Rainha da Exposição (ou Sobre a Civilização Moderna)

março 21, 2008

Este texto claramente é uma ficção. Qualquer semelhança com fatos reais não passará de mera coincidência. Por favor não venham me bater, processar ou atropelar

Você surgirá aos olhos de todos; a música sertaneja – que lhe foi entregue a decorar – súbito será eclipsada, como prenunciado, pelo balançar das jóias da platéia. Um passo pra lá, dois pra cá, gira, rebola e volta, e seu trabalho por hoje acabou. Nos bastidores, contam-se os saquinhos de pão estufados de grana.

Seu pai caprichara na oferta, e o presente de debutante está garantido. A faixa desliza ao encontro de seu tórax impúbere, e você, quem diria, agora Rainha da Exposição. Sua amiga ao lado não se pode queixar. Adentrou o rosto inchado à passarela, o vexame de quem inadvertidamente gastara a oferta do pai em carolinas de doce-de-leite do Mister Cuca. Como saberia que tal desventura hipercalórica lhe conferiria o título de Miss Simpatia?

Hoje você dirá ao microfone da colunista social ai, é uma grande emoção… estar aqui no meio dessa gente linda e importante já é uma honra, né, Paula… (e a promotora do evento, atrás da câmera, sussurrará: é Olívia, Olívia!) e você dirá: Lívia… Então ela perguntará pra você o que representa para você o título de Rainha da Exposição? E nessa hora fugirão à sua memória as sessões de adestramento, que a tanto custo encontraram uma lacuna em meio ao francês e à aeróbica; um lépido desespero sobrevirá, mas não se abata. A assessora se adiantará e apontará um panfleto no qual se lê responsabilidade social e você dirá é uma grande responsabilidade social, enquanto Rainha da Exposição, e… éé… (assessora: representar a Sociedade Rural!) estar representando a Sociedade Rural de Londrina e a população dessa cidade linda do nosso Estado e… éé… (assessora: convida pro evento!) e gostaria de convidar todos vocês a presti… pres… prestigiarem a Exposição de Londrina e… éé… (assessora: agradece e sai!) e é isso aí, Paula, quero ver todos vocês lá. Obrigada.

E Olívia, virando à câmera, nos lembrará que foi uma honra conversar com a nova Rainha da Exposi… o alívio a envolverá enquanto afasta-se a dar lugar à madame de quádrupla idade à sua e semelhante eloqüência. E não é algo a se deixar embaraçar, se você não nasceu para falar, e sim para brilhar, filha – como mamãe sempre sublinhara.

Amanhã você, mamãe e vovó – papai foi se encontrar com um vereador e logo volta – assistirão à sua eminente aparição na TV e, pelo telefone, secretárias de construtoras, sociedades rurais e associações comerciais transmitirão as felicitações de seus patrões – que não puderam falar, pois estão se encontrando com um vereador.

Findo o programa, você irá ao colégio. Assistirá às aulas e, durante o recreio, sentará no seu banco de sempre, banco reservado aos filhos de construtoras, sociedades rurais e associações comerciais. Ao longe, verá aquele garoto que sempre lhe despertou curiosidade – bonito, articulado e, principalmente: munido da mais espinhosa indiferença à sua silhueta e sobrenome. Evidentemente, era endinheirado – a estudar no mesmo colégio -, mas lhe carecia à ascendência uma construtora, ou uma sociedade rural. Donde reservará a ele apenas os olhares furtivos de sempre.

Ao toque do sinal, você irá embora acompanhada de um colega do seu banco, ainda que lhe faltem três anos o direito à direção de seu Audi – nada que o sobrenome de construtora não resolva. Combinarão, antes de você subir à sua cobertura, um programa para esta noite. E nesta noite, vocês pagarão à boate que ostenta o sobrenome de outro amigo do banco do colégio os cinqüenta reais que, permitindo a vocês entrar, impedirão aqueles indesejados. Os dois goles da garrafa de vodka vendida pela casa à sexta potência do preço pela qual fora adquirida desimpedirão seu impulso de rechaçar o avanço de seu colega ao seu corpo até então virginal.

Neste fim de semana, você ligará para sua amiga Miss Simpatia e, aos prantos, colocará em questão a lucidez do ato de ontem. Ela, do largo de sua cintura, a invejará e a convidará para assistir um filme. Debaixo do cobertor e munida de pipoca, você sucumbirá à fantasia de sua comédia romântica, e lembrará o mocinho do final feliz ao garoto que você via ao longe no colégio. E questionará sua própria idéia de plenitude – tudo dentro das limitações intelectuais impostas por seu sobrenome.

