Este texto claramente é uma ficção. Qualquer semelhança com fatos reais não passará de mera coincidência. Por favor não venham me bater, processar ou atropelar
Você surgirá aos olhos de todos; a música sertaneja – que lhe foi entregue a decorar – súbito será eclipsada, como prenunciado, pelo balançar das jóias da platéia. Um passo pra lá, dois pra cá, gira, rebola e volta, e seu trabalho por hoje acabou. Nos bastidores, contam-se os saquinhos de pão estufados de grana.
Seu pai caprichara na oferta, e o presente de debutante está garantido. A faixa desliza ao encontro de seu tórax impúbere, e você, quem diria, agora Rainha da Exposição. Sua amiga ao lado não se pode queixar. Adentrou o rosto inchado à passarela, o vexame de quem inadvertidamente gastara a oferta do pai em carolinas de doce-de-leite do Mister Cuca. Como saberia que tal desventura hipercalórica lhe conferiria o título de Miss Simpatia?
Hoje você dirá ao microfone da colunista social ai, é uma grande emoção… estar aqui no meio dessa gente linda e importante já é uma honra, né, Paula… (e a promotora do evento, atrás da câmera, sussurrará: é Olívia, Olívia!) e você dirá: Lívia… Então ela perguntará pra você o que representa para você o título de Rainha da Exposição? E nessa hora fugirão à sua memória as sessões de adestramento, que a tanto custo encontraram uma lacuna em meio ao francês e à aeróbica; um lépido desespero sobrevirá, mas não se abata. A assessora se adiantará e apontará um panfleto no qual se lê responsabilidade social e você dirá é uma grande responsabilidade social, enquanto Rainha da Exposição, e… éé… (assessora: representar a Sociedade Rural!) estar representando a Sociedade Rural de Londrina e a população dessa cidade linda do nosso Estado e… éé… (assessora: convida pro evento!) e gostaria de convidar todos vocês a presti… pres… prestigiarem a Exposição de Londrina e… éé… (assessora: agradece e sai!) e é isso aí, Paula, quero ver todos vocês lá. Obrigada.
E Olívia, virando à câmera, nos lembrará que foi uma honra conversar com a nova Rainha da Exposi… o alívio a envolverá enquanto afasta-se a dar lugar à madame de quádrupla idade à sua e semelhante eloqüência. E não é algo a se deixar embaraçar, se você não nasceu para falar, e sim para brilhar, filha – como mamãe sempre sublinhara.
Amanhã você, mamãe e vovó – papai foi se encontrar com um vereador e logo volta – assistirão à sua eminente aparição na TV e, pelo telefone, secretárias de construtoras, sociedades rurais e associações comerciais transmitirão as felicitações de seus patrões – que não puderam falar, pois estão se encontrando com um vereador.
Findo o programa, você irá ao colégio. Assistirá às aulas e, durante o recreio, sentará no seu banco de sempre, banco reservado aos filhos de construtoras, sociedades rurais e associações comerciais. Ao longe, verá aquele garoto que sempre lhe despertou curiosidade – bonito, articulado e, principalmente: munido da mais espinhosa indiferença à sua silhueta e sobrenome. Evidentemente, era endinheirado – a estudar no mesmo colégio -, mas lhe carecia à ascendência uma construtora, ou uma sociedade rural. Donde reservará a ele apenas os olhares furtivos de sempre.
Ao toque do sinal, você irá embora acompanhada de um colega do seu banco, ainda que lhe faltem três anos o direito à direção de seu Audi – nada que o sobrenome de construtora não resolva. Combinarão, antes de você subir à sua cobertura, um programa para esta noite. E nesta noite, vocês pagarão à boate que ostenta o sobrenome de outro amigo do banco do colégio os cinqüenta reais que, permitindo a vocês entrar, impedirão aqueles indesejados. Os dois goles da garrafa de vodka vendida pela casa à sexta potência do preço pela qual fora adquirida desimpedirão seu impulso de rechaçar o avanço de seu colega ao seu corpo até então virginal.
Neste fim de semana, você ligará para sua amiga Miss Simpatia e, aos prantos, colocará em questão a lucidez do ato de ontem. Ela, do largo de sua cintura, a invejará e a convidará para assistir um filme. Debaixo do cobertor e munida de pipoca, você sucumbirá à fantasia de sua comédia romântica, e lembrará o mocinho do final feliz ao garoto que você via ao longe no colégio. E questionará sua própria idéia de plenitude – tudo dentro das limitações intelectuais impostas por seu sobrenome.
