Não digo que adiro hoje ao status quo – não o digo pela defecção do verbo. Mas, sim, me entrego agora a um mundo de conformes, etiquetas, sim, senhor, mui grato, volte sempre. De polidezes às quais devo logo me adequar.

Das coisas que devem ser ditas mas também das que devem ser caladas. Não ofendamos ninguém.

Empreendo e contemplo minha transição na maior da lucidez. É meio que entregar os pontos ou me antecipar à rememoração jocosa que breve sustentarei da minha adolescência por demais prolongada.

Meio que. Não o faço à revelia – não me levem a mal. É que ainda estou me acostumando à idéia. Vá lá, não negaria uma saideira a essa mente pueril, ainda inocente das vilezas do mundo. Mas há de ser agora. It has to be done - bonito em inglês, num tom pomposo.

Tempo é dinheiro, sabem como é, e já devo ter deixado passar muita grana nessa brincadeira de revolta. Começando agora, farei de minha encarnação cênica do atendente de call-center meu Hamlet pessoal na dinâmica de grupo – minha qualidade será a perseverança; meu defeito, o perfeccionismo; falarei em otimização ou dedicação full time, tudo no devido gerúndio, e piscarei o cantinho do olho pro chefe – vestirei a camisa da empresa, senhor.

Passei os últimos dias na cama, semi-morto, no que me pude fazer absorto em meus pensamentos. Limpei quarto, pulmões e fígado, organizei o computador, preparei o terreno para uma vida doravante correta. Enfim sóbrio, depois de um ano de ininterrupta ebriedade, pude dar ouvidos aos que sabiamente me atentavam para o desvio da trajetória a ser percorrida.

Boas pessoas, como minha professora Neusa. Hoje vejo quanto fui injusto no sem-número de palavras sem Deus que desferi a ela durante nossa relação. Entendo agora que a prática diuturna de humilhação que me é dirigida sempre foi de altruísmo além-humano. Em seu tributo, devotarei meu resto de vida à seriedade e à eficiência – serei um jornalista! Darei a ti, Neusa, o que nunca pôde ser em vida, do alto de seu 1m15cm, injustamente atribuídos por nosso sórdido Senhor: aparecerei em frente às câmeras, naturalmente o único mérito, a ambição máxima de qualquer vivente. Ético, imparcial, trabalhador, engajado – hei de sê-los por todo. Para, no fim, aparecer, cabelo curto e terno aprumado, na tela da TV e informar o cidadão – ah, a glória! Começando agora, serei jornalista, homem digno; despirei-me dos maneirismos frívolos – hei de apegar meus textos somente ao necessário – à informação e a eficiência. Que me custe os brios, hei de fazê-lo!

Qual exemplo maior de sacrifício beato que não o de uma mulher que, em nome do jornalismo, deixa-se entregar ao lesbianismo frustado, à frugalidade amorosa, às inimizades gratuitas, a uma vida de tristeza e solidão. Tudo em nome do jornalismo. Que me custe tudo isso, serei o maior dos profissionais.

Nem que seja vendedor do shopping. Me deixarei subjugar aos desmandos de chefes e gerentes – porque a hierarquia está lá pra ser cumprida.

Cerveja, só no happy hour e com meus colegas de trabalho. Mas só uma beliscadinha.

Uma resposta para “”

  1. calsavara Disse:

    Já emplacaste logo de cara um belo texto. Parabéns e vida longa ao Cena Rock!!!

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