Mas a ilação se esvairá ao toque do telefone celular, convocando-lhe à festa de coroação de Rainha na mesma boate de ontem. E ao ser clicada pelo assessor da construtora, ao lado do filho do patrão, incorrerá novamente no erro. E, desta feita, consumarão no banco de trás do Audi o que o padre da igreja que sua mãe freqüenta nos últimos domingos dos meses pares havia proibido.

Os próximos dois meses ocuparão sua consciência, primeiramente, de sentimentos de culpa e instintos de auto-flagelação; em um segundo momento, a idéia de conjugar e hifenizar dois sobrenomes de tamanha proeminência lhe parecerá bastante atraente; por fim, somados deveres sociais e sublimações de culpa, ficarão juntos – numa ilusão auto-imposta bastante lucrativa.

Mas não por muito tempo. Três meses contando de hoje, à temporada de exames no colégio se somará mais uma preocupação. Seu namorado irá, no trajeto de volta da boate que não mais ostentará o sobrenome de seu colega de banco – devido à uma parceria firmada com o pai de outro sobrenome de colega de banco -, furar o sinal de alguma avenida central, morrendo ele e a menina que levava no carona.

Você receberá a notícia pouco antes de entrar na prova; a realizará rapidamente, para então se juntar ao coro de prantos que envolve o pátio do colégio. Você se trajará Rainha a fazer as honras do velório.

Eventualmente, esse episódio será esquecido; e um sobrenome novo, de construtora moderna de condomínios fechados, adornará seus braços na foto da coluna social, a celebrar o ingresso e promissor futuro da ex-Rainha da Exposição nos bancos do curso de direito da Unopar.

Ao longo do curso, você restabelecerá sua amizade com sua amiga Miss Simpatia, que, sete plásticas depois, comandará a loja de roupas de etiquetas com nomes famosos, erigida como presente de sua mãe, ao repetidamente constatar a desarmonia da filha com o mundo acadêmico.

Seu pai, por sua vez, a presenteará com um estágio num escritório de advocacia de três sobrenomes ilustres. Presenteará também três sobrenomes ilustres com um saco de pão de conteúdo deveras generoso, a fim de não sobrecarregá-la de trabalho.

Você se formará com láureas televisivas, e um saquinho de pão triplamente generoso inaugurará o quarto sobrenome na fachada do escritório. O casamento, meses depois, assegurará o esforço de três sobrenomes na absolvição de seu sogro, acusado injustamente de uso da construtora para lavagem de dinheiro advindo do tráfico de armas e drogas.

De volta da lua-de-mel em Miami, você será agraciada por seu sogro com uma casa em um de seus condomínios fechados, como retribuição pela absolvição. Lá passará alguns dos melhores anos da sua vida, podendo enfim circunscrever sua vida às amigas de sobrenome que habitam o condomínio. Sem indesejados por perto, aproveitará as festas de confraternização do empreendimento, regadas a apresentações in persona de antigos intérpretes da MPB, para se eleger, unanimemente, presidente da Sociedade de Amigos do Museu Histórico da cidade.

Na transmissão de posse de sua prolífica legislatura, você será lembrada por seus pares em frente às câmeras pela notória habilidade em organizar jantares e bailes de refinadíssimo gosto – tudo em nome do Museu.

Mas não acabará por aí sua proeficência social-administrativa. Algumas intervenções cirúrgicas não invasivas e diversas injeções de toxina botulímica depois, a ascendência familiar mui orgulhosa do cruzamento puro de belos sobrenomes atravancará a ação do tempo. Aos 60 anos, a coluna social trocará os esbelta e jovial dos tempos de Rainha por um sofisticado elegantíssima senhora. E com esta alcunha será anunciada sua ascensão à presidência da ilustre Associação das Mulheres de Negócios da cidade, de onde sairá largamente exaltada nas páginas da coluna social por sua magistral condução de bailes e jantares em nome da Associação.

Na sua festa de 65 anos, amplamente antecipada por seus colegas de sobrenome, você será elogiadíssima pela estrutura de primeiro mundo montada em sua chácara. Em meio às andanças pelas rodas, a contemplar os convidados com suas ferozes críticas ao governo popular e com a acuidade de sua visão empresarial, seu olhar se deterá. Para longe, bem longe de suas amigas de sobrenome, alguma coisa lhe trará para cinqüenta anos antes. E você lembrará daquele garoto do colégio; aquele que nunca se deixou levar pela sua idéia de plenitude. E você pensará se teria sido tudo mais difícil, conquanto muito melhor, se tivesse atravessado o pátio a perguntar o sobrenome dele.

Mas provavelmente não. E você se voltará à colunista social que fará a cobertura de seu evento, sucedendo ao microfone a recém-eleita Rainha da Exposição.


fevereiro 29, 2008

Me peguei – decubitado no sofá, a cara enfiada contra a almofada – tentando dissociar os pensamentos da condução imanente do apresentador de jornal. A mesma posição de ontem e de antes de antes de ontem, à mesma hora, em volta das mesmas pessoas, que, ao meu contrário, fizeram algo diverso nas primeiras e médias horas do dia.