Mas a ilação se esvairá ao toque do telefone celular, convocando-lhe à festa de coroação de Rainha na mesma boate de ontem. E ao ser clicada pelo assessor da construtora, ao lado do filho do patrão, incorrerá novamente no erro. E, desta feita, consumarão no banco de trás do Audi o que o padre da igreja que sua mãe freqüenta nos últimos domingos dos meses pares havia proibido.
Os próximos dois meses ocuparão sua consciência, primeiramente, de sentimentos de culpa e instintos de auto-flagelação; em um segundo momento, a idéia de conjugar e hifenizar dois sobrenomes de tamanha proeminência lhe parecerá bastante atraente; por fim, somados deveres sociais e sublimações de culpa, ficarão juntos – numa ilusão auto-imposta bastante lucrativa.
Mas não por muito tempo. Três meses contando de hoje, à temporada de exames no colégio se somará mais uma preocupação. Seu namorado irá, no trajeto de volta da boate que não mais ostentará o sobrenome de seu colega de banco – devido à uma parceria firmada com o pai de outro sobrenome de colega de banco -, furar o sinal de alguma avenida central, morrendo ele e a menina que levava no carona.
Você receberá a notícia pouco antes de entrar na prova; a realizará rapidamente, para então se juntar ao coro de prantos que envolve o pátio do colégio. Você se trajará Rainha a fazer as honras do velório.
Eventualmente, esse episódio será esquecido; e um sobrenome novo, de construtora moderna de condomínios fechados, adornará seus braços na foto da coluna social, a celebrar o ingresso e promissor futuro da ex-Rainha da Exposição nos bancos do curso de direito da Unopar.
Ao longo do curso, você restabelecerá sua amizade com sua amiga Miss Simpatia, que, sete plásticas depois, comandará a loja de roupas de etiquetas com nomes famosos, erigida como presente de sua mãe, ao repetidamente constatar a desarmonia da filha com o mundo acadêmico.
Seu pai, por sua vez, a presenteará com um estágio num escritório de advocacia de três sobrenomes ilustres. Presenteará também três sobrenomes ilustres com um saco de pão de conteúdo deveras generoso, a fim de não sobrecarregá-la de trabalho.
Você se formará com láureas televisivas, e um saquinho de pão triplamente generoso inaugurará o quarto sobrenome na fachada do escritório. O casamento, meses depois, assegurará o esforço de três sobrenomes na absolvição de seu sogro, acusado injustamente de uso da construtora para lavagem de dinheiro advindo do tráfico de armas e drogas.
De volta da lua-de-mel em Miami, você será agraciada por seu sogro com uma casa em um de seus condomínios fechados, como retribuição pela absolvição. Lá passará alguns dos melhores anos da sua vida, podendo enfim circunscrever sua vida às amigas de sobrenome que habitam o condomínio. Sem indesejados por perto, aproveitará as festas de confraternização do empreendimento, regadas a apresentações in persona de antigos intérpretes da MPB, para se eleger, unanimemente, presidente da Sociedade de Amigos do Museu Histórico da cidade.
Na transmissão de posse de sua prolífica legislatura, você será lembrada por seus pares em frente às câmeras pela notória habilidade em organizar jantares e bailes de refinadíssimo gosto – tudo em nome do Museu.
Mas não acabará por aí sua proeficência social-administrativa. Algumas intervenções cirúrgicas não invasivas e diversas injeções de toxina botulímica depois, a ascendência familiar mui orgulhosa do cruzamento puro de belos sobrenomes atravancará a ação do tempo. Aos 60 anos, a coluna social trocará os esbelta e jovial dos tempos de Rainha por um sofisticado elegantíssima senhora. E com esta alcunha será anunciada sua ascensão à presidência da ilustre Associação das Mulheres de Negócios da cidade, de onde sairá largamente exaltada nas páginas da coluna social por sua magistral condução de bailes e jantares em nome da Associação.
Na sua festa de 65 anos, amplamente antecipada por seus colegas de sobrenome, você será elogiadíssima pela estrutura de primeiro mundo montada em sua chácara. Em meio às andanças pelas rodas, a contemplar os convidados com suas ferozes críticas ao governo popular e com a acuidade de sua visão empresarial, seu olhar se deterá. Para longe, bem longe de suas amigas de sobrenome, alguma coisa lhe trará para cinqüenta anos antes. E você lembrará daquele garoto do colégio; aquele que nunca se deixou levar pela sua idéia de plenitude. E você pensará se teria sido tudo mais difícil, conquanto muito melhor, se tivesse atravessado o pátio a perguntar o sobrenome dele.
…
Mas provavelmente não. E você se voltará à colunista social que fará a cobertura de seu evento, sucedendo ao microfone a recém-eleita Rainha da Exposição.
Escrito por cenarock