas espécies pedantes – das quais seus substratos são esses cretinos completamente alienados. Conhecimentos que não nutrem outra função senão a de nutrir o próprio ego.

Quando um metaleiro (sem ofensa aos metaleiros, também o sou) quer provar pra família que não é o cabeça oca que seu pai pensa ter criado, ele põe em seu som e em seu profile do orkut alguns noturnos de Chopin para celular, algumas peças de Mozart para elevador…

Mas houve um momento em particular – e logo na nossa outrora inteligente Londrina – em que se pôde gostar de música boa, refinada, sofisticada, erudita e o que mais queira, sem ter que fazê-lo à revelia, pelas aparências.

Quando Arrigo Barnabé decidiu que boa música não precisava ser chata, nesse momento Londrina conheceu um sujeito mais punk que qualquer moicano, mais headbanger que qualquer black metal profano. Que meteu orgasmos, gemidos, putas, crocodilos, fliperamas e toda espécie de material mundano numa sinfonia roqueira melhor que a quase totalidade do que já fora produzido por maestros frescos e recalcados de salão.

Com menos de 30 anos, um maconheiro porra-louca – em todas as acepções da palavra – gritava rouco sobre bases dodecafônicas, atonais e todas essas coisas eruditas que, em verdade, eu não sei muito bem como funcionam. Mas sei que ficou bom, muito bom.

Finalmente, podia-se tocar após os Ramones alguma coisa com mais de três acordes, e gostar mesmo daquilo. Ter um tesão irrefreável em algo muito mais sofisticado que aquilo que meus pais ouvem. Pra falar a verdade, eles continuam não gostando, e aparentemente até preferem a tosqueira só tosca dos Ramones à violência erudita do Arrigo. Mas não podem mais dizer que só ouço porcaria.