Me peguei à procura da lembrança do momento em que assimilei esse destino como meu mesmo. Consigo discernir, de maneira suficientemente clara, uma série de episódios protagonizados por um eu altivo, amistoso, loquaz – falastrão até. Guardo diversas boas lembranças da universidade: conversas em roda no recreio, piadas em sala de aula, cigarros solitários – solitários por opção – vagando pelo campus matutinamente deserto. Apresentando músicas de minha dileção na rádio, pontuados – pelo menos, na minha lembrança – por comentários bem-humorados. O começo do presente namoro, pleno de boas incertezas e de brilhos que, diziam, desenhavam meus olhos.

Não sei dizer o que passava pela minha cabeça então – sei, contudo, que nada disto habitava meus prognósticos.

Passadas essas cenas, a clareza se enuvia, e já não consigo situar meu desprendimento. Não que me envolva em amnésia – as ocasiões, as lembro. A sombra se põe à hora aquela em que deixei de acreditar. Lembro pormenorizadamente da seqüência de eventos de um dia em que não atentei ao ocaso.

Ontem, no bar, meu pé inclinou-se sensivelmente à direita, e a tira do chinelo rebentou. Tive vontade de chorar. Não sucumbi aos prantos pela imbecilidade que envolveria a situação. Mas aquele chinelo… aquele chinelo era tudo que me restava. Hoje eu vou encontrar minha namorada de tênis, e ela vai encontrar um cara que, de tênis, só tem o passado. Ela fingirá que não viu, e eu me recolherei ao silêncio.

Minha namorada e alguns amigos insistem pra que eu volte a escrever. Dizem gostar; por certo, só querem proteger minha sanidade. De uma maneira ou outra, é digno. Não digo que não penso nisso constantemente. E não havia tentado, até agora.

Entretanto, esforços assim, esparsos e queixosos, não surtirão fruição aos amigos, tampouco descanso à minha mente. O que preciso é de algo que justifique e, sobretudo, dignifique uma vida de descaminhos. Algo grande.

Já tenho um arcabouço. Para além dos chinelos, eu tinha uma última coisa. Uma grande frase. Roubada, confesso. Mas guardo a ela uma serventia única. No entanto, não posso simplesmente desperdiçá-la aqui. Ressoa há épocas em minha cabeça, mas a ela resguardarei o devido momento. Tempo próximo do fim – porque, daí para frente, não me restará mais nada.


Londrina III – Cena de Sangue

janeiro 4, 2007

Essa cidade tem muito do cara tá ali, sossegado… de repente, uma cadeirada, e a roupa encharca de sangue.

Essa cidade é cheia dessas coisas. Parece que tá morta, avenida vazia, e de repente uma cadeirada e a roupa encharcada de sangue. Você fica ali meio que sem saber o que fazer, e não tem acorde que durma embaixo do pedido de socorro do cara -
liga pra polícia, liga pra polícia… Meio grandeza, meio pequenez, liga pra polícia, mas também sai fora correndo.

Hoje, sete, oito cabeças vão dormir pensando nisso. Amanhã, sete, oito cabeças vão acordar com a cabeça em outro lugar.


Londrina II – Chuva

outubro 5, 2006

Essa cidade tem muito da gente falar me deixa aqui, tá tranqüilo. E mija na primeira tendinha que aparece, e a água da chuva leva o mijo pro esgoto, e tudo acaba por ali mesmo.

E vai indo, desencanado dos poucos carros que ainda insistem, e cambaleia pela rua com os braços pro ar, com a certeza de ser o único idiota a andar com os braços pro ar nessa hora, nessa chuva.

Essa hora na cidade tem muito de ser só sua. De poder assobiar qualquer melodia improvisada e ninguém tá nem aí. Esse negócio de pegar chuva virou muito clichezão, mas às vezes purifica mesmo.

E o último cigarro te acompanha até em casa, e a cidade adormecida passa aquela sensação de dever cumprido. E o porteiro puxa uma conversa, e aquela respostazinha malandra, aquela saída com estilo faz o dia. Amanhã, com ressaca, sem ressaca, com chuva ou sem chuva, a cidade vai levando o dela. A rua mais suja e a cabeça mais limpa.


Londrina – Sol

outubro 4, 2006

Essa cidade tem muito da gente se perder por aí. De parar na esquina, olhar pra trás e ver se o guardinha vai multar alguém. De às vezes parar de correr, e se esconder no vão da parede pra assustar um conhecido. Sempre tem algum conhecido andando pela cidade.

É reconfortante não ir nos lugares por obrigação. Parar no boteco não porque precisa tomar uma cerveja, mas como se pararia pra cumprimentar um camarada. Porque meia horinha não vai arruinar sua agenda. Não por aqui.

Pode parecer bobeira, mas essa cidade nunca expulsou ninguém – trouxas os que vivem na iminência de São Paulo.

Essa cidade tem muito de família, de gritar, fechar a cara e ameaçar, mas no fim sempre acaba arranjando um lugarzinho. Aqui eu tenho certeza que nunca vou precisar de renda fixa, mestrado e doutorado e terno alinhavado. Pode não ser o que ela queria, mas ela sempre vai me descolar uma cervejinha quando o dia amanhece – se é o que eu quero, se é isso mesmo. Ela entende.


setembro 22, 2006

Eu não estou disposto a pagar o preço. E, quando ele me disse que iria até o fim, eu entendi que nunca estive disposto a pagar o preço. Os preços, do que bem queira, estão em todo lugar – as etiquetas no supermercado, os natimortos num pote de conserva no verso do cigarro.

Mas nunca fizera o orçamento da minha vida. E foi isso que me salvou; em cima da hora, ali – assinando a primeira prestação dum destino aberto à facão por todos que o trilharam antes de mim, e que agora me puxavam absortos à mesma merda.

Minha descida é com corda, com a segurança de me puxarem de volta quando o fundo não for chão. Guardo minha admiração em quem erra por terreno movediço, mas mantenho seguro meu porto.

É bom que meu texto não agrade; sei que nunca vou poder lhe confiar a saideira. E me levo sozinho. Assim não herdo nada. Principalmente, não lego nada. Nunca beberam comigo quando eu bebi sozinho.


setembro 13, 2006

Não vou perder tempo falando mal de cinema, literatura e correlatos. Tenho pra mim que são coisas verdadeiramente repugnantes, e azar de quem diz que gosta.

Mas é engraçado o gosto que eu gradualmente perdi pela música. Assim como todos os afiliados ao orkut, eu já tive meus tempos de amo música, não vivo sem ela. Mas hoje em dia só ouço o que toca na rua e no carro, sendo que neste caso só serve à função de exponenciar seu volume ao me aproximar da Casa da Cachaça, tão-somente pra irritar seus freqüentadores.

E o foda é que eu sei que eu deixei de ouvir música porque os outros também ouvem. É patético mesmo, eu admito. Hoje me peguei – e só me atinei disso agora – respondendo a um cara que me perguntara se me afeiçoava a determinada banda: não – por quê? – porque fulano gosta.

A única coisa que ainda me pega pelos culhões são essas malditas pérolas pop. Desde pequeno, sempre tive uma afetada e brega predileção por coisas coloridas – arco-íris e caixas de lápis de cor cromaticamente ordenadas.

E toda pérola pop é colorida. Nunca gostei de blues por ser preto, jazz azul-marinho, música erudita branca. E nem vou tanger a questão do cromatismo aplicado à teoria musical, que eu ainda estou no primeiro semestre de violão e não sei o que é isso. Mas uma coisa é certa: Good Vibrations tem todas as cores da cartela, assim como Uncle John’s Band ou Penny Lane.

Neste momento em particular, é Care of Cell 44, do Zombies, que habita o repeat do Winamp. Nada que já não tenha sido descoberto por todos os afiliados ao orkut, mas não nego que fiquei feliz da vida de conhecê-la ontem.

É muito bom esse negócio de catarse em três minutos e meio; mais ou menos o mesmo efeito que a benzina nos dava adolescentes – também deixava tudo colorido e durava três minutos e meio.

Eu quero um dia compor uma pérola pop; aí eu descanso, e meu filho vai se defender no colégio: a gente pode ser pobre, mas meu pai compôs aquela música. E, no obituário do JL, vai sair: morreu desempregado o autor daquela música, aquela pérola pop.

Não existem obras geniais. Existem pessoas geniais, que, em decorrência da sua genialidade, lançam obras geniais.

Obras são indissociáveis de seus autores. Eu não consigo rir de pessoas das quais eu não gosto. E acredito que qualquer pessoa com um mínimo de dignidade faria o mesmo. A melhor piada possível não tem graça alguma num idiota. Então por que uma obra plena de méritos musicais seria genial na mão de um cretino? Seria apenas uma obra plena de méritos musicais – nada além.

Ou você adota uma postura coerente com a genialidade – insuportabilidade, reclusão, extravagância –, ou será apenas mais um.

Por isso que Brian Wilson é o cara. Não fosse seu histórico de esquizofrenia patológica que não convém detalhar aqui, seu cancioneiro seria só um cancioneiro fudido, assim como o do Paul McCartney, que não é gênio porque é, em última instância, um borsa.

Mas, como sempre, isso é só uma opinião errada. Não precisa dar de dedo na minha cara.